14.12.11

Ainda

Não creio em deus nem no amor
não faço figas, não digo o teu nome
mas ando por aí onde não me vês
de mãos nos dedos a contar noites
e a sentir muito as horas inteiras
Faço versos brancos que não és tu
nem as ruas vazias de tanta gente
nem nada que sirva, nada de bom
Sonho às vezes, sonho contigo
e connosco, alegrias pequenas
que não acordam nem lembro
Não creio em deus nem no amor
mas rezo ainda e penso em ti

24.11.11

Vintage

São quase oito e tu à minha espera. O trânsito, a chuva… Mas tu já sabes, sempre o trânsito, sempre a chuva, ou um acidente, ou uma reunião, e tu já sabes, sempre eu, sou sempre eu e tu à minha espera.
Hoje quis que fosse diferente, lembrei-me mais de ti, abri a carteira e olhei para a tua fotografia, a que tirei quando estávamos a ser felizes longe. Onde era? Maldivas, ou Canárias, ou na República Dominicana, já nem sei, éramos tão novos e tu tão linda, tão minha e tão linda eras. Ainda és, sou eu que me atraso porque embruteci, porque me esqueço, sei lá eu porque é.
Dez anos, são só dez anos, já dez anos. Não te sei pesar em tempo. Quantos anos tem um sinal na nossa pele? Ou um dente torto, ou um calo nos dedos que tocamos quando estamos nervosos e nada mais sabemos fazer?
Não há idade para o que somos, talvez nos tenhamos tornado um lugar, como um jardim, ou um quarto que tem o nosso cheiro, ou o berço onde dorme o que inventámos ou a cama onde nós dormimos e às vezes nem dormimos.
Mudo a estação e troco as notícias por músicas de amor. Dez anos e ainda me fazes isto, mesmo atrasado, mesmo careca e bruto do tempo. Chove muito e o carro parado numa fila. Talvez abra a janela e vá a nadar até ti, talvez me chames tonto e digas que nem as penso, nadar na chuva numa noite assim… Depois rio-me e dou-te beijos para que me perdoes e te esqueças do atraso, para que te esqueças de muitas coisas.
Tenho uma garrafa guardada para nós, de um ano único, um ano que guardei para nós. É um vinho doce e delicado, de tempo poisado.
Conheço todos os teus sabores, a menina que foste, a rapariga louca e destemida que tu eras como eu não era, a mulher mãe de agora. Não te devia guardar para noites assim, mas sou tonto, tenho medo que vás e não entendo que quanto mais te beba mais há para beber.
Perdoa o atraso, perdoa-me a chuva, a noite, o tempo.
Faltam-me palavras, sobram-me coisas dentro mas faltam-me palavras. O cantor da rádio di-las por mim, fala de amor, de arrependimento, de erros. Queria cantar para ti assim, que me ouvisses sem me olhares, para entenderes melhor, como eu entendo as canções porque não as vejo e só a chuva, os faróis vermelhos e a hora no relógio.
Vou abrir o vinho e vais dizer que é bom. Tu que nem ligas, que nem bebes, vais sorrir. E eu devia abrir-me a mim, dizer que envelheci por ti para que me abrisses e te pudesse falar com as palavras mais finas, as mais maduras, as que faltam.
Agora avanço um pouco, vou chegando a passo de homem. Em que pensas tu? Que nomes me chamas? Que paciência a tua quando eu não estou e tu conversas com a menina? O papá atrasou-se outra vez, o papá esqueceu-se da gente, bebé, porque tem muitas coisas na cabeça, e um dia vai atrasar-se tanto que já ninguém espera por ele, não é, bebé?
Que cabeça a minha, não nadar na chuva numa noite assim.
És chão em que assento, penso e não te digo. Se um dia me faltas caio logo ali, sem lugar para pôr os pés ou a mim. Morreu por falta de chão, dirão os amigos, um homem a cair por todo o lado.
Hoje vou beijar-te mais e melhor, dizer-te estas coisas, contar os trezentos e sessenta e cinco dias multiplicados por dez e por nós. Às horas bissextas escondo-as numa caixinha, para quando formos velhos e nos faltar o tempo. Ato-lhes um laço vermelho e dou-tas de presente. Toma as minhas horas, trata delas porque eu não sei.
Diz à menina que eu estou a chegar. Diz à menina que tens nas mãos e no peito que eu estou mesmo a chegar.
Já não chove, uma música sem palavras agora, apetece-me cantar mas não sei como. Que ouvisses a mesma rádio e a mesma música com as minhas palavras por cima. Não te esqueças de mim, por favor, não te esqueças de mim.

(Texto escrito para a folha de sala do concerto de comemoração do 10º aniversário do Quarteto Vintage

9.10.11

Black Market

Eram três raparigas que riam, pareceu-me assim. Chegavam da rua e despiam os casacos à volta de uma mesa. Diziam coisas e olhavam em volta, eu estava perto com os dedos suspensos em cima do caderno, olhava para elas.
A música era alegre e havia fumo a subir de muitas bocas, pessoas com pessoas e elas e eu. Duas que se sentam e a rapariga loira num vestido vermelho pergunta a um casal que está à espera de outro, depois olha para mim e de novo para as amigas. Elas acenam-lhe para que avance, a rapariga aproxima-se.
Diz-me boa noite e sorri, aponta para a cadeira como se pedisse desculpa, posso? Digo-lhe que sim e vejo-a afastar-se. Fecho o caderno, apago o cigarro e bebo o que resta da cerveja.
Há noites em que estar sozinho é só estar sem ninguém. 

5.10.11

Menina

Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero

Quando eu for grande quero ser pequena


28.9.11

It's gonna rain

vai chover porque me dói o peito
e nem vi deus ou outro indício
só o peito e uma víscera doente
cheia de reumatismos de amor
tenho o tempo certo de abrigar
numa arca de poucos côvados
cada dois de mim e pão e água
doce que eu beba e me não falte

26.8.11

O Avô Pintinhas

O meu avô é uma gota de passado pendurada na parede da sala. As poucas fotografias que resistiram dizem pouco, uma cara redonda, um corpo maciço e um sorriso de brejeirices com o cigarro ao canto da boca. Uma mulher escura de cabelos escuros dá-lhe o braço numa delas, estão num salão, talvez um clube recreativo ou um baile particular. A minha avó não se vê em nenhum lado.
Chamava-se José Silvério mas todos lhe chamavam Pintinhas. Tinha dois sinais na asa esquerda do nariz e morreu do fígado antes que eu aprendesse a falar. Não fez diferença, porque só agora me lembro das perguntas que lhe queria fazer.
A guitarra tem um nome, chama-se Mercedes e está pendurada por um cordel grosso e encardido, mais escuro ao centro, onde assentava o pescoço do meu avô. É do meu pai que ouço as histórias, a minha mãe guarda silêncios como vergonhas, já lá está, era um homem difícil e muito doido, diz-me ela. O avô Pintinhas não era de andar por casa e vive ainda pelas ruas, mais do que por cá.
Conheço bem os passos do meu avô, as ladeiras e os becos onde se encostava para dormir, os homens que lhe ampararam quedas e humores, “este é neto do Pintinhas” dizem uns para os outros, depois riem e dão-me palmadas nos ombros e oferecem copos de aguardente. Eu recuso e riem ainda mais, “Deixa lá, que só de herança hás-de ter que não te falte.” Na tasca do Artur uma outra foto assinada, Rio de Janeiro, 1954, dois anos antes de a minha mãe nascer.
Dizem-me que os dedos dançavam mais do que tocavam, corriam pelo pescoço da Mercedes, acima e abaixo, em festas loucas que trocavam os olhos à gente, meia dose de homem cambado pelos cantos, mas quando punha a guitarra ao pescoço, ai rapazes… era de valor. As mulheres então ficavam tontas naquilo, adivinhavam o que se escondia e era escolhê-las porque todas o queriam, ao Pintinhas não faltava avio.
A minha avó era cantadeira de soirées, de uma família feita com os dinheiros do bacalhau e mercadorias finas, uma venda bem arranjada onde agora dançam mulheres a mostrar vergonhas, parece pulha do meu avô. A menina tinha o gosto da música e cantava certa, com mais recato do que sentimento, uma voz afinada por outro tempo. Chamam-lhe coitada mas eu imagino-a feliz, menina embalada pela guitarra endiabrada do Pintinhas, quem pudera ter-se por entre tanto dedilhar?
Dizem que a enganou, como se fosse um mal, como se não procurássemos todos o engano que nos falta. O cigarro ao canto da boca, uma mão no bolso e a outra a segurar o queixo, um homem cheio de dedos.
Vou por aí e às vezes perco-me, assento algumas linhas num caderno e acabo sempre por encontrá-lo, anda por aí o diabo. Os registos que ficaram estão gravados em gente como ele, homens esconsos às cavalitas do passado, as vozes tremidas cheias de certeza, o teu avô, menino, cantava assim. O meu avô é eco nesta gente, e eu também sou, sombra de sombras, Mercedes das suas mãos. As mesmas paredes, o mesmo branco agreste da cal queimada nos olhos de tanto tempo. O meu avô, menino, vivia aqui.
Um dia veio um americano e perguntou por ele, levou-o para um estúdio da rádio e tocaram juntos. O americano elogiou-o com palavras que ele não entendia, convidou-o a ir com ele, para a América, “big success” dizia ele, o Pintinhas ria e encolhia-se como podia, América? E a minha Lurdes? No, América no…. E gravaram mais uma música. Foram as fitas para longe com palavras escritas à mão, “Danças no Peito”, “Amores, amores”. Foram as fitas e ficou ele, agarrado à aguardente, à Mercedes, e à sua Lurdes, avô que chegue para ruas tão estreitas.
E o Brasil, avô? E as mulheres, avô? E a Carmen dos cabelos pretos? A voz veio depois, as palavras depois. Um homem já ido, o chapéu tombado e um cigarro encostado à curva do riso. A guitarra já sem cordas, o negro descascado por entre os trastes onde os dedos inventaram sons. Agora pendurada, o avô pendurado com a loucura de ser ele, enganador, danceteiro, homens às voltas e agora não.
Os teus Brazis, avô, as tuas mulheres escuras, um copo de aguardente, homem torto pelo torto da vida, era assim, avô, serve esta voz? É assim que se fala? A Mercedes, avô, gota certa que escorre por entre nós, o som que és e nós não somos. As paredes lembram-te, cantam-te ou calam-te consoante a hora, como eu e nós, avô. Andas por aqui às pingas, a chover-nos em cima, como o tempo, avô.

(Texto escrito para a folha de sala da iniciativa "Fado no Museu" da Câmara Municipal do Porto)

25.7.11

Celeste

Eram sete homens loucos à volta de um homem são, e diziam adeus. Vestiam pijamas à volta dele, abraçavam-no, tocavam-lhe com as mãos e sorriam ou choravam. Ele chamava-os pelos nomes secretos que tinham, Jesus, Belzebu, Salazar, Sebastião, nomes de guerra e de ser louco, de fugir com as ideias de uma cabeça doente.
Ele de mala na mão, corpo direito e lágrimas verticais, “a seguir são vocês… Tu, Rasputine, tu também, Madalena, a seguir são vocês.”Cá fora a família que espera, alegria e medo, quem és tu agora que a nós voltas, por onde andaste, quanto de ti te resistiu? Olhos limpos a adivinhar o mal escondido nos pijamas e nas árvores do jardim.Ele dá dois passos e olha para trás, mais quatro e alguém corre até ele. Salomé puxa-o pelo ombro e abraça-o com um cheiro íntimo, “tenho uma coisa para ti, para que te lembres de mim e de nós, para que possas voltar se o dia não te quiser.” Uma pequena caixa azul na mão, “adeus, adeus.”Atravessa o pátio e o portão, cumprimenta a mãe, o pai e o irmão, um último aceno e entra no carro. A caixa em cima dos joelhos, uma música a tocar no rádio e o silêncio nos lábios. Os dedos percorrem as arestas azuis, lentamente, como um gatilho. Ele sabe o que vai dentro porque já lá viveu, alguém abriu e alguém fechou. Ele sabe, porque é ele que lá vai dentro.


(Publicado no Pnet Literatura:  http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3623)

22.6.11

Maria da Saudade

falta-me ver deus, falta
faltam-me dedos nas mãos
e lugares no corpo e alegrias
beijos azuis que não demos
nas nossas bocas encolhidas
o céu, sabes, o céu inteiro
sol e dias e outras manhãs
sons de festa e de começo
nós antes de nós e de tudo
quando o tempo sobrava
quando tu não eras noite
e eu ainda não te vestia 

29.5.11

Pré-publicação do primeiro capítulo de "No Meu Peito Não Cabem Pássaros"

Nova Iorque



– São quatro segundos, caro amigo, quatro segundos de afli­ção que não dão para um pai‑nosso. O amigo experimente, pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no PAM!, quatro segundos e o corpo despedaçado contra o cimento. Se quiser continuar a trabalhar aqui, invente uma oração, pense bem no que há‑de pedir ao altíssimo, mas que seja em menos de quatro segundos.
Dois homens pendurados por arneses a oitenta metros de altura. Os que trabalham dentro chamam‑lhes pardais com uma ironia desnecessária. Quarenta e oito horas semanais de equi­librismo pagas a quatro dólares, um bom emprego para quem acaba de chegar à cidade. A fome mata‑se muitas vezes com núme­ros de circo, ser equilibrista ou palhaço é só uma questão de oportunidade.
– Quando o mundo foi feito, os homens foram postos na terra de pés assentes e medo das alturas. Os homens não são do alto, como os pássaros e os anjos, a vertigem foi‑nos dada pela natu­reza para que não o esquecêssemos. Os homens que sobem dema­siado alto são puxados para baixo pelo diabo, para baixo de tudo, para o inferno que procuram. A força da terra é força do diabo a chamar gente.
Karl tenta não ouvir o colega, concentra‑se na janela e no rodo que faz deslizar com precisão. Este é o primeiro dia de trabalho e ensaia um desvelo que não lhe é comum. Por entre os movimentos do braço e o chiar da borracha contra o vidro, há palavras que lhe chegam e ficam às voltas na cabeça. Céu, cimento, diabo, inferno. Karl nunca esteve tão longe do chão em toda a vida, pouca gente esteve. As montanhas do seu país são uma coisa diferente, altas, sim, mas vão subindo devagar. Esta parede é demasiado vertical, como o degrau infinito de uma escada absurda, um degrau que é fácil descer.
– Eu não hei‑de cair enquanto o mundo não se virar. Não há diabo que chegue ao santíssimo. Há quase um ano que trabalho nisto e deus nunca me deixou cair, um homem deve precaver‑se e foi o que fiz. O pastor deu‑me na mão uma pena de anjo, uma pena às cores de um anjo que o foi ver, e eu trago‑a cosida ao peito. Esta pena é de puxar para deus. «Cose‑a ao peito e nada te pode deitar abaixo, o coração há‑de puxar‑te sempre para cima enquanto a trouxeres contigo.» Foi o que me disse o pastor antes que eu aceitasse este trabalho. Uma parte do ordenado vai para a igreja e mais que fosse, o favor de deus não tem preço e até os pardais podem cair sem penas de puxar para cima.
Tremem as pernas a Karl de frio ou medo, a esta altitude não há diferença. O vento anda com eles de manhã à noite, como um cão vadio que não tem para onde ir e se mete pelas pernas de quem trabalha. Karl dá por si a inventar orações, é um exer­cício difícil, reduzir a algumas frases tudo o que se quer pedir ao criador. Por fim decide‑se e repete para si mesmo «Perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor...», a fórmula é simples e tem a vantagem de poder ser usada também em que­das pequenas.



10.5.11

Poemas e Pardais

As galinhas vêem o vento. É verdade, disse-me um dia um velho.
Disse-me também outras coisas, umas em que acreditei, outras que já esqueci.
A tristeza que temos não nos pertence só a nós, é tristeza de toda a gente.
Disse-me que somos fracos e que em vez de a soprarmos, como os outros sopram, nos pomos a escrever poemas, é assim que nos perdemos. Fazemos a escritura da tristeza e depois… meu amigo. Foi o que ele disse… meu amigo.
Todos os pássaros sabem voar, disse ainda, mas as galinhas são finas… ao ver o vento viram os bicos para baixo e fingem procurar grãos de milho, ou minhocas, ou coisas pequenas que vivem na terra. Os pardais que se lixem se querem tanto voar.
Elas vêem o vento e andam gordas, os pardais é que não. 

8.5.11

É Tarde

Os olhos fixos no que há-de vir. Um amigo, uma mulher, um nome. É tarde, é hora de outras coisas, hora de ser outro e de ter outra vida. Mas estou aqui, com o luxo atrasado de perder-se um homem, no tempo, no resto de alegria que aqui guardo.
Vamos para minha casa ou para longe, onde havemos de rir? Não há um lugar exacto para nós. Podemos ser o que quiseres, quase tudo, quase o que esperámos.
Faz assim, ama-me assim… quase que te apanhei. Não, não faças isso, não ames a estas horas. 

21.4.11

Vamos aos Segredos



Vamos aos segredos com uma cesta
calça os pés e põe o melhor cabelo
vamos de passeio às cores de hoje
fazer buracos em amigos e flores
Se tu quiseres dou-te um beijinho
e digo-te coisas novas com a língua
coisas que voam e são vermelhas
ou azuis ou quentes ou com as mãos
Apanham-se com espantos e amor
vivem por baixo de nós às vezes
quando dançamos em cima deles
e fingimos que não lhes ligamos



9.4.11

País

Portugal é como uma bonita bandeira de Portugal ao vento. Um pedaço de pano impresso que estremece e se esfiapa até ser só o pau onde um dia o penduraram. 

6.4.11

Acordar um Dia XLIV

Acordar um dia entregue a um futuro incómodo. Os que hão-de vir, o mal escondido que aqui anda, a podridão de sermos estes aqui agora.
Andam a foder-me os sonhos, os lindos sonhos que eu insisto em praticar. Flores, sol, mulheres, palavras, dedos, mar, dinheiro e fome. Coisas lindas e coisas estragadas, os sonhos fodidos. Porra para eles, porra para nós, porra para isto.
Acordar um dia sem mais, comigo, connosco, com o pouco de bom que ainda guardo. Os senhores dão-me licença que sonhe sem vós? Os senhores dão licença que vos mande à merda? Muito agradecido. Eu sei que é pouco e triste e não contenta, mas é a minha vida, queria-a simples e asseada, descalcem-se antes de entrar, calem-se antes de entrar, matem-se antes de entrar. Muito agradecido. 

30.3.11

Avesso

A palermice de um corpo aqui deixado
de mãos e pernas com cabeça em cima
Sentes? Sinto, vamos cantar ou morrer
dar pulos ou dormir por muitos anos
Vou fazer assim e dizes que me amas
os dois ao poço, um corpo e um corpo
Dedos e boca e cabelos e pele e sangue
um novelo de gente com outra gente
Bichos, estrelas mancas ou cadentes
buracos por onde nos enfiamos a dois
A cair um dentro do outro, um e um
dentro de nós, no lindo avesso de nós
Do outro lado disto, onde se é ou não
se é, onde nada nos saiba alcançar 

23.3.11

País Menino

País assim, que chora e faz chorar no colo, nós nele, ele em nós por onde menos o queremos, onde menos falta faz. De brincar e atirar ao ar, upalalá, país bola e cavalinho. Quem é o meu menino? Somos todos polícias e ladrões, corremos uns atrás dos outros, uns dos outros, todos maus, todos bons, todos a fingir sei lá o quê, sabemos lá nós. País pai pátria mãe, filho mimado da gente, a correr sem pernas nos cueiros encardidos de tanto tempo, demasiado tempo. Não mexas no mundo que está cheio de porcarias, não vás para fora que te levam, vem o estrangeiro e rouba-te para longe de ti e de nós, para o tempo deles, para amanhã, não vás, não vás. Não vamos.

13.3.11

Lonjura

O tempo é velho, a noite é
velha também, o verbo gasto
de estarmos aqui antes de tudo
Esta mão tem anos e dedos e eu
não sei o que tocou nem de quem
foi a mão que me segura o braço
Os nossos corpos vieram cumprir
danças e sede e martírios doidos
As nossas pernas caminhos de
lonjura que os olhos não
vêem, não podem, não
sabem como medir

7.3.11

matei-me muitas vezes



matei-me muitas vezes por
pensamentos e omissões
mortes mínimas de nada
solucinhos de tédio vindos
de onde nascem os saltos
e os sustos e o mau amor
as vezes que me fiz ao mar
depois de não ter comido
as laranjas de prata e ouro
que afinal eram de noite

1.3.11

Acordar um Dia XLIII

Acordar um dia como deus manda. Os dez mandamentos na agenda e um coração pio como de ave o canto.
Depois aquilo, e ele a rir-se, o cabrão… Que me perdoe o altíssimo, mas ficou tudo fodido, tudo assim mesmo, sou eu que o digo.
Amei-me a mim, mais do que tudo, praguejei até ficar rouco, e nem quis saber se era domingo. Insultei-lhe a mãe e o corno do pai e depois matei-o, o espigão da sachola bem enterrado no olho esquerdo enquanto o direito me olhava com pouco querer.
Fui a casa dele e tratei-lhe da mulher, levei o dinheiro que encontrei e disse-lhe que esperasse o marido caladinha, prometi-lhe mais para cedo e decidi que aquela casa haveria de ser minha.
É afinal o mal das listas e dos domingos na província. 

21.2.11

Arte Poética I


Atira o televisor do alto da cabeça,
Os jornais também, mesmo os bons
Os amigos chatos e alguns dos outros
Amor à pátria, ao clube e ao partido
As notas maiores que tiveres no bolso
Guarda as moedas, sobretudo as pretas
Do emprego, só o que lhe é estranho
Do amor gemidos, dor e vontade
Faz aviões dos poemas alheios
Sopra-os com ideias e certezas
De ti pouco, só mão, sexo e olhar
O que te resta é poesia

12.2.11

Manhã

Que momento é este
em que tu de um lado
e eu de outro, daqui  
te vejo e me sossego
Vamos e vimos de tanto
lugar, abrigados num verbo
único que é segredo nosso
Somos bichos de ser assim
braços brancos onde a luz
que venha há-de poisar
Temos curvas dóceis de sono
e um desenho de pernas ocas
onde cabe tudo, até amor

11.2.11

desses que vão em cantigas

sou desses que vão em cantigas
doido e leve como homem vivo
um sem abrigo de ninguém de nada
entre mim e o vento fora e cá dentro
à espera das horas como outros do táxi
tenho bolsos cheios de mãos abertas
tenho um sonho doente que me sonha
como ruas me atravessam e olhos
me não vêem porque eu me fecho
vivo deitado na incerteza dos dias
e sinto nas costas e no sono leve
o palpitar de pernas e gente em cima
suspenso como pó nuvens ou fumo
mais do sopro do que dos dedos
um voo à espera de um pássaro

8.2.11

Combinatória

Estremecido de tragédias, sujo de medo e de vida (a morte dos outros chega-nos sempre em vida), tacteava os dias como um cão que sente a trovoada. Encostado aos muros, recolhido em cafés e tabernas, deitado até tarde no exercício fraco de sentir (não existem pressentimentos, só cães para quem as trovoadas chegam mais cedo).
Fazem-se descobertas admiráveis ao desrespeitar a realidade, livres disso e de certezas. Como do que acontece, ou do que não é porque deve ser mas porque assim calhou. Há coisas importantes porque as vimos, outras porque as pudemos imaginar.
Por exemplo um homem que atravessa um mal e agora descansa, vivo e de olhos abertos. Mas a morte do homem está também presente, porque foi chamada e esperava-se. Felicite-se o homem e chore-se também, não há por que ceder à sorte.
Os acidentes que se escondem no banal: as quedas dos graves, crimes de sangue ou de carne, um desvio de trajectória, um raio que também cai (quanto pesa um raio?). Num mesmo instante, o que é e o que pode ser, o corpo imóvel e a boca fechada, igual fazer ou não fazer, ir ou não ir, et caetera.
E os deuses, coitados, os deuses são como cães assim, ou homens ou árvores cansadas. As cabeças escondidas no lençol e o dia imenso (dos deuses, dias como bombas) a esgravatar a janela.
Por entre as rezas de um acidente há vozes que sobem e outras que descem, os deuses também são gente, a gente também é gente, et caetera. 

5.2.11

Olha que os nossos velhos sabem muito
com as mãos e com poemas que vêm
de lugares esquisitos para onde eles olham
Desde que foram à lua… e têm razão
está tudo escangalhado, não vês?
está tudo cheio de entulho, e o espaço
e as estrelas, e os sonhos também estão sujos
Já não se pratica a aventura do lugar
já ninguém diz adeus por muito tempo
só por morte ou tédio ou indiferença
porque nada é longe ou estrangeiro
Aventuras só nos dias, ou no amor
passeamos por horas incertas e rombas
por corpos estranhos e alheados
estive ontem em ti e perdi-me
Temos todas as condições para um milagre
estamos a uma ideia do infinito, de uma coisa
linda que não sabemos imaginar
Sujámos o ar e deus e tudo
sujámos as cabeças e o resto
sobram-nos olhos e falta-nos o olhar

12.12.10

Haja Disso

Dói-me como ao outro doía a cabeça e o resto. Isto está pelas horas ruins, apetece rebentar por dentro ou por fora da gente, a sério que apetece.
Acordo um dia e outro à espera do que deve acontecer porque me prometeram coisas boas. Espero tanto e tão bem que o faço enquanto durmo, sou cada vez mais o que hei-de ser.
O tempo é a arte mais fina, arte bonita que raros artesãos cultivam de olhos fechados. Uma filigrana escura e frágil por dedos esguios a pensar no amanhã e no ontem.
Tenho a vida guardada num dia secreto, tão linda, tão linda.
Uma senhora disse-me que estava farta de olhar. Não diga isso, não diga nada, são horas que passam, senhora, são horas. Haja saúde e amanhã, haja disso. 

21.11.10

Malacia

No comboio nocturno gente daqui para lá. Os vidros espelhados confundem o exterior com o que vai dentro e todos paisagem de olhos alheios.
Já não se fala nos comboios como se falava nos comboios.
Os desconhecidos são-no cada vez mais, profissionais de nunca os termos visto. Ninguém pede o jornal emprestado, ninguém corteja, já quase ninguém assobia.
Uma menina diz as terras, a voz da menina, ela não se encontra, passageira só de voz. A próxima paragem… As terras que se inventaram pelo meio das que se conhecem. A menina sabe-as todas, a voz da menina.
Os que vão sozinhos carregam com os dedos nos telemóveis ou falam com eles. Tanta gente a comunicar e tão poucos os que falam.
Nunca os revisores foram tão magros, nunca as carruagens tão limpas e tão às luzes, parece parva a noite e as terras dos nomes.
O som das rodas mal se ouve em cima das rodas, escondem tudo esses ladrões, anda tudo bem escondido. 

14.11.10

Afrodite




Uma fronteira desenhada num papel branco tão branco. O que eu penso, o que eu sou, confina no traço escuro de uma mão que me é estranha e não me toca.
A dor é de dentro, o prazer, o frio, a solidão que vai aqui.
A forma é minha, a forma é desenhada e levada num olhar, nesses olhos que roubam e por isso espelham almas e gente e o que está dentro. O que tens, dá-me a tua forma, serves-me assim.
Cabem vidas inteiras no corpo magro de uma mulher.
As noites de um corpo voam no papel e queimam tudo, asas pequeninas de horas atrás de horas, voos tortos e tão pequenos. Dá-me um contorno que seja meu, um volume onde guardar o que me pesa.

7.11.10

Um Grande Escritor

Vi um grande escritor por detrás de óculos muito escuros.
Um cartaz anunciava-o disposto a assinar livros a quem os comprasse, eu tinha o meu e cheguei-me. O escritor estava sentado com um homem ao lado e uma fila de gente à frente.
Foi no meio de um centro comercial, entre a cozinha típica da avó (que avó, deus meu da idiotice, que avó?) e uma loja de cuecas e meias.
Havia também palhaços a esculpir balões e meninas que vendiam seguros e telemóveis e sorrisos que eram cãibras rasgadas na maquilhagem.
Eu pus-me na fila com o meu livro, e o livro é triste e profundo e eu fui ali à procura de consolo e perspectiva, para ver um homem que risse e dissesse que tudo estava bem, era só um livro afinal.
Mas o escritor tinha óculos escuros e dava à mão como os palhaços e sorria como as meninas e eu apertava o livro e senti a tristeza na pele apesar da foto colorida da capa que alguém inventou para o desculpar.
Havia música alta e anúncios e promoções, crianças que apontavam o grande escritor e riam dos óculos e eu na fila a apertar. Uma senhora dizia que desde que o outro morrera este era o maior e levava quatro livros na mão, a outra dizia que sim e carregava três.
Uma menina de uma marca qualquer aproximou-se de um senhor idoso que a sacudiu com a mão e por um instante, por um brevíssimo instante, o rosto caiu-lhe numa expressão que era humana e que eu pude entender.
Foi em cima do livro triste que eu assinei o que ela me pediu. Tinha os olhos castanhos e banais, olhos que se viam e eu assinei por cima do livro um contrato que segundo a menina me vai deixar muito satisfeito. 

28.10.10

Acordar um Dia XLII

Acordar um dia com o futuro amarrotado e sujo.
Alguém me engelhou a vida enquanto dormia, uma maldade inútil.
Saio à rua sem o futuro e vejo outros como eu. Alguns escondem a pilinha por detrás de ideias muito esfarrapadas, outros riem, há quem voe como se nada importasse.
Vêm senhores de outros países olhar para a gente, dão-nos moedas e nós bebemo-las porque não temos bolsos nem temos nada. Os senhores dão-nos beijinhos na melancolia e depois partem porque se faz tarde. Nós ficamos, porque somos daqui, porque sublimámos o tempo à força de o não ter.
Ficamos assim quietos entre o mar e o estrangeiro, numa falha de mundo feita à nossa medida. A aprender coisas secretas e a deitá-las ao ar, ocupados no exercício louco de ser vento.
Num dia desatento serão os peixes a pescar-nos para o fundo, e nós vamos, nós vamos sem nada que nos prenda.

26.10.10

A Dar Com o Sol



Tu não sabes, não sabes nada, mas um dia acordei com certezas coladas à pele. A janela estava aberta e não era suor, era um líquido pesado e eu abri os olhos e percebi tudo.

O peso que levamos nas pernas é todo feito de tempo. Levamos o tempo de passeio nas pernas até que um dia… sabes? Um dia o tempo farta-se e trepa por nós acima e ficamos… sabes?

Um dia espanto e depois nada, foi o que eu pensei muitas vezes, perde-se o espanto com as pernas. Uma senhora que aí andava ficou maluca de dançar e tiveram que a levar, essa nunca mais morre, foi a dançar para a rua.

O sol é mal empregado em mim, lembra-me as coisas lá de fora e é tudo mal empregado em mim. Tu nunca soubeste dançar, não sabias de nada com as pernas, eras galante sempre no mesmo sítio... Este sol é uma demasia de mundo.

Está calor ou frio aqui? Nunca nada está bem, mas eu já nem sei porquê, lembras-te daquela cantiga? Aquela que eu gostava… canta uma qualquer, o que eu gostava de cantigas, canta uma qualquer, uma que dê com o sol. 


(Desenho de Marco Mendes)

27.9.10

Mano a Mano

À minha frente como eu estive
perdido, mal achado, de frente
ao tão grande, ao oco de nós.
De eles, deles o oco, nosso o saber
de certas coisas que são só de perder.
Lembro-me nele, sinto-me nele,
os dias medidos por beijos mancados,
os gestos amputados que ainda dançam
pelas mãos e são ânsia certa como noites.
Bebemos juntos por copos desiguais
do mesmo, um irmão, um como eu
 se não fosse eu. Um outro copo e a
mesma dor a apertar o que já não é.
Somos todos tão parecidos neste lugar,
encontrados no nosso desacerto
de querer de querer de querer.
Que porra tão grande que é aqui. 

12.9.10

Sabes da Areia?

Sabes quando percebi que a distância
de mim para ti era recíproca, que era
uma distância que ia e vinha e ia e vinha?
Sabes quando é que eu vi o sol morrer?
O sol, no mar onde morava o que era nosso.
Sabes quando é que eu compreendi
que era pequeno assim, pequeno como um dia.
Sabes quando é que eu te vi mulher, uma
mulher para amar ou não amar ou amar.
Sabes, sabes o que aqui vai? O que aqui dói?
Os metros de tanta coisa, as horas, os reflexos
nossos dourados e laranja de finitos e nossos
sempre, até ao fim, do dia, do sol, do fim.
Sabes de nós? Da praia grande que nos sobrava
e nos enchia os pés de horas e de beijos, a areia
fina que não nos faltava entender. 

Cruzinha

Disseram-me mas eu não acredito
que um tempo era tudo assado,
os homens e as mulheres encontravam-se
faziam ou não faziam amor e depois sorriam.
Os homens, que raio, as mulheres, que raio,
para mais a fazer ou não fazer. Que vagares
e que modos os dessa gente sem propósitos,
sem ambições nem carreiras, dispostos ao tempo
e a sorrir como se o mundo fosse de alegrias.
Eu sei bem que é tudo assim como se vê,
uns e outros e outras com agendas escondidas
nos cus a fazer cruzinhas muito objectivas.
Chefe de duas pilinhas e um telefone, cruzinha
coordenador de tristezas e tempo deitado ao tempo,
cruzinha. CEO da puta que me pariu, cruzinha.
Depois um homem, uma mulher, copos e uma festa
de escritório, o vinho, o Lopes que engraçado,
vives aqui sozinho? Que casa tão grande, também
adoro o Cole Porter, dá-me matulão, ai que doida.
Os cadernitos pretos estão sempre ao fundo da cama,
o primeiro a acordar que o apanhe, é um igual ao outro,
no quadrado branco à frente das letritas: já te fodi,
cruzinha.

7.7.10

Uma Esquina

Um café como outros cafés, desses onde se vai e por vezes se está. Ficava numa esquina e tinha duas janelas, cada uma virava para uma rua diferente. Eu estava sentado com a desculpa de um livro, ouvindo quem falava e olhando quem lá estava. As pessoas são engraçadas por detrás de livros e de coisas que são nossas, parecem bonecos a fazer o que lhes apetece.
O empregado falava com o patrão de casos acontecidos, alguém que foge sem pagar, a loira sem cuecas, essas conversas de empregado e patrão. "Ai senhor Carlos, eram umas pernas que pareciam elevadores..." No meio disso olhei por uma janela e vi gente a andar, com pesos, com sacos, com nada. Era hora de voltar a casa. São horas tensas e confusas, pouco dadas a pormenores, o jantar, a mulher, os sapatos que apertam, mas foi também hora de espanto, mais para mim que há anos que não volto a casa. Os senhores gordos e os outros, as meninas e as mulheres que me passeavam os olhos pela primeira janela falhavam clamorosamente ao chegar à segunda. Não estavam, não eram, ficavam-me as consequências perdidas, desviadas por nada. Para onde ia tanta gente? Se era uma esquina, um caminho que dá noutro... ah gente arrenegada.Nessa esquina maldita contei eu entre o que vi, que foi só hora e meia de aflição, quarenta e duas pessoas perdidas para todo o ser. Enfim, não tanto assim, da janela dos destinos emergiram sem pressa três cães e um pardal. Todos riam, os animaizinho. Que alegres e joviais criaturas. 

30.6.10

O Lopes

Era em muitos aspectos um funcionário exemplar. O Lopes chegava a horas e não falava pelos cantos com a voz surda de dizer mal. Fazia o que havia de ser feito e bem, diligente e sério, era o Lopes. Discreto também, à parte aquilo, claro está, mas discreto. Sempre de fato escuro, a camisa engomada de punhos imaculados, como se o trabalho não passasse dos dedos para cima. O Lopes era o senhor Lopes e homem de família, muito capaz de ir à primeira missa da manhã e deixar uma nota de euro no cesto da espórtula. Quem soubesse não poderia adivinhar, mas assim era, assim.
Às vezes à hora do almoço, subia por esse céu acima e mordiscava a sandes como um deus da ligeireza. O malandro do Lopes. Outras vezes a propósito de nada: ao subir as escadas, numa raiva de más palavras (de resto atiradas ao ar), ou mesmo pelo calor, como um balão que sobe daqui para lá por pressões e correntes secretas.
A gente sente-se muitas vezes sem saber porque é. Coisas que se fazem e que parecem mal sem que más sejam. Como estacionar um Porsche e sorrir à toa para os demais, ou dormir com a Clarinda na festa de natal e pegar ao trabalho com roupa de véspera. Nem é inveja, mas talvez seja inveja.
Um dia escolhemos alguém que foi perguntar. Escolhemos-me a mim, e eu fui. Cheguei-me ao Lopes e num intervalo de dia atirei como fosse nada, “Olha lá, ó Lopes, e isso de levitar?”. O Lopes encolheu os ombros e atirou ar pelas ventas, “Oh, isso… cada um com a sua maluqueira, não é assim António? Cada um com a sua maluqueira. Olha, a pescar perde-se mais tempo”. E tem razão o Lopes, o mais é vontade de implicar.

18.6.10

Obrigado


"Só porque vivemos absortos é que não reparamos que o que nos vai acontecendo deixa intacto, em cada momento, o que nos pode acontecer"
José Saramago
Citado de memória com a voz ainda triste e incerta.

15.6.10

Retrato III

Ela que acena por não ser só silêncio.
Ele que fala de coisas dele, de bola pois, do carro pois, do governo pois. As frases são escalas que começam graves e sobem aos agudos da indignação. Tanta indignação.
Ela diz que sim longe dali, a filha pois, a casa pois, o amante pois.
Nas esplanadas de domingo estendem-se as almas ao sol.

12.6.10

Conto de Dar aos Dedos

Lembro-me bem porque era eu. Dias como festas porque éramos novos e tocávamos à campainha e os amigos desciam à rua onde vivíamos. Todos, sempre.
A bola, a bicicleta, os livros de BD e os outros. Vivíamos em casas por detrás de campainhas e de mães, o tempo enchia-nos os sapatos como areia e valia o mesmo. Os segundos que agora não tenho foram gastos em matraquilhos e em máquinas de dar e receber pancada. Aprendia-se tanto aos murros como a ler romances. De resto, estávamos todos vivos e brincávamos a perder dias e a dar porrada.
O Carlos ainda por lá anda, deve andar, nunca mais ninguém o viu. O Carlos era uma criança dotada, sabia mais que nós e punha o nome nas máquinas. Para mim ficou ali, criança dotada para sempre, agarrado à máquina a olhar para os parvos em que nos tornámos. Somos tantos a ser parvos e o Carlos a dar pulos até ao tecto e a deixar o nome de arte: “Maléfico”.
O Pedro gostava de carros, agora é só um que tem um carro. O Rui queria ser cientista e hoje é triste e cientista. Eu também tinha as minhas ideias e vontades, tão vagas, tão gerais, que quase todas se cumpriram. Até estar com uma mulher e fazer porcarias como nas revistas. As mulheres não têm onde deixar o nome mas algum dia alguma me há-de calhar com tatuagem nos rins: “Maléfico” e o cabrão do Carlos a rir-se de dotado.
Às vezes cruzamo-nos mas já não sabemos falar, tontos e torpes que ficámos. Já ninguém sabe truques, os segredos que temos dormem connosco e é como se não servissem. A crescer aprendem-se artes e esquecem-se truques, ficamos sábios e pouco espertos. Só que não ficamos sábios, é isso, ficamos só assim.
A vida é que nos tramou, a idade é que nos tramou, o mundo é que nos tramou, nós é que nos tramámos. O Carlos não. Tenho uma cicatriz na testa e outra na perna, depois virei-me para dentro. O que vai num corpo tão grande, faltam-me truques para o corpo e para tudo o que tenho.
Resisto a mariquices, saudades e tal, mas às vezes falta-me uma campainha qualquer, carregar num botão e ouvir uma voz eléctrica que pergunta para que eu responda: “sou eu”. Um amigo a descer escadas e eu escondido a preparar um susto. Depois porrada e correr depressa a fugir ou à procura de qualquer coisa.
 
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