30.6.09

O Marcelo (Décima Quinta Parte)

Há milhões de pessoas viciadas no jogo. Slots, póquer, dados, roleta... jogos. Milhões de esperanças que se entregam diariamente a dinâmicas esconsas. “Às vezes ganha-se”, é esse o mantra maravilhoso que vai roendo devagar tantos fiéis da ventura. Pela minha parte sempre fui um céptico, cauteloso, previdente, cobarde mesmo. Mas o Marcelo tirou o “às vezes” da frase e as perspectivas mudaram substancialmente. Ganhávamos, sempre. Jogo após jogo, com maior ou menor facilidade, com sorte e sem ela. Nenhum adversário era para nós intransponível porque aprendemos a conhecê-los. Não há ninguém que não tenha falhas, debilidades, calcanhares do outro. Uma lição importante.

Durante algumas semanas corremos um número improvável de salas escondidas, casinos ilegais e torneios oficiais. Aperfeiçoámos o número e ninguém se ficava a rir. Só nós ríamos, muito e com vontade. Acumulámos uma soma considerável, o meu salário muitas vezes multiplicado e por muitos anos, uma mala de viagem cheia de notas grandes. Tudo aquilo me parecia um longo sonho, com muito fumo e gente embrulhados nas minhas noites.

O Marcelo estava diferente, talvez tivesse voltado a ser o que era antes de eu o conhecer. Incitava-me a luxos a que eu não estava habituado, fazia-me comprar lagostas, caviar, champanhe, iguarias de filmes que eu não costumava ver. Eu fazia-lhe a vontade e nem tinha grandes razões de queixa, uma pessoa habitua-se a tudo, mesmo ao caviar. Uma noite, enquanto digeríamos um jantar de muitos euros, o Marcelo ficou sério e perguntou-me por mim. “Então e agora? Tens dinheiro, muito dinheiro, viste um mundo que não conhecias e aprendeste a praticar o amor-próprio. O que queres vais fazer com isso?”. Parecia uma pergunta simples e eu tentei responder várias vezes até perceber que me faltavam as palavras. Ó raios, que iria eu fazer com tudo aquilo?

“Já vi que não ligas às coisas que a mim me dão prazer. Comes pouco, não sabes beber e vestes qualquer coisa que tenha buracos para enfiar os braços, cada um é como é. Mas diz-me uma coisa de que gostasses, um desejo, um capricho...” Eu calava-me e vasculhava o cérebro à procura de uma vontade, de algum querer. Uma única coisa me veio à ideia e algo em mim o deve ter revelado. “Ainda pensas na miúda da tabacaria não é? Nunca lhe falaste a jeito, mas ainda pensas nela... Pois é isso que tens de fazer, amanhã de manhã compras o jornal e não sais de lá sem a convidar para jantar. Usa a desculpa que quiseres, diz-lhe que ganhaste um vale para dois num concurso da rádio, qualquer coisa, pelo que eu vi não me parece que ela precise de grandes explicações”.
Não sei como é com outros amigos imaginários, mas o Marcelo tem um modo de dizer as palavras e fazê-las definitivas, fazê-las futuro. Era o que eu deveria fazer, Marcelo dixit. Faça-se então o que deve ser feito.
(Continua, em breve)

29.6.09

O Marcelo (Décima Quarta Parte)

Assim que o funcionário abandonou a mesa fez-se uma pausa. Eu aproveitei para ir à casa-de-banho onde pude falar com o Marcelo. Tudo corria bem até ao momento, nada de exaltações, mas tudo corria bem. Chegava agora o momento decisivo, hora de afinar astúcias. O velho e a mulher estavam demasiado distantes para que Marcelo desse conta dos dois, impunha-se uma escolha. Sabendo um dos jogos eliminávamos um concorrente, do outro havia que descobrir algum segredo, uma fraqueza que o tornasse vulnerável, conhecido. À mulher era impossível observá-la, (ainda mais para o Marcelo, dado como era a escorregar em terreno lúbrico) pelo que havia que mirar o velho, alguma coisa deveria esconder, afinal de contas era apenas um homem.
Recomeçámos. Caras lavadas, sorrisos amarelos e falsas simpatias repartidas pelos três. À primeira mão já Marcelo esperava de joelhos por detrás da mulher. Um três de ouros e um sete de paus, coisa pouca. Eu tinha um par de noves, o velho tinha o que tinha. Fosse Marcelo dotado do condão da ubiquidade e talvez o meu estômago não desse os coices que dava. Mas o condão não era e os coices sim.
Partiram as apostas, o meu jogo era superior ao da mulher e o ar seguro deve tê-la desencorajado. Fiquei eu e ele. As fichas foram aumentando na mesa e a última das cinco cartas a ser mostrada era um nove de copas, o que me deixava com um trio. Era uma combinação razoável, muitas vezes suficiente mas ainda assim frágil. Do Marcelo não recebi nenhum sinal e quando o velho subiu a parada eu receei. O sacana era de facto imperscrutável. Não fui a jogo, a prudência dar-nos-ia tempo para o estudar.

Na mão seguinte tentámos outra estratégia, a pedido do Marcelo retirei-me ao início e deixei-os jogar os dois. Ela tinha dois pares, o que lhe dava óptimas possibilidades, mas mais uma vez o velho apostava com energia. Foi por essa altura que a expressão do Marcelo mudou, tinha descoberto qualquer coisa. A mulher mostrou-se corajosa e foi a jogo. Voltaram-se as cartas, o velho tinha apenas um ás, fora um logro. O Marcelo veio até mim a saltar de felicidade e revelou-me a descoberta. “O raio do velho aperta os tomates quando faz bluff, é por isso que não ri nem muda de expressão, está concentrado nas dores lá de baixo”.
Declarámo-nos independentes da sorte e a partir daí arrecadámos tudo o que podia ser arrecadado. Primeiro os mais velhos e finalmente a senhora (o Marcelo fizera questão de a aguentar na mesa por um pouco mais). Coisa limpa, bonita de ver, o investimento multiplicado por cinco (aparte a comissão do homem grande) e nós com a alma aos pinotes, uma coisa bem feita sim senhora.

(Continua, em breve)

27.6.09

Marcelo (Trezena Parte)

Falemos agora do procedimento. A cada jogador são dadas duas cartas, duas. A melhor combinação entre estas e as cinco cartas dispostas na mesa dita o vencedor. Quem perde as fichas vai saindo do jogo, até ficar apenas um. Um vencedor que leva tudo e quatro perdedores que voltam a casa com as mãos vazias e o coração cheio de rancor. Se não rancor, pelo menos remorso, ou desalento, ou um projecto vago para mudar de vida.

O nosso plano assentava na invisibilidade do Marcelo, julgávamos ter aí uma vantagem considerável. O problema é que nos jogos sérios, envolvendo trocas monetárias, as cartas escondem-se bem, mesmo de gente invisível. Seria impossível a Marcelo ver o jogo de todos eles, talvez de um ou outro, mas não mais. Marcelo teria de aproveitar a fracção de segundo em que cada jogador vê o próprio jogo, a partir desse momento as cartas são deitadas de costas e assim ficam até ao final. Prevendo estas dificuldades havíamos decidido que durante um primeiro momento nos guiaríamos apenas pelo instinto e pela experiência de Marcelo, aguentando o jogo até individuar os melhores jogadores, a partir desse momento daríamos início ao ardil.

Começou-se a medo, devagar, com muitos olhares em volta e bambeares de corpo. Não houve apostas altas nem grandes perdas mas começaram a definir-se tendências. Os meus oponentes revelavam-se, as máscaras iam-se descolando com o suor e deixavam entrever nervos íntimos, tensos e vibrantes.
De todos, o mais curioso era sem dúvida o mestiço. A sua face espelhava as probabilidades de vencer. Não sorria e não se movia, era a sua fisionomia que se alterava. Quando o jogo era fraco parecia uma estátua de ébano mal talhada, com sombras improváveis despontando por toda a face. Se a sorte lhe era favorável, tornava-se numa criança redonda e luzidia. A própria cor da pele parecia ser sensível ao rumo do jogo. O funcionário era um homem inseguro, pernas a abanar em contínuo e mãos que não encontravam onde ficar por mais de cinco segundos. Nos momentos críticos que pediam decisões, aumentava a frequência das oscilações ao ponto de as transmitir aos copos de whisky. O número de ondas presentes na superfície do líquido dava uma medida exacta das inquietações do indivíduo.
O velho era absolutamente inexpressivo, ganhasse ou perdesse mantinha exactamente a mesma cara e só convocava os músculos para fumar ou beber. Nenhum ponto fraco à vista, um adversário difícil.
Finalmente a mulher... ninguém era capaz de olhar muito tempo para ela, não era possível. Bastava-lhe um movimento ligeiro, feito com uma qualquer parte do corpo, para desviar atenções e enxotar curiosidades. Os nossos olhares saltavam dos ombros para o decote, do decote para as pernas, das pernas para as mãos e no meio desse frenesim não havia modo de compreender o que quer que fosse. Prestidigitação segura e experimentada.

O jogo prosseguia e os elos fracos estavam agora a ponto de se romper. As fichas que lhes restavam não davam para fazer cantar ninguém e as ondulações no whisky faziam temer pelos cubos de gelo. Eu ia-me aguentando, sem grandes perdas ou ganhos mas colado ao pelotão da frente. Em breve seríamos três à mesa, passávamos ao segundo nível. O Marcelo piscou-me o olho e depois fez a dança dos momentos decisivos, demasiado parva para ser aqui descrita.
(Continua, em breve)

13.6.09

Coisas Acontecidas

Matou-a à machadada porque lhe faltava a coragem para matá-la de desgosto, de vazio e de tempo perdido.

9.6.09

Acordar um Dia XXVIII

Acordar um dia cedo ó i ó ai
com a alma assim-assim ó i ó ai
não há vento que me leve ó i ó ai
não há gente que me ature ó i ó ai.

(Estribilho dos dias neutros. O quarto e último "ó i ó ai" é manifestamante excessivo e adoidado, recomenda-se a sua omissão. A lacuna métrica pode ser colmatada com um prolongamento da segunda sílaba de "ature")

8.6.09

O Marcelo (Duodécima Parte)

Chegou a noite do primeiro embate. O jogo, o campo de batalha tantas vezes antecipado em delírios heróicos e vontades épicas. A hora era a hora. Saímos de casa calados um para o outro. As vestes sóbrias mas afirmativas, os modos duros e decididos. Eu era um miúdo em dia de faz-de-conta, mas não o disse, nem a mim nem ao Marcelo.

Fomos de Táxi até um bairro que quase poderia ser sério, mas não era. Tocámos à campainha e sai de lá uma voz que pergunta um monossílabo, eu respondi, “Boa noite para quem for”, a porta abriu-se. Subimos as escadas iluminadas por uma luz esforçada e antes de entrar trocámos olhares confiantes, aqui vai disto.

A sala tinha as dimensões exactas e a mesa ao fundo guardava uma cadeira vazia. Um braço esticado indicou-me o meu posto, algumas vozes rosnadas deram as boas noites e um homem grande explicou as regras do jogo. Todos conheciam as regras. O dinheiro foi trocado por fichas e acenderam-se os primeiros cigarros. Eu esperava charutos, mas foram cigarros.

Éramos cinco, não contando com o homem grande que ali fazia apenas de homem grande. Começando pela esquerda e no sentido dos ponteiros do relógio: Um senhor de uma certa idade, que era a da velhice, com muitas rugas na cara e olhos que tinham passado muitas taprobanas, os gestos calmos, os olhos não. Depois um tipo mestiço, feito de raças que nunca se deveriam ter cruzado, um riso que prefiro não lembrar. O seguinte era do género convencional, saído de um banco ou de uma repartição com a gravata lassa e a camisa suja no colarinho. Finalmente, uma mulher, dessas que podem ser qualquer coisa e cujo corpo comporta enormes vantagens estratégicas. Era loura, ou morena.

Uma ronda de olhares, alguns dedos estalados e estavam reunidas todas as condições, a partida ia começar.

29.5.09

Acordar um Dia XXVII

Acordar um dia...pois sim, isso. Coisas que se vão dizendo. Mas quem o diga pese a palavra atrás da língua. O sono e a vigília, aceso e desligado, numa dualidade perfeitinha e escorreita. Mas não é exactamente assim, pois não? Entre um e outro quantos graus e degraus? Quanto pesa um sono descansado? Quanto luz na lucidez? Muita, pouca? A que horas nos vamos sabendo despertar? Quanta noite dormimos?
Os olhos que fecham o mundo nem sempre abrem o sono, é assim não é?
Pois, é isso.

26.5.09

O Marcelo (Undécima Parte)

O Sonho do Marcelo

Só mulheres são tantas. Estão vestidas de preto mas não se confundem com viúvas. Não são viúvas. São órfãs de um pai que não o seu. Vestem de preto mas assemelham-se a putas.
São putas.

O padre parece contrariado. Está contrariado. Dirige a função, reza, pede pela alma e tem o rosto crispado. Também ele é uma puta, uma puta espiritual, com o corpo e o gesto longe do querer. O padre veste de branco.

Do círculo interno fazem ainda parte outras personagens. Homens de poucos dentes, familiares constrangidos e uma mulher igual às outras que não é igual às outras. O coveiro não tem opinião e olha para cima, para o sol. Há mais novidade no sol do que na cara das pessoas, pensa o coveiro.

Outros observam de longe, alguns conversam entre si e outros não. São quase todos homens e têm olhares duros, olhos de ver morte. Vieram à procura de confirmação, de certeza. O caixão está fechado mas tem o peso de uma vida e eles sabem-no.

Há dois miúdos parados ao longe, empoleirados no muro. Um veio por curiosidade, o outro veio do passado e não existe verdadeiramente. Estão os dois em silêncio desigual, empoleirados no muro.

Alguém canta uma cantiga distante, demasiado distante para ser ouvida. A cantiga é triste como podem ser todas as cantigas cantadas lá longe.

A terra cai às pazadas e o mundo vai ficando baço, como a cantiga. Distante, demasiado distante para ser ouvido.

7.5.09

Acordar um Dia XXVI

Acordar um dia com palavras estrangeiras metidas pelos interstícios das ideias.
Assim mesmo, pelos interstícios das ideias.

4.5.09

O Marcelo (Décima Parte)

Começaram os ensaios. O Marcelo ensinava e eu tentava cumprir da melhor maneira possível. Primeiro foram as regras, simples mas cheias de subtilezas, dessas que fazem um bom jogo. Seguiram-se depois as diferentes estratégias ofensivas e defensivas e algumas manobras de diversão. Desde que o conhecia nunca o tinha visto tão sério e tão compenetrado, irritava-se facilmente com a minha inépcia e repetia tudo mais depressa e com raivas na voz. Quando me apanhava distraído mandava um berro e depois proferia discursos que me pareciam desproporcionados “O póquer, como qualquer jogo, é uma guerra. Mais importantes do que as armas com que te bates é a coragem que tens ou que inventas e teres a cabeça limpa para ver o que os outros descuidam”. Ensinou-me a não beber durante os jogos, mas a fingir que bebia. Uma garrafa de bolso cheia de sumo de maçã e um “ahhh” curto depois de cada gole.
A parte final do treino foi dedicada ao corpo e à expressão. Eu nunca imaginara a importância que poderia ter a distância entre o corpo e a mesa, ou o ângulo dos cotovelos ou mesmo o entrelaçar dos dedos. Ainda mais decisivo era tudo o que ficava do pescoço para cima. O Marcelo explicou-me detalhadamente e como se fosse um segredo o seu modelo dos sete sorrisos e doze olhares. Segundo ele, a perfeita combinação entre uns e outros era capaz de provocar os mais variados efeitos num adversário. Uma ida à casa de banho, uma comichão no nariz, um arrepio no fundo das costas... Todo o tipo de distracções e condicionamentos físicos e mentais passíveis de inverter o delicado equilíbrio de forças.
O curso durou uma semana em que pouco dormi. Nas poucas horas em que o consegui fazer sonhei com cartas e homens de bigodes ensopados em whisky. Imaginava sequências e bluffs épicos durante as horas de trabalho e mesmo enquanto comia dava por mim a praticar o olhar com os outros clientes do snack-bar.
Quando a semana terminou eu sentia-me já um jogador, um ilusionista das possibilidades, como dizia o Marcelo. Estava pronto para a batalha.
(continua)

22.4.09

Acordar Um Dia XXV

Acordar um dia sabendo-se mortal. Ainda assim ser capaz de sair da cama e viver as horas sem tempo, como as crianças e alguns loucos.
Ao final do dia fazer amor com vontade ou ter vontade de amor. Depois cantar coisas antigas e fazer manguitos à noite.

20.4.09

O Tigre de Metro e Meio

“Tantos, muitos e bravos. Vão sendo lembrados por aqui e por ali, num jantar de gala, nas celebrações oficiais, enfim, essas merdas. Muitos são ainda hoje conhecidos, o Bernardes, o Mendes de Brito, o Curado Cruz, o Ravinas, o Rocha Melinho, enfim... essa malta. Mas o nome dele parece que desapareceu para sempre, uma rasura na ficha de jogo e outras mil na memória de quem viu. Maldito jogo e maldita vitória”

Dizia-me estas coisas e bebia mais vinho. O lugar era uma tasca da baixa que eu acreditava estar encerrada há pelo menos sete anos. Talvez estivesse para mim, mas não para o Ferreira Fonseca, o “Tigre de Metro e Meio”. Setenta e cinco anos rijos e cirróticos como poucos. Dizia-me estas coisas e bebia mais vinho.

“O Joaquim Eulógio era de uma raça aparte, uma raça aparte, ouviste? As avarias que ele fazia com a bola não eram deste mundo, era o que a gente pensava e era verdade. O homem tinha mistério, aquilo era pacto com o Sujo, mas a gente não sabia. Foi um ano excepcional, limpávamos os jogos todos. Por mim não passava nada, nem bola nem pernas nem nada! Ouviste? Nada! O Expedito governava jogo, com os olhos lá para a frente punha a bola nos pés de qualquer um, sacana do Expedito... Depois vinha o Eulógio e ela estava lá dentro em menos de um ai, tinha uns pés que faziam renda e um remate que ai Jesus. Um diabo é o que ele era, um diabo ou vendido ao diabo que é a mesma coisa”.

A tasca estava vazia e os berros do Ferreira Fonseca faziam eco. A velhota que servia os tintos vinha do nada, de uma escuridão cheia de objectos estranhos lá por detrás do balcão. Vinha, servia o vinho sem uma palavra e voltava para o escuro.

“Alguma coisa a gente sabia, havia histórias... a unha de javali pendurada ao pescoço, as rezas numa língua esquisita... latim ou chinês ou que raio era aquilo... e depois aquela coisa, nos quartos-de-final, viu o Ribeiro e jurava pela mãezinha. Quando um homem jura pela mãezinha é porque viu ou então é parvo... mas o Ribeiro não era parvo e viu. Estava atrás da baliza, já todos tinham ido para casa e ele ali, em tronco nu com uma faca na mão e uma galinha na outra, uma galinha preta, preta ouviste?”

A velha tinha ligado o rádio e ouvia missa, às sete da tarde numa quinta-feira nenhuma rádio passa missa, mas no rádio da velha sim. O cheiro das cigarrilhas do Ferreira Fonseca começava a deixar-me agoniado, ou talvez fosse o vinho, mas eu queria ouvir o resto da história. Dei mais um trago de olhos fechados e devolvi-lhe a atenção, parecia estar a chorar mas talvez não estivesse.

“No dia da final tínhamos as tripas às cambalhotas, aquilo ia ser o jogo mais importante das nossas vidas, era daquela vez ou nunca mais... a equipa era boa mas não se ia aguentar, não havia massa, os gajos de Lisboa já tinham comprado metade do plantel. Andávamos todos de cá para lá como baratas tontas, mas ele não, estava sentado sozinho com cara de abantesma e calado que nem um rato. O mister chamou e lá fomos para o relvado. Eu nunca tinha visto tanta gente... bandeiras e berros e gaitas e quê... um arraial... e a gente à rasca.
O jogo, já se sabe, foi o que foi. Começámos a correr e nem tripas nem gente nem nada, só víamos a bola e a baliza. Os outros coitados nem sabiam para que é que os tinham chamado. Foram cinco bem aviados, cinco, ouviste? Parecia a feira popular, mais uma corrida mais uma viagem e toma lá disto... dos cinco três foram do Eulógio, pé esquerdo, pé direito e uma cabeçada mais certeira que um taco de bilhar, limpinho. O homem estava em todo o lado, nem Deus nem nada, aquilo é que era onipotência e onipresência e pai nosso que estás no céu, que no campo só estava o Eulógio. Foi o herói do jogo, e das vidas daquela malta...Acabou a função e parecia o fim do mundo, um mar de gente aos gritos, os garotos e as miúdas a rasgarem as camisolas e o champanhe a descer pelas goelas... naquele tempo não havia vergonha no beber... estávamos nisto e alguém quis saber do Eulério, onde está o artista? Onde está o artista d’um cabrão?”

Mas já ninguém foi capaz de o ver, só mais tarde, no dia seguinte... todos procuravam e chamavam por ele mas nada... até que veio a mulher, aflita, com uns olhos que metiam medo e a repetir as mesmas perguntas vezes sem fim, “Onde está ele?”, “Onde está a minha menina, ele tinha trazido a menina, alguém viu a minha menina?” ninguém tinha visto, ninguém sabia de nada. Até ao dia seguinte, foi aí que se soube tudo... a menina foi encontrada por detrás da baliza, foi algum que viu a terra mexida e ficou desconfiado... e o Eulério foi achado no rio, a boiar inchado ainda com o equipamento vestido”.

Por esta altura já não eram palavras que saiam da boca do Ferreira Fonseca, o “Tigre de Metro e Meio”. Eram lágrimas e dores e vinho numa mistura mil vezes repetida. Eu não pude suportar aquilo nem mais um minuto, deixei uma nota grande na mesa, apertei-lhe o ombro com força e saí. Para trás ficaram os restos de um homem, o fantasma de uma velha e uma tasca que já não existe há muito tempo.

17.4.09

O Marcelo, (Nona Parte)

Fomos até um sítio de gente alegre. Bebemos algumas cervejas enquanto o Marcelo comentava a população feminina do bar. Não pude deixar de admirar o seu poder de observação e a precisão notável com que isolava os mais ínfimos pormenores. Era capaz de conhecer todo o passado de uma mulher e de prever o seu futuro partindo de coisas mínimas. Uns sapatos gastos, um anel de imitação, as unhas roídas e mal pintadas, um suspiro discreto. Qualquer coisa lhe servia para contar histórias mais ou menos sórdidas que se faziam verdadeiras pela qualidade da narração.
Quando se lhe esgotaram os espécimes e a imaginação o Marcelo virou-se para mim, mudou a expressão facial, baixou o tom de voz e passámos então às coisas sérias.
“Eu tenho um plano. Um plano que te pode mudar a vida e pode mudar-te a ti. Se aceitares fazer tudo o que te digo, como eu te digo e quando eu to digo, verás que daqui a algumas semanas, um mês no máximo, serás um tipo diferente. Pode até acontecer que dês em ser feliz, mas isso não ouso afirmar, desconfio do teu talento para a depressão. Ainda assim acho que só tens a ganhar, não podes ficar muito pior do que já estás e asseguro-te que vai ser uma experiência levada da breca. Uma coisa diferente, percebes? Uma coisa diferente”

Perguntei-lhe que plano era esse, embora me apetecesse dizer logo que sim. Sentia dentro de mim o tremor que antecipa as quedas nos abismos ou os grandes feitos, pelo menos assim imaginava, já que eu não tinha qualquer experiência em tragédias desse calibre.
“O plano... O plano é simples. A primeira coisa a fazer é arranjar dinheiro, algum dinheiro. Culpa a sociedade ou a natureza humana se quiseres, mas sem dinheiro és quase tão invisível como eu. Vamos primeiro tratar disso e depois passamos à segunda fase”. Parecia-me um raciocínio difícil de rebater, fiz-lhe sinal que continuasse enquanto apoiava os cotovelos na mesa em posição interrogativa.

“Ora bem, acontece que eu sei de um sítio pouco público onde todas as sextas-feiras se reúnem algumas pessoas para se entregarem à prática do jogo a dinheiro. O acesso à mesa é particularmente restrito, mas mencionando alguns nomes que eu conheço ser-te-á concedido o benefício da dúvida. Ali joga-se póquer, e joga-se forte. São todos jogadores experientes, capazes de dobrar colheres com os olhos de bluff, mas têm a desvantagem de não possuírem amigos invisíveis, e é aí que reside a nossa margem de lucro. Eu vou-te explicar as regras e a gíria da modalidade, depois vamos trabalhar na tua personagem e assim que estiveres pronto tentamos a sorte. O mais importante é que sejas capaz de manter um ar credível enquanto vês os sinais que eu te faço, eu logo te digo se deves ir a jogo ou desistir. É simples, é fácil e vai ser uma experiência levada da breca... um coisa diferente, percebes?”
Percebi. Depois senti um calafrio pelo espinha abaixo e um tremor esquisito no olho esquerdo. Eu não estava habituado a essas coisas, ficava nervoso só de as ver na televisão, mas o Marcelo dava-me segurança e tinha um olhar de tal forma esgazeado que me seria impossível dizer que não. Uma experiência levada da breca, com certeza meu vaporoso amigo, uma coisa diferente pois então.
(continua)

14.4.09

Acordar um Dia XXIV

Acordar um dia com uma frase do Cesariny que eu gostava de ter escrito.

"O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é"

O sacana do Mário roubou-me a frase 20 anos antes de eu pensar nela depois de a ter lido num seu livro.

13.4.09

O Marcelo (Oitava Parte)

Quando saí do quiosque, na circunstância de ser quem sou, vi o Marcelo. Esperava-me encostado a uma parede e pela sua expressão parecia ter percebido tudo. Pela expressão e também por todas as perguntas maliciosas que me fez mais tarde. Tinha ido resolver alguns assuntos, rever passados e cheirar o rio que era ainda o mesmo. Quis saber o resto do meu dia mas mudou logo de assunto, por delicadeza ou desinteresse. Trazia nos olhos um brilho de novidade; ideias provocadoras, maldades previstas, um brilho desses. Caminhámos lentamente pela rua, a par e passo com as suas curiosidades e o seu interesse infantil por tudo quanto via.

Passámos por uma sapataria e ele ficou a olhar para uns sapatos feitos à mão. Indicou-mos e disse que me deveriam ficar bem, eu sorri um sorriso pobre e afastei a ideia com um aceno vago. Repetiu o gesto ao passarmos por outras montras, relógios, gravatas, vinhos importados. Expliquei-lhe o que ele já sabia e voltou-lhe o brilho aos olhos. “Mas gostavas de ter, não gostavas?” E eu que sim, mas que eram objectos para outros, eu nem era materialista, bastava-me ter o que comer e os trocos trocados em tabaco. Então ele ganhou uma expressão nova e olhou-me como se fosse um evangelista ou um vendedor de outras coisas, “e a rapariga do quiosque, também é para outros?”. Eu fiquei sem resposta, mas devo ter balbuciado qualquer coisa, que relação havia entre os sapatos e a rapariga? Estas foram as palavras de Marcelo, um discurso demasiado coerente para ser improvisado:

“O teu problema, meu caro amigo real, é tu não perceberes o que queres nem como o podes conseguir. Andas aí a empurrar os dias em pantufas, a viver envergonhado por ocupares o teu espaço e nem és capaz de perguntar a uma mulher qual o seu nome. Tens medo de incomodar o mundo pelo simples facto de existires, por isso segues mudo e triste e pobre, a pedir desculpa a um Deus em que não acreditas por teres uma vida que não praticas.
Os sapatos da loja e a rapariga do quiosque representam exactamente a mesma coisa, algo que tu queres mas finges não querer porque não sabes como o conseguir.
Por sorte ou por qualquer outra coisa tens-me a mim, um pedaço de um teu sonho que tu não conseguiste apagar a tempo. Estou aqui, fugi, e agora sou eu que te vou guiar a realidade.
Eu tenho um plano, vamos beber uma cerveja num sítio de gente alegre que eu já te conto tudo”
(continua)

7.4.09

Acordar um Dia XXIII

Acordar um dia sem ela.

De seu apenas os cheiros, um desenho de batom e a cova no sofá.

E o resto.





Ilustração de Marco Mendes

6.4.09

O Marcelo (Sétima Parte)

A tarde passou isenta de manifestações psíquicas. Pela minha parte abstive-me de pensamentos estranhos e contive a curiosidade. Essa curiosidade minha que é já de si bastante contida, mais feita de desejos do que de persistências. Estou habituado a não chegar com o intelecto a certas miragens do espírito e parece-me tudo natural. Dos fenómenos da alma não percebo eu mais do que dos do corpo, mas continuo a comer, a sonhar e a ter comichões. Em algumas horas apaixono-me e nunca sei se o faço com o corpo que sinto ou com a alma de que desconfio. Nessas alturas ardem-me partes de fora e de dentro e a fronteira torna-se difusa e irrelevante. A minha paixão é assim. Depois passa-me e volto a não sentir nada e como e sonho e coço-me onde me devo coçar.

Às seis horas da tarde eu deixo de trabalhar e são agora seis horas da tarde. Arrumo as coisas feitas e as coisas por fazer, depois desligo o computador, fecho a janela e visto a gabardina. Verifico se tenho tudo o que preciso, desligo a luz e fecho a porta. Despeço-me dos meus colegas que gostam de ficar mais uns minutos, aqueles poucos minutos suficientes para não serem os primeiros a sair. Os minutos suficientes para me poderem olhar com mais alguns centímetros de altura e outros tantos de dedicação. Mas às seis horas da tarde eu deixo de trabalhar e são agora seis horas e dois minutos.

Saio do edifício e sabe-me bem cheirar o vento. Nem é bem um vento, é uma brisa, um desses ares de verão que se passeiam devagar e cheiram a longe e ao passado. Eu caminho devagar mas com os passos certos que me levam até ao quiosque “Império”, é lá que compro o tabaco de cada dia e o jornal dos sábados. Também é lá que trabalha uma certa rapariga, da qual não sei o nome nem quase nada.

Se eu não fumasse e não lesse o jornal aos sábados, talvez passasse a mastigar pastilhas ou a jogar no loto, talvez comprasse selos, carteiras de cromos para um sobrinho ou livros de palavras cruzadas. É que eu gosto de vir ao quiosque “Império” e gosto de esperar que a rapariga me atenda e que ela sorria para mim. Gosto que me pergunte “então é o costume?” e gosto de lhe dizer que sim e sorrir-lhe também. Dão-me sempre ganas de falar com ela, de partir de algum tema banal e fazer como as cerejas, ir pelas palavras fora pendurando umas nas outras até ela ter um nome e eu poder dizer “por acaso tem mesmo cara de...”.
Naturalmente, acabo sempre por lhe falar do tempo, com pequenas observações idiotas e banais às quais ela só pode responder “sim” ou “pois, nesta altura já se sabe”. Mas ela fá-lo com um sorriso novo e eu fico contente e esqueço-me das cerejas, digo-lhe “boa tarde e até amanhã” e saio satisfeito como um infeliz.
(continua)

5.4.09

De um Homem que Foi Visto sem Ver

As coisas mais belas passavam-lhe ao lado e ele assobiava para dentro e pensava em mistérios. Ele não via as coisas belas. Importa dizer que ele não as ignorava porque fosse cego (embora o fosse), também não era por estar embriagado (embora estivesse embriagado). Fazia-o porque a beleza dessas coisas belas pertencia a outros, à natureza, a todos. Os seus pequenos mistérios incompletos e mal desenhados eram só dele e estavam destinados a ser esquecidos.
Talvez com benevolência, talvez com um outro sentimento frágil, mas qualquer um poderia perceber que apesar de tudo ele não era parvo nenhum. Talvez um pouco... talvez, mas parvo não era.

3.4.09

O Marcelo (Sexta Parte, Um Fado Marcelo)

À sorte pelos desejos
De ardores e de bocejos
Asas tortas de voar
Mãos que sentem e não tocam
Risos doces que sufocam
Em vontades de beijar

Mal vivido mal sonhado
Um ser misto e roubado
Num incerto sentimento
Canto surdo de querer
Mais da vida do que ser
No durar de um momento

São passos de uma dança
É um golpe de vingança
Palavras ditas à toa
Neste sangue alguém morreu
Se não é um fado fui eu
E um amor que já não voa

31.3.09

O Marcelo (Quinta Parte)

Anos, tantos anos a trabalhar no mesmo sítio. Até todos os colegas se terem tornado em categorias mentais, mais do que as pessoas que provavelmente são. O tipo de bigode e mau feitio, o magricela insolente, a Dona São escondida por debaixo da base e do batom carmim, o João fininho que gargalha os dentes podres em trocadilhos ordinários e todos os outros, e ainda eu, eu que serei lá o quê de insuportável e ainda não me apercebi.

A presença do Marcelo naquele ambiente mudava a perspectiva. Éramos ainda tudo o que sempre fomos, o que sempre somos, mas éramos também diversos. Tínhamo-nos transformado em caricaturas, como aquele miúdo gordo de uma série juvenil que aturamos porque é a fingir. Passa o genérico, muda-se de canal e todos imitam a voz do miúdo para rir e fazer rir. A manhã passou assim, com actores de segunda a fazerem deles mesmos e o meu carimbo a servir de aplauso. Muito bem Dona São, bravo Senhor Altino, que impertinente este Joãozinho...

À hora do almoço o meu amigo fictício (para quem?) despediu-se invocando o desejo de dar uma volta pela cidade. Acrescentou algumas palavras sobre lugares e gestos antigos e eu, embora não percebendo, acenei-lhe como se piscasse o olho. Comi sozinho e entretive-me a inventar histórias para ele, coisas de amores ou ódios antigos, dessas com que se fazem novelas e fados populares. Mas por alturas da mousse interrompi-me com um pensamento; se o Marcelo era o meu amigo imaginário então era porque o imaginava, e se eu o imaginava então talvez estas minhas histórias se pudessem concretizar e suceder-lhe na realidade. Fiquei assustado com a perspectiva de tanto poder e já nem acabei a mousse, fiz por pensar noutras coisas; futebol, seios, cães aos caracóis, as contas por pagar, outros seios, algo que não fosse os destinos do Marcelo. Uma coisa é invocar alguém, por descuido ou lá pelo que seja, outra diferente é manipulá-la com se ela fosse uma marioneta e nós esses senhores que manipulam as marionetas. Não estava certo, ele que fosse lá à vida dele mais os gestos e os lugares que para manipulações chegavam-me bem as apólices e as indemnizações.
(continua)

Demográfica

- Achas que no mundo existe uma mulher certa para cada homem e um homem certo para cada mulher?

- Acho que no mundo existem demasiadas mulheres e demasiados homens.

- Queres dizer que assim é mais difícil de encontrar a alma gémea?

- Quero dizer que assim é mais difícil viver.

29.3.09

O Marcelo (Quarta Parte)

A manhã entrou cedo pela janela e esbofeteou-me sem piedade. Não sei se acordei ou se fui ressuscitado mas senti resistências obstinadas do corpo e da alma. No sofá jazia um Marcelo ressonante e baboso num quadro muito pouco digno. Olhei para a rua na esperança de ver passaritos ou as flores de alguma vizinha, alguma coisa com ares de redenção; mas quê, uma senhora barbuda mexia nas tripas de um contentor e o miúdo do 1º esquerdo fazia-me piretes com a língua de fora. Bom dia mundo, só um bocadinho que eu já vou.

Quarenta minutos bem contados, era o tempo que eu tinha até dar entrada no escritório. Era o tempo exacto para um duche a correr que não garantia a imaculabilidade de algumas concavidades do corpo, depois a roupa ao acaso enfiada à pressa e um café instantâneo com duas bolachas ligeiramente obsoletas. Estava eu a terminar a segunda quando entrou na cozinha o Marcelo. E que Marcelo... tinha vestido o meu fato de cerimónia com a gravata às flores, calçado os sapatos de verniz e o cabelo penteado com esmero. “Vamos trabalhar?”. Eu estava com pressa, ressacado, sem paciência, suspirei e lá fomos os dois.

Eu não sou um executivo. Tenho um emprego precário numa seguradora onde passo o dia a arquivar apólices, a avaliar pedidos de indemnização e a remeter qualquer decisão por mais mesquinha que seja para os meus superiores hierárquicos. É isso que eu faço dia após dia, levar papéis de um sítio para o outro, passar letras para um computador e marcar as horas que perco com o carimbo da empresa. A vida desperdiçada para a poder ganhar, a vida vendida por um salário mínimo e meio e ninguém que me dê mais.

O Marcelo não via as coisas pela minha perspectiva, parecia até divertir-se naquele ambiente austero. Passeava pelos corredores com um ar sério e pedante, mirava os ofícios com um olhar circunspecto e assistia às reuniões de chefia como se fosse parte interessada. De vez em quando passava pela minha secretária e perguntava-me com um ar paternalista “Está tudo a andar rapazote?”. Enervava-me aquele seu fazer de conta, mas ao mesmo tempo dava-me vontade de rir, como se o escritório se tivesse transformado num palco e todos fossemos actores de um acto absurdo.
(continua)

28.3.09

Acordar um Dia XXII

Acordar um dia... sim, mais um acordar de mais um dia. Não é contudo uma grande avaria.
É fácil acordar do sono, mais difícil acordar da vida. Abrir os olhos antes que nos abanem, lavar a cara por via das dúvidas e dizer alto (no talho, no supermercado ou na missa)

“porra! que eu tenho estado a dormir”

O Marcelo (Terceira Parte)

Comeu-se, comemos. Ele mais do que eu, incomparavelmente mais do que eu. Uma vez saciados saímos para dar uma volta. Uma volta como quem diz... fomos até ao bar mais próximo onde continuámos as nossas estranhas práticas de consumo. Ele por debaixo da mesa e eu a pedir bebidas como se me ardesse o fígado. Ficámos embriagados em menos tempo do que o que leva a cantar “O Romance do Falso Cego” e se o sei é porque o Marcelo o cantou, e eu com ele. Não chegámos a acabar o romance, mas a certa altura isso deixou de ser importante.
Apercebo-me agora, mais do que quando aconteceu, da figura que devo ter feito. Os olhos fixos numa cadeira vazia, indicador espetado a bater o compasso e a voz fugidia a repetir os finais dos versos. Assim me terão visto os que me viram e melhor fora que não. Isto dos amigos invisíveis tem os seus encantos, mas não faz bem à imagem de uma pessoa.
Dali, para casa, ambos os dois num slalom virtuoso que nem precisava de obstáculos. E depois, depois risos e confidências como se tudo fosse natural e as noites pudessem terminar assim sem sentido.

Não me lembro do que foi dito, mas engracei com o tipo, sabia coisas de mim e tinha-me estima. Ri-me com ele e talvez tenha até chorado, foi uma dessas noites. Foi o início e não foi mau. O Marcelo viera para ficar, imaginário ou não era um tipo engraçado que ouvia o que eu dizia. Era também capaz de dançar em chinelos e declamar poemas empoleirado numa janela. Os meus poucos amigos não faziam destas coisas, eram reais mas eram chatos e a vida é curta e a vida é triste e eu precisava de um Marcelo, o resto são psicanálises e ciências que me não interessam.

(continua)

26.3.09

O Marcelo (Segunda Parte)

Eram inúteis as desculpas, o importante é que o meu amigo tinha fome e havia que alimentá-lo. Saímos os dois de casa e fomos até uma churrasqueira, dessas onde os pobres dos frangos passam os dias às cambalhotas bronzeando-se em frente à grelha.

A indumentária do Marcelo causava-me alguma apreensão. Vestia um pijama às riscas amarelas e trazia calçados uns chinelos do Pato Donald que lhe davam um andar estranho. Porquanto ele pudesse ser fictício, aqueles não eram preparos para sair à rua num dia sem terramotos. Lembrei-me então que talvez ele se apresentasse invisível a todas as outras pessoas, como nos filmes de domingo à tarde. Deixou-me sereno esse pensamento e senti-me até privilegiado, talvez eu fosse o único capaz de o ver e de o ouvir, como num filme de domingo à tarde. De resto tudo parecia confirmar tal hipótese; durante os duzentos metros que fizemos até chegar ao “Imperador dos Galináceos”, eu cauteloso nas minhas elucubrações e ele assobiando em traje de palhaço pobre, não vi que se voltasse uma só cara franzida em espanto ou censura. Tendo em conta o carácter conservador e moral do bairro onde eu vivia, em que uma camisola mais arrojada poderia votar o prevaricador ao desprezo ou ao degredo, ficava provada a invisibilidade total e capaz do excêntrico Marcelo.

Chegados ao “Monarca do Aviário” sentámo-nos num canto discreto e perante o olhar desconfiado da empregada pedi uma dose capaz de alimentar uma matilha de lobos; enfim, uma pequena matilha de lobos medianos. O Marcelo esfregava as mãos de contente e pôs-se a cantar uma música parva que falava de uma estalajadeira gorda que tinha uma filha gaga. Que sítios estranhos deve frequentar a malta imaginária.

Esperávamos pela comida e eu tentava saber da sua vida fazendo-lhe todo o tipo de perguntas abstrusas. De nada valeram os meus esforços, ele respondia-me com frases retorcidas e incompletas que interrompia a cada dois segundos para espreitar a empregada. Acabei por desistir e lá chegaram os frangos acompanhados por algumas batatas vividas e uma salada inconsolável. O Marcelo lançou um grito de guerra e meteu-se debaixo da mesa de onde me pediu uma coxa, aparentemente a sua parte preferida. Enquanto mastigava alarvemente explicava-me por gestos que assim se evitava o assombro dos outros clientes.
Tinha razão o Marcelo, mesmo no “Reino dos Galiformes” uma coxa a voar sem frango era coisa de admiração.
(continua)

25.3.09

O Marcelo (Primeira Parte)

Foi um dia, ao chegar a casa pela tardinha. Eu abri a porta do quarto, como às vezes abro, e o Marcelo estava deitado na cama a ler um livro e a assobiar. Fiquei espantado, claro que fiquei espantado, mas o Marcelo não. Olhou para mim, sorriu como quem sabe coisas e disse boa tarde, depois voltou ao livro. Eu disse também boa tarde e pousei a pasta e pousei a gabardina.

O Marcelo estava sereno e eu não soube logo o que fazer. Esperei um bocado, sentei-me numa cadeirita que eu lá tenho e fiquei a olhar para ele à espera que algo acontecesse. Ele terminou o capítulo, dobrou o canto da página, calou o assobio e pôs-se de pé sempre a sorrir. Apresentou-se, disse-se encantado por me conhecer e agradeceu-me pela oportunidade. Ora eu continuava perplexo, mas ia dissimulando, disse-lhe que não tinha nada que agradecer, que o prazer era todo meu e como quem não quer a coisa perguntei-lhe exactamente a que oportunidade se referia ele (eu sou por vezes de uma grande subtileza). O Marcelo riu à gargalhada e eu ri também, por simpatia e entretenimento. Ele então contou-me tudo e eu admirei-me muito e mais do que já estava, ficando mesmo bastante admirado.

O que o Marcelo me disse é que ele era meu amigo imaginário, o único, pelas informações de que dispunha, mas ainda que outros houvesse não se arreliaria ele por tão pouco. Que sabia que eu tinha problemas e dormia mal, da vida que não me corria a direito e das minhas diversas angústias. Assim sendo, decidiu aproveitar o meu sono atropelado da noite anterior e infiltrar-se por entre a malta duvidosa que me abanava os pesadelos. Logo que chegou a manhã e a farândola partiu para outros reinos, o Marcelo escondeu-se numa zona escura da consciência e ficou ali, à espera que eu acordasse. O resto fora fácil, assim que eu mal abri os olhos enramelados, ele deslizou para debaixo da cama e ficou caladinho até eu sair de casa.
“Tenho fome” disse-me ele logo a seguir e eu lembrei-me que de facto não tinha em casa nada que se comesse. Nestas ocasiões se apanham os desprevenidos, tivesse eu um pouco de pão e um naco de queijo e nenhuma visita, por mais inesperada, me faria passar vergonhas.
(continua)

24.3.09

Expectativas

-Sabes, no fundo sou um tipo razoavelmente bem sucedido
-E isso chega-te?
-É melhor que nada
-Sim, qualquer coisa é melhor que nada
-Olaré!
- ...
- ...
- Sabes, mestes-me um certo nojo.

Teoria da Evolução

No princípio era um ser unicelular capaz de se replicar. Este desenvolveu-se em bactérias, depois algas, esponjas e anémonas. Algumas plantas e animais primitivos começaram então a invadir a terra e pouco depois temos os primeiros insectos e anfíbios. Seguiram-se então os répteis que deram origem aos mamíferos.

Os mamíferos evoluíram rapidamente e tornaram-se cada vez mais complexos até surgirem os primeiros símios, os Australopitecos. Estes dão lugar ao Homo Erectus, depois aos Neandertais, e cerca de 130 mil anos antes de Cristo surge o primeiro Homo Sapiens. No XXX século d.C. vêem-se os primeiros Super Homens que rapidamente evoluem para Semideuses e nos finais do XXXIV século chegam finalmente os Deuses Maiores.

A partir desse momento tudo se tornou mais complexo e a evolução segue de forma independente em cada um dos mundos criados por estes Deuses. Existe contudo uma fórmula inicial comum e um procedimento bem estabelecido que consiste em usar o pó do solo para formar um ser de sexo masculino e dar-lhe vida através de um sopro divino. Um outro truque muito popular é o de tomar uma porção desse ser primevo e fazer dela uma fêmea da mesma espécie.

A razão para este comportamento padronizado por parte dos Deuses é ainda obscura e segundo alguns estudiosos deve-se a um mito arcaico proveniente da herança remota deixada por algumas sociedades de Homo Sapiens.

22.3.09

Revelação

E um dia néscios e sábios saberão que as estrelas do firmamento e as areias dos desertos não são em número infinito. São na realidade muito menos, cerca de metade.
O próprio Universo tampouco é infinito, tem sensivelmente a mesma largura mas é um bocadinho mais curto.

20.3.09

Perspectiva

Atracção havia e era forte, mas enfim. Tínhamos demasiadas diferenças pessoais, linguísticas e culturais para que a coisa pudesse funcionar.
Também é verdade que ela pertencia a uma outra espécie animal, e isso às vezes...

18.3.09

Manhã de Verão

De todos os mistérios certos e atempados não há nenhum mais habilidoso no agodelhar a gente do que o primeiro sol de Primavera. Esse sol malfazejo que chega assim um dia e se põe a dar voltas e a dançar como se não fosse ainda Inverno nas cabeças agasalhadas. Passa uns meses na América do Sul, deita-se pingado de rum cansado de dar à perna e um dia acorda com desejos de norte. Ele que venha e nós que o aturemos...

O Carlos acordou e abriu a janela desconfiado, cheirava-lhe a Verão. Mal deu a volta ao trinco foi empurrado com violência e ficou no chão a apanhar com a enxurrada de luz que esperava a madrugada para entrar. Ah luz de um raio, imprecou em pleonasmo o pobre Carlos, ai ele é sol e Verão e coiso? Levantou-se e tomou um banho a correr e a cantar, depois vestiu uma camisa às cores e saiu de casa aos saltinhos com o assobio em tom maior.

Quando chega o primeiro sol o Carlos fica cheio de tesão, apetece-lhe copular com tudo, árvores, montanhas, mar, sereias e crustáceos, tresvaria. Os amigos conheciam-lhe os hábitos e por esses dias nem se chegavam perto, evitavam-no como à peste. O Carlos começou a ronda dos dias felizes, passeou o sorriso guloso pelas esplanadas e pelos jardins públicos, sempre à procura de vítimas. Mas fosse pelo matutino da hora ou pela precocidade do estio, ninguém parecia ser sensível ao seu entusiasmo, e ele que rebentava de entusiasmo... Lembrou-se então de um café manhoso onde por vezes apagava as bebedeiras com galões e torradas. Era um sítio miserável mas abria cedo e era frequentado por outros vestígios nocturnos, em particular pela Teresa marreca.

A Teresa era uma mulher dos homens, passava a noite nas avenidas com a desculpa de pagar um curso onde nunca esteve inscrita e de alimentar um filho que um dia haveria de ter. O Carlos entrou e viu a Teresa pendurada no balcão, sentou-se a seu lado e perguntou se podia dar uma trinca na bola de Berlim. “Ó filho, a esta hora se quiseres dar trincas só se for num papo-seco” fazia-se difícil a donzela... mas ele tinha era fome, bola de Berlim, papo-seco ou côdea dura, o importante era o sol e a tesão, o resto era regateio.
Ela achava-lhe piada e sabia-o inofensivo, o sono baixou-lhe as defesas e lá saíram os dois de braço dado para se enfiarem na carripana do exaltado. A Teresa marreca fechou os olhos e quando os voltou a abrir tinha o mar à sua frente. No rádio do carro passava uma bossa-nova aos tropeções, ele despia-lhe o vestido e cantava os fins das frases com um entusiasmo de garoto. “Tens dinheiro contigo? Olha que eu não aceito cartões” ele ria e dizia que sim, baixaram o banco e lá se encontraram as expectativas e a benevolência.

Foi assim que o Carlos deu início ao Verão e a Teresa terminou o Inverno. As gaivotas voavam à volta de olhos quase fechados e davam graças a Deus por tudo se ter resolvido.

17.3.09

Acordar um Dia XXI

Acordar um dia muito sorrateiramente, levantar-se à má fila e sair para a rua matreiro. Trabalhar todo o dia cheio de malícia, jantar sozinho e fingido e depois voltar para casa ardilão. Deitar-se na cama e rir de tudo e de todos sem saber porquê.

16.3.09

Bem-Aventurados os Ignorantes

Comprou um carro novo, um fato italiano, um telemóvel de última geração e voltou satisfeito para o seu duplex renovado bem no centro da cidade.
O dinheiro não traz a felicidade, mas vá lá alguém explicar-lhe isso...

15.3.09

AVISO


No passado dia três do mês de Março, por incúria minha e com grande pesar e ranger de dentes, deixei um maço de folhas A4 manuscritas no Intercidades Lisboa-Porto ao descer de forma claramente precipitada na estação de Estarreja. Essas folhas A4 continham um manuscrito único de um romance por mim escrito e destinado a ser publicado em breve por uma grande editora nacional. Dirijo-me desta forma a quem o possa ter encontrado e tomado posse do mesmo.

1. Deixe-me começar por lhe pedir desculpa pela péssima caligrafia que desgraçadamente me acompanha desde os tempos da escola primária. Como terá notado, tenho por hábito fazer os “P” minúsculos muito semelhantes aos “F”, é um defeito que me atormenta e para o qual não encontro solução. Todavia se tiver a gentileza de observar atentamente a parte inferior de ambas as letras, notará que a maior espessura da linha é claramente identificativa da letra “F”.

2. Peço-lhe também que me escuse a ligeireza, ou porque não dizê-lo, o desleixo com que algumas personagens menores foram caracterizadas. Tenho por método o ir aprimorando de forma iterativa estas personagens até me dar finalmente por contente com o resultado, o que nitidamente não tinha ainda sucedido.

3. Finalmente gostaria de lhe dizer, embora naturalmente já tenha reparado, que falta ao manuscrito o último capítulo. Imagino-o decepcionado e pleno de frustração por assim se ver privado da chave de leitura capaz de dar sentido à narrativa e de elucidar o mistério construído ao longo das trezentas e doze páginas. Sinto-me na obrigação de lhe confidenciar que na realidade o Fagundes é o pai desaparecido da Mariana, que o Terêncio se escondeu todo o tempo na casa dos Pimental e que o anel estava desde o terceiro capítulo dissimulado no espanta-espíritos da Teresinha.

Atenciosamente,

O Autor

13.3.09

Acordar um Dia XX

Acordar um dia com os pés de fora, com as mãos de fora, com a cabeça de fora.
Acordar todo de fora de alguma coisa que não se sabe o que possa ser.

12.3.09

Coisas de Aqui

Mas às vezes não te apetece chorar? De chorar muito como se não precisasses de fingir tantas pequenas felicidades? Mas não acordas a meio da noite encharcado num sonho mais feito de ti e de dores do que todos os teus acordares?
Quantas vezes comes sozinho? Quantas vezes comes completamente sozinho? Quantos foram os jantares a um por falta de comparência? Não de outros, mas da parte de ti que deseja e aceita companhia?

A verdade é que tudo e todos parecem ir andando. O mundo vai sendo e tantos nele. As coisas acontecem, sucedem-se, criam-se e desaparecem e com elas, por entre elas, estão mãos, pernas e corações que batem a tempo indeterminado. Todos batem a compasso em esforços de vontade privada de desejo. Mas o que é importante é que as coisas vão acontecendo, agora isto, depois aquilo e a seguir nada. Sim, porque as coisas sobrevivem aos corações.

Mudemos de assunto.As tristezas não pagam dívidas e tu tens tantas, tantas dívidas e nem sabes como pagar ou que moeda usar. Dívidas para com outros, dívidas para com todos, dívidas para com um par de olhos miúdos que um dia verteram mais lágrimas do que tu poderias enxugar com as tuas palavras mal ditas e nunca sentidas. E mais as dívidas morais, os débitos originais a um Deus que compraste e a quem não dás uso. Depois tens também as dívidas para contigo, as promessas mudas e pequeninas, convictas e à má fé, os projectos bem desenhados e pensados com tanta miúça que pões à frente de ti, como se fosses um burro cego com tanta cenoura que já não vê nada à sua frente e trota sem saber para onde vai.

Mudemos novamente de assunto. Falamos do que quiseres. De que falam as pessoas? De que falas pela manhã com os outros como tu e os outros como eu enquanto mexes a bica e piscas o olho à empregadita? Do tempo? Dos filhos? Talvez fales do governo... E é bom falar do governo, é para isso que votamos, para termos alguém que escolhemos que nos possa entreter e que nos leve as culpas que nos sobram. Os reis tinham bobos e nós, democratas, temos um governo que é eleito livremente com bónus de gravata e muito mais habilidades. O espectáculo é caro, mas já que agrada a todos vale bem as horas de tédio que lhe deixamos cada mês. Abençoados sejam esses senhores de fato escuro e voz colocada a quem damos o que não temos para recebermos o que não nos faz falta.
Mas estende o ouvido e diz-me do que falam na mesa ao lado. Falam de quê? De televisão? E eu que me ia esquecendo... Telejornais, futebol, telenovela, debates actuais, e desgracinhas e itas e a puta que os pariu. Não é assim? E porque haveria de ser de outro modo? Se temos de ir andando, que seja assim, com o embalo de coisa nenhuma e um estimulozito de vez em quando que dê pena ou dê riso, raiva ou tesão consoante os horários e o nível socio-económico que é preciso entreter. E é assim que nos vamos também informando, que vamos sabendo que se morre muito bem no médio oriente mas que aqui também não se está mal, que a vida é como a ficção e a ficção é como a vida e que tanto uma como a outra estão cada vez mais tristes e cheias de imaginação. Assim apodrecemos devagar e sem culpas a cantar em Karaoke uma vida que sabemos de cor.
Alguma vez te apercebeste que nada pode impedir a tua dedicação no emprego mas que qualquer merda serve para te distrair da tua vida?


Havíamos de ir andando não é? Eu pago a conta se tu prometeres esquecer tudo o que eu te disse. Faz de conta que eu estava bêbado, se não estava vou estar a seguir, não fui mais do que um prelúdio de mim mesmo. Sabes há quanto tempo eu não estou sóbrio? Verdadeiramente sóbrio? Sabes há quanto tempo eu não sei o que é ter uma ideia que não me nasça já intoxicada? Há muito, há muito tempo. Mesmo as minhas memórias começam a ficar sujas deste ar imundo que respiramos à falta de coisa melhor. Mas as coisas vão andando não é? E nós com elas, nós sempre com e por dentro delas.
Olha, dá lá cumprimentos meus quando me vires porque eu sei que dificilmente me encontro por aí.

10.3.09

Desajuste

Ela era uma mulher num corpo de mulher, mas de uma outra mulher, muito mais feia, com menos 10 centímetros de altura e manca de uma perna.

9.3.09

Acordar um Dia XIX

Acordar um dia com o mundo lá fora. Levantar-se lentamente e ficar à janela a decidir se pode entrar.




(Fragmento de uma ilustração do Marco Mendes)

8.3.09

Do Pobre Horácio

Havia mais coisas no céu e na terra e num certo canto escuro da garagem do que ele poderia imaginar. Era ainda criança quando se apercebeu que era pequeno e ignorante. Depois aconteceu-lhe aprender e compreender cada vez mais e melhor, amontoando noções e conceitos como se quisesse chegar algures. Mas ele não queria chegar a nenhum lado e tudo quanto aprendia era digerido como um prato de puré frio, alimento sem gosto. Tornou-se ilustre na arte pública de não ser nem mais nem menos do que dele era esperado, as palavras assisadas e os modos medidos em mediocridade irreprimível. Uma pessoa como as outras, mais ainda do que as outras, de exuberante virtude no ser assim sem ser mais nada.
Um dia ocorreu, como por vezes em alguns dias ocorre, que teve uma ideia original, um pensamento novo, coisa brilhante e ditosa por meio de tantas que o não eram. O homem encheu-se de surpresa e caiu num estado de entusiasmo febril. O mundo parecia rir e ele com o mundo, as cores multiplicavam-se e não havia sentidos que pudessem absorver todas as extravagâncias que ele ia descobrindo nos locais mais suspeitos. Nas flores tristes dos jardins públicos via ele cornucópias de perfumes refinados, os miúdos ranhosos que lhe pediam moedas eram anjinhos inocentes de cabelos doirados e a cidade cinzenta e suja onde vivia parecia-lhe a Paris dos postais ilustrados.
Deu assim em ser feliz. Atrás daquela ideia veio outra e outra ainda e sentia-se bem o pobre homem, como se fosse natural. Viveu o resto dos seus dias sem rugas na testa e dizendo o que pensava a quem o quisesse ouvir, sem o menor respeito pelo que houvera sido. As gentes olhavam e abanavam a cabeça, uma pessoa assim... tantos anos de estudo e trabalho para acabar naquele estado e nem se dar conta. Ficavam muito tristes as gentes, mas depois lá lhes passava e iam à vida delas.

5.3.09

Embaraço

O tempo estava particularmente quente e estável, o campeonato em pausa estiva e nós não tínhamos um único amigo em comum. A assistência técnica iria demorar pelo menos duas horas a chegar e o elevador estava imobilizado desde as nove da manhã.
São estas, meritíssimo juiz, as minhas atenuantes.

4.3.09

Pequenos Prazeres

Saiu um dia para comprar tabaco e logo aí a sua mulher ficou cismada, afinal de contas ele nunca tinha fumado. No entanto foi isso mesmo que ele fez. Comprou tabaco, apanhou um avião para a Tailândia e fez o check-in num hotel de luxo. Do bar para o quarto levou uma prostituta e após algumas peripécias fumou excitado o seu primeiro cigarro pós-coital.

3.3.09

A Última Conversa

- Tens a certeza que não te esqueces?
- Não, está descansado...
- Repete lá para não haver dúvidas
- Já o disse mil vezes... quando me fizeres sinal eu chego-me a ti e dou-te um beijo, então eles chegam e prendem-te.
- Exacto, depois alguém te vai dar os dinheiros, assim ninguém desconfia.
- Tens a certeza que queres mesmo fazer isto?
- Não tenho alternativa, mais tarde ou mais cedo tinha de acontecer algo assim...
- Que merda, mas não podes falar com o teu pai?
- Não, ele é demasiado orgulhoso.
- Mas de certeza que haveria outra maneira...
- Haver havia, mas ele acabaria por ficar mal visto.
- Olha, ao menos dá uma história bonita.

2.3.09

Acordar um Dia XVIII

Mesmo mesmo antes de acordar um dia, encontrar pelo sonho (meu, dele?) o colega da escola primária responsável por muitas dores nas canelas. Eu fingi que não o vi e ele fez o mesmo, não tínhamos nada a dizer nem mesmo em sonhos.
De qualquer maneira estava com bom aspecto o bandido.

27.2.09

Acasos

Conheceu-a por acaso no terminal de um aeroporto internacional. Ambos os voos estavam atrasados e acabaram por conversar durante algumas horas. Foi também por acaso que se voltaram a encontrar dois anos mais tarde num supermercado. Embalados pela coincidência foram tomar um café e descobriram que vinham ambos de terminar relações longas e dolorosas. Casaram passados alguns meses e foram até felizes e tiveram até dois filhos e uma casa nos subúrbios.
Foi por acaso que ela voltou ao mesmo aeroporto sete anos depois. Mais uma vez havia um atraso e um companheiro de infortúnio, também ele com o voo atrasado e uma vida que se havia tornado monótona. Por esta altura ela, que do acaso já conhecia as manhas, poupou-se à espera e logo ali ficou combinado um encontro para a semana seguinte.

25.2.09

Dois homens e o vento

Faz muito noite. Também faz frio, chuva e vento, que vento. Dois homens trabalham na linha do comboio. Tanto um como o outro.

Primeiro Homem: Está frio!
Segundo Homem: Está frio e vento. Venta muito.
Primeiro Homem: Toda a gente sentada ao quente e nós aqui... E eu que nem sequer ando de comboio. Estas linhas não me levam para lado nenhum.
Segundo Homem: As linhas não levam ninguém.
Primeiro Homem: Se os comboios pudessem andar por todo o lado não eram precisas linhas. Havia mais liberdade e menos noites ao frio.
Segundo Homem: Mas podia-se ir parar a qualquer lado, um engano do condutor e ia-se parar a qualquer lado.
Primeiro Homem: Mas assim só se pode ir para a frente, para onde está escrito.
Segundo Homem: Se calhar chega bem, não há muita gente a querer ir para outros sítios. Vai-se para lá e pronto... para onde está escrito.
Primeiro Homem: Mas são precisas as linhas, e com este frio...
Segundo Homem: Frio e vento, venta muito.

24.2.09

Acordar Um Dia XVII

Acordar um dia e não dizer nada a ninguém. Ir por aí fora fazendo-se invisível e imortal. Voar por cima das casas de olhos fechados. Mover algumas nuvens e outras coisas fundamentais. Descer à terra e seguir a vida com falsa modéstia.

22.2.09

Volumetria

Ele tinha as suas coisas e ela também tinha as suas coisas. Cada um deles tinha também verdades e pontos de vista, como toda a gente tem tantos. Viviam em permanentes tangências dos seres, ou das suas coisas. Mais raramente do resto. É uma história como as outras mas com menos espaços, pouco mundo e muita bagagem.
Os dois corpos encolhiam-se, torciam-se e incomodavam-se por entre caixotes cobertos de pó e cadeiras sem uma perna. Às vezes esticavam um braço com esforço e afloravam com os seus os dedos do outro, outras vezes não. Aquilo só parecia mal a quem olhava de fora. Ninguém olhava de fora. Não havia de fora. O espaço que tinham era todo dentro e enrolava-se por entre as pernas todas. Ela cantava baixinho e ele talvez cantasse também, músicas simples e só o refrão. Afinal não havia motivos para grandes exaltações.

20.2.09

De Inisi Afa

A recente publicação em língua portuguesa das mais representativas obras de Inisi Afa, importante escritor Melanésio, vem finalmente permitir ao público lusófono o conhecimento de um curioso caso de singularidade literária. Inisi, filho dos amores furtivos de um missionário escocês e de uma nativa da ilha de Makira, apreendeu o conceito de alfabeto através de uma bíblia deixada à pressa na cabana de sua mãe. Desde tenra idade Inisi dedicou-se a desenvolver um sistema de símbolos que lhe permitisse registar por escrito o seu dialecto, até esse momento apenas de expressão oral. Uma vez completada tal tarefa, Inisi começou a criar algumas das mais originais obras da literatura mundial.


O seu primeiro livro, escrito nas entrelinhas da referida bíblia, tem por título “Nos dias pequenos às vezes temos fome” e poder-se-ia qualificar como um relato naturalista “avant la lettre” em que este descreve as contingências económicas que provocavam violentos conflitos entre as diversas tribos do território. Numa passagem inesquecível Inisi descreve com pormenor o processo pelo qual as cabeças dos inimigos capturados eram reduzidas e penduradas em pontos estratégicos da ilha. Já neste primeiro manuscrito é notória a sua capacidade para expressar os sentimentos de descontentamento e de revolta existencial tão característicos da sociedade Melanésia do sec. XVIII.


A segunda obra apresentada nesta edição tem por título “Fui pescar um peixe grande grande” e é um notável relato em fluxo de consciência de uma jornada de pesca solitária. Inisi convida-nos a partilhar da sua percepção e faz-nos acompanhar as preocupações, os desejos e as fantasias de um pescador simbólico em busca de um “peixe grande grande”.


O último volume agora traduzido é por muitos considerado como a obra-prima deste autor, o magistral “O regresso dos cabelos vermelhos” é uma distopia poderosa em que o autor imagina um mundo futuro dominado por personagens omnipotentes e cruéis de cabelos ruivos. Nesta utopia negra, Inisi descreve uma sociedade transformada e radicalmente oposta aos valores e tradições que conhece. O autor imagina uma realidade onde o tempo é controlado por mecanismos e não pelo sol, os homens são obrigados a caçar para outros homens, os corpos são presos em tecidos de cores escuras e todos os deuses morrem ficando apenas um, desconhecido pelas gentes da ilha. É uma escrita angustiada e assaltada por assombros filosóficos que revela um autor maduro preocupado com os destinos da sua cultura e da sua colecção de cabeças encolhidas (maravilhosa metáfora).


Esta tripla edição constitui um documento fundamental que vem consubstanciar a teoria do famoso crítico literário Kapi Popol, segundo a qual a literatura europeia dos finais do século XIX e inícios do século XX é originalmente um produto importado da Melanésia conjuntamente com a copra, o cacau e a kava.

19.2.09

Porque me olhas assim?

É verdade que ela era bonita e inteligente, que tinha uma carreira de sucesso e conhecia toda a gente. O corpo era perfeito, tinha uns belos cabelos pretos e vestia-se com extrema elegância.
É verdade que eu sou feio e careca, que tenho a barriga flácida e os dentes maltratados. Bem sei que sou desajeitado, que tenho tendência para a misantropia e não arranjo um emprego certo. Mas porra!

18.2.09

Acordar Um Dia XVI

Acordar um dia sem ter a certeza. Pedir por sonhos e palavras que venha alguém e me desperte.

17.2.09

16.2.09

Intercessão

“Eu não sei nada de telhas acima, mas se o amigo se lembrar diga um Pai Nosso por mim que eu andei muito de mal com ele”. Disse-me estas antes de o levarem dali para fora aos empurrões. Não exactamente aos empurrões, mas com os movimentos precisos e indiferentes de profissionais de mudanças. Agora estás aqui a pedir Pais Nossos e agora vais para onde te queremos nós, alguém por nós ou o outro das rezas. E vais de rodinhas. De quando aqui entras passas a ser deitado, se sais de pé ou não, é coisa que não sabemos, fala lá com o outro se ele ainda lá estiver.

Eu tentava lembrar-me das palavras mas não conseguia passar do “assim na terra como no céu”, por isso disse-o muitas vezes como se fosse um mantra. “Assim na terra como no céu, assim na terra como no céu”. Eu também não sabia nada de telhas acima e suspeitava muito das palavras. Que doesto lhe haveria feito o pobre homem? Que resposta lhe haveria dado o outro? Eles que se entendessem que eu nem o Pai Nosso sei de cor. Pedir-me assim uma cunha de tanta responsabilidade era coisa irreflectida, “assim na terra...”. Devia-lhe ter pedido o mesmo, “diga-lhe um Pai Nosso por mim que eu nem sequer o conheço”, quem lá chegar primeiro que amanse a fera e trate do arranjinho, “há-de aparecer aí um amigo...”, era o que eu devia ter feito.
Afinal de contas, mais cedo ou mais tarde... e de rodinhas.

14.2.09

Comportamentos

Na belicosa tribo dos Salué é tido como bom augúrio encontrar um Tapapi sozinho de manhã pela floresta. Tal visão é particularmente auspiciosa sempre que o Salué em causa não tenha decidido ainda o que preparar para o almoço.
Já na precavida cultura dos Tapapi considera-se que a aparição de um Salué em tais circunstâncias constitui um péssimo presságio. Para o poderem anular, os Tapapi transportam frequentemente um poderoso amuleto que consiste numa catana ligeiramente mais afiada do que permite a tosca tecnologia dos Salué.
O povo dos Pabis, arbóreo e discreto por natureza, observa estas movimentações terrenas com um misto de diversão e displicência. Afinal, tudo quanto possa acontecer está já inscrito nas nervuras das folhas com que se alimentam.
(Incluido no último número da Minguante)

13.2.09

Trajecto

Entrei e sentei-me no lugar do costume. Não estava mais ninguém e aproveitei para passear os olhos por um livro pouco exigente. Ainda não havia chegado a metade da página quando vi aproximar-se uma senhora de meia idade com os cabelos pintados de cor de senhora de meia idade. Sentou-se a meu lado e apresentou-se, “boa tarde, chamo-me Isabel”. Começámos a falar do livro e tentei explicar-lhe de forma simples a história que eu próprio ainda não havia compreendido. Perguntou-me se costumava ler muito e pediu-me algumas sugestões, “algo ligeiro que faça esquecer por momentos uma tarefa pontual de relativa importância...”. A conversa seguia de forma natural (mesmo nas suas perplexidades) quando chegou um casal jovem sorrindo uma cumplicidade precoce.

O Pedro e a Joana sentaram-se à nossa frente e começaram a falar do apartamento para onde se tinham mudado há escassas semanas. Tinha problemas de canalizações, uma divisão pequena para a qual ainda não tinham função e uma varanda onde batia o sol antes de se pôr. Eram um casal simpático e intercalavam o discurso com pequenos apartes não orais de intimidade provocatória. Foram chegando mais pessoas, o senhor António de Almeida, recém divorciado e à espera de uma promoção; a Sara, que frequentava o primeiro ano de uma licenciatura de inquestionável modernidade; a família Pinto com o periquito Daniel e finalmente a dona Ana que entrou perseguindo o andarilho numa perfeita demonstração do paradoxo de Zenão que a todos agradou. Contaram-se algumas piadas e fizeram-se confissões. Os mais afoitos aproveitaram mesmo para interpretarem uma ou outra canção popular.

Era este um grupo particularmente simpático e foi com mágoa que nos vi chegar à praça do mercado, precisamente no momento de maior entrega, de uma quase euforia colectiva. Assinalei a minha intenção de sair na paragem seguinte e comecei as despedidas. Entre beijos e apertos de mão, tive de me conter para não ceder a algum sentimento mais líquido. Cheguei-me à porta do autocarro, deixei-lhes um sorriso e os votos de reencontro e desci as escadas. Fiquei a acenar-lhes da rua enquanto partiam em direcção a um serão já fora do meu alcance.

Subi as escadas do prédio e inspirei fundo antes de dar a volta à chave. Entrei rendido no meu pedaço de mundo, alugado e partilhado. Ela saudou-me da cozinha com uma daquelas frases que tão bem servem. Respondi no mesmo tom e trocámos beijos tangentes. Pouco depois estamos sentados um em frente ao outro com os pescoços torcidos na direcção do televisor. Temos o garfo suspenso no ar e vemos mortos de guerras monótonas darem lugar às gaffes de políticos, eles próprios gaffes da natureza. Ruminamos de boca e olhos abertos aquela mistura de puré com sangue de gente pobre, de ervilhas congeladas e palavras banais, almôndegas tristes de artistas medíocres e gatinhos prodígio. Depois tomamos café. Vemos um filme e um debate e vamos para a cama como quem desiste. Apagamos a luz, contamos uma mentira para não dizermos outra, e acabamos por fazer o óbvio imaginando sabe-se lá o quê.

Eu às vezes só gostava que nos voltássemos a encontrar no 14 daquela tarde de Janeiro. Que tal como dessa vez subíssemos juntos e às voltas as escadas do prédio. Que abríssemos todas as portas até chegar ao quarto e aí fizéssemos um amor que já não sabemos onde deixámos.

11.2.09

Hidrostática

O barco ia-se afundando lentamente enquanto a orquestra tocava a última valsa. Os olhos dos músicos gritavam de pânico a cada nota, apenas o contrabaixista tentava dissimular o sorriso.

Acordar Um Dia XIV

Acordar um dia demasiado tarde. Ler o atraso no despertador, no calendário e no espelho.

10.2.09

Era Assim

Pelo atelier da Mariana passavam diariamente as personagens mais estranhas. Era gente sem poiso certo ou uma ocupação conhecida, por vezes nem mesmo um nome. Era assim no atelier da Mariana.
Passávamos as noites (era quase sempre noite) a fumar e a beber. Falavam-se de coisas vagas e por vezes havia alguma rapariga bonita. Nós alinhávamo-nos de copo na mão e fazíamos uma corrida em câmara lenta para ver quem chegava primeiro. Nem sempre havia raparigas bonitas, mas nós fumávamos e bebíamos não obstante.
Eram dias em que o tempo passava muito devagar. Sobravam-nos minutos e horas inteiras que não sabíamos gastar. Durava muito o tempo por essa altura. Nós fumávamos e bebíamos e uma conversa durava toda a vida. Assim era no atelier da Mariana.


(Ilustração de Marco Mendes)

9.2.09

Feitios

Era aquela uma família de gente dotada. Um ministro, vários advogados e alguns médicos ilustres de reputação confirmada pelos maiores doentes. Vivia-se ali a um nível altíssimo, não havia lugar para diletantes amadores ou poetas danados. Artistas e putas, só de importação.
Um dia nasceu o Serginho, e fê-lo muito como costumam fazer outros nas mesmas circunstâncias, ou seja, sem querer. Do calor materno para o branco hospitalar, dos cantos redondos de um corpo que se conhece para um mundo idiota cheio de olhos esbugalhados a adivinhar parecenças, tudo eram renitências e hesitações. Mas nasceu, ou foi nascido, e cedo foi levado para o lar provecto cheio de mognos e livros encadernados em pele.
Que bonito era o Serginho. Uma bela criança que deu em crescer enquanto os outros esfregavam os olhos. E comia tudo o Serginho, e dormia sonos de menino Jesus o Serginho, era um petiz abençoado.
Segunda a tia Luísa, uma solteirona muito direita e de nariz em abre-latas, era este um rebento exemplar. Senão vejamos (e puxava pelo caderninho), aprendeu a dizer adeus aos cinco meses, aos seis já se aguentava de pé e aos nove começou a caminhar, um verdadeiro prodígio de caracóis. Havia apenas uma pequena lacuna no percurso do rebento, é que tardava em falar. Ia já em ano meio e ainda ninguém o tinha ouvido articular o mínimo som, nem “mamã”, ou “papá” ou “pepê” ou mesmo “pá” ou “mã” ou qualquer outro ditongo que os familiares pudessem interpretar. Nada, o catraio fazia voto de silêncio.
Naturalmente o Serginho foi visto pelos melhores especialistas disponíveis no burgo e estes, que eram unânimes em poucas coisas, numa concordavam, o petiz não era mudo, apenas não sabia ou... não queria falar. Feito o diagnóstico, começou toda a família a envidar esforços para convencer o pirralho. Doces, chocolates, cócegas e beijinhos, chantagens (emocionais e das outras), sevícias, palmadas e orelhas torcidas. Aquilo foi o diabo. Mas que viesse a inquisição, o doce arcanjo Gabriel, ou um palhaço coberto de algodão doce, era igual, o raça do moço não falava nem que se virasse o mundo. Impassível e silencioso como uma estátua particularmente impassível e silenciosa. Assim era o Serginho.
Foram passando os anos e foram-se conformando os parentes. O Serginho fazia tudo o que faziam os outros miúdos e às vezes até melhor, tinha as suas habilidades, mas coitadinho, não falava. Pelo menos não era aleijadinho, nem parco de entendimento, e antes assim que pior. Era essa a sua índole.
Até que um dia, estando toda a família a jantar, aconteceu um silêncio no final da sobremesa. Alguns olhavam o copo, outros lambiam a colher e outros nem menos isso. E então, com um ar muito solene levantou-se o Sérgio. Pôs-se muito direito no alto da adolescência espigadota e olhou lentamente em redor. O rapaz inspirou fundo e de seguida abriu a boca. Na sala o ar vibrava com tantas expectativas. Mas foram bem escusadas, o estafermo fechou a boca e de novo se sentou para esperar o café. Quem saberia das suas razões?

8.2.09

Do caderno de Cide Hamete Benengeli

Cansado do caminho, da vida e de certos deveres da ficção, Dom Quixote descansava um dia à sombra de um sobreiro. À sua frente, tinha pintada com cores vivas e simples a figura de um Sancho que dormia com a enorme barriga a sair das calças abertas. O seu ventre inchava sempre que adormecia, como para conter os sonhos que no caso de Sancho habitavam outras geografias.
Dom Quixote levantou-se a custo e subiu dolorosamente até ao cimo do monte. Daí conseguia ver com clareza os moinhos de Dom Pablo e da viúva Castañeda. Que tristes eram os moinhos de Dom Pablo e da viúva Castañeda. Moinhos, montes, sobreiros e Sancho, tudo lhe parecia vazio e desnecessário como o que não estava escrito. Como um velho demente que atravessasse a vida sem se inventar uma outra.
Então Dom Quixote inspirou fundo, depois fechou os olhos para dentro e ensaiou mais uma vez o monólogo do exército de gigantes.

6.2.09

Acordar Um Dia XIII

Acordar um dia ao som de música e sapatear até à casa de banho. Sair de toalha na cintura e dançar com a mulher-a-dias. Cantar alto da varanda com todos os vizinhos a fazer coro.
Sair à rua e conduzir um cortejo com fanfarra, dançarinos e palhaços. Percorrer as ruas da cidade atiçando os desejos e as curiosidades. Distribuir balões pelos cachopos e vinho pelos velhos. Acenar a quem passa. Enfiar o cortejo no metro com tudo o que isso implica.
Sair discretamente numa paragem e vê-los seguir viagem. Ir para o trabalho, picar o ponto e não pensar mais nisso.

5.2.09

Descuido

Recebeu as análises de sangue e ficou tão aliviado com os níveis de colesterol que nem leu mais abaixo, onde se viam os resultados das infecto-contagiosas. Resolveu assim sair para comemorar com os amigos numa longa noite de copos e excessos.
Foi esse o seu ultimo momento de felicidade, de resto apenas possível graças ao tal descuido.

4.2.09

Acordar Um Dia XII

Acordar um dia a meio de uma enorme epifania onírica. Significados ocultos e subtis revelados com clareza cristalina. Ter preguiça de escrever. Voltar a adormecer. Acordar duas horas mais tarde a meio de um sonho palimpsesto feito de palhaços pernetas e mamas voadoras.

3.2.09

Geografias

O senhor vai por aí fora e segue essa rua onde um dia eu vinha passear de bicicleta à porta da Sónia loira. Depois vira na segunda à direita, junto ao quiosque abandonado que alugava Ginas às meias horas. Vai-lhe aparecer uma rotunda, onde eu uma vez bati numa furgoneta, o amigo contorna-a e sai à esquerda, por uma via estreita de sentido único onde nós jogávamos futebol depois da escola. Ao fundo há uma pracinha, que até lá costuma estar sentado o Senhor Pires, agora que já não corta cabelos nem me pergunta se eu quero a capa do Benfica ou do Sporting. Estacione por aí, deve encontrar lugar junto à figueira que cortaram por alturas da minha primeira comunhão. A repartição é mesmo do outro lado da praça, não tem nada que enganar.

31.1.09

Em Forma de Verdade

A vida não continua. A vida, minha, tua e das pessoas, está sempre amarrada a uma estaca. Ao pescoço temos uma corda de um tamanho que não merecemos e à nossa frente a relva rala que vamos comendo em círculo. Por isso não me venhas dizer que a vida continua. A tua vida continua? Para onde? Eu não saí daqui e vi-a ontem, via-a hoje e vou vê-la amanhã. Somos vizinhos de estaca. Não digas idiotices por favor. Se eu acreditasse talvez tu acreditasses também, e depois? Ríamo-nos, enchíamo-nos de substâncias que os nossos corpos não produzem e chorávamos às escondidas, não era? Deixa-me insistir na semântica. Vai-se andando sim, os dias vão sendo um de cada vez, o sol ainda nasce cada manhã e também hoje comemos pão; mas a vida não continua e as estrelas não precisam de nós.

30.1.09

Alomorfia

E em desencontro ao sonhador de fábulas muito se enfadou um dia o bom Deus. Do alto do seu divino arbítrio, que é eterno e justo e bom, Deus viu o fabulador e nos pergaminhos da sua alma leu grandes infâmias e grande desacordo. E de todas as invenções de mau engenho, nenhuma Lhe era de maior vileza do que essa de artes mui contra natura, de fazer de um animal um homem e de um homem fazer besta sem baptismo. E assim o bom Deus resolveu castigar o fabulador.

Por todos os seus dias na terra, o criador de fábulas haveria de ser confundido e teria muitas dores e grandes aflições. Ao nascer de cada aurora, com os primeiros raios de sol que acordam quantos dormem o sono tranquilo dos filhos de Deus, o fabulador sentirá grandes sobressaltos. Os seus braços se abrirão num despedaçar de carnes e sangue e outros braços surgirão onde esses haviam sido. A sua face haverá de derreter-se como água do gelo e no seu lugar uma outra surgirá igual à que se perdera. Os seus olhos haverão de mirrar e cair das órbitas juntando-se ao pó dos caminhos. No seu lugar outros olhos se farão, tão iguais e perfeitos aos que antes foram.

A cada dia por sobre a terra, o fabulador se transformará em si mesmo com grande estupor e espanto. A cada dia ele deixará de ser para voltar a si, no mesmo corpo que sempre foi e que sempre será.
Que assim se cumpra a vontade de Deus e a pena do sonhador.

29.1.09

Acordar Um Dia XI

Acordar um dia com a bruma da cidade a ensopar o lençol



(Cidade de Marco Mendes)

Rotina

Saiu um dia para a rua sem a cabeça. Ao final da manhã, quando ia já em meio dia de trabalho, apercebeu-se do sucedido. Deu um salto a casa à hora do almoço e remendou o esquecimento.
O incidente não o tornou mais sábio ou mais cauteloso, mas dá-lhe muita vontade de rir.
Deixou-lhe também algumas dúvidas quanto à utilidade de certas usanças.

27.1.09

Cenário

Não posso porém deixar de me espantar. São certas horas costeiras de um cenário tão preparado, tão assim sem palavras. Como por exemplo daquela vez em, lembras-te não lembras? Como dessa vez. Essa mesma coreografia rigorosa e descuidada que resultou em beijos e palavras excessivas. O desenho das gaivotas que olhavam para nós à espera de entusiasmos de voo e vento. O baixo-relevo de muitas conchas exaustas à nossa espera. Sacanas das conchas. E isso era só o que nós víamos, dos peixes eu adivinhava outro engenho, bailados sóbrios com reflexos de extravagância. E tu também adivinhaste, não foi? Sacana de ti.

Havia também o resto, os colegas de espécie, os que corriam e faziam pose, os que serviam cafés e entravam no mar como se fosse deles, (o mar que era nosso, lembras-te que era nosso?). E as crianças tão espertas que faziam de gente? E os que cantavam sozinhos a fazer conta de silêncios? E os que escreviam versos nojentos que não nos mencionavam?
Outros sorriam com um ar inteligente de haver espreitado segredos. Mas que segredos? Se eles soubessem (mas tu não lhes digas, não lhes digas nada) que esta luz branca e enviesada fez cento e cinquenta milhões de quilómetros só para me queimar os olhos e fechá-los para ti... Sacana da luz. Mas foi assim que fizemos, não foi assim que fizemos?

Acordar Um Dia X


25.1.09

Acordar Um Dia IX

Acordar um dia qualquer que seja domingo de manhã. Não demasiada manhã. Levantar-se sem fazer barulho e ir até à cozinha. Fazer um pequeno-almoço de hotel com sumo de laranja, sem juntar água. Voltar para o quarto. Tomar o pequeno-almoço na cama e sorrir. Fingir espanto pela metade que sobra. Sorrir de novo. Sair para a rua demorando o passo aqui e ali. Enfadar-se, pouco. Subornar um cão vadio e passeá-lo por um jardim. Sorrir alto. Voltar para casa assobiando aquela música. Sentar-se ao computador. Relembrar certas habilidades. Invadir a central de GPS e mandar toda a gente para a puta que os pariu.

24.1.09

Para ti, Tomé

Enquanto eu fui pequeno, numa gaiola lá de casa moraram alguns periquitos. Os periquitos, verdes e amarelos uns, azuis e amarelos outros, têm o costume de falecer em tempo anterior aos seus proprietários. Assim aconteceu lá em casa, pelo que a mim compete contar a história.

A gaiola dos meus periquitos era o apartamento de classe média dos psitaciformes. Não era de grandes luxos mas tinha asseio, água, e alpista nas caixinhas. Uma bênção.
Os maraus tinham-me custado uma prenda de aniversário. E eu nunca abria a gaiola. Minto. Às vezes arriscava por lá a mão e era um desatino de penas até conseguir agarrar um. Sentia-lhe a taquicardia caguinchas, fingia-me muito grande, e retirava a mão com um estalar da porta. Era um lindo desenfado.

Eu observava os passaritos com muita atenção. Gostava de os ver doidos com o cheiro da comida, de como esvoaçavam para serem os primeiros a chegar às manjedoiras pequenitas. Tanto observei que um dia quis experimentar um ardil. Tão simples e inocente quanto hoje o vejo subtil e pérfido.
Uma das minhas mãos segurava o comedoiro atulhado, a outra segurava a porta. Então eu escancarei a portinhola e ao mesmo tempo coloquei o comedoiro no sítio. Afastei-me ligeiramente e fiquei ali com o coração aos pulos (desta feita era eu) a ver no que dava o exercício. O risco era real. Ah mas os pobres, os tolos animais nem as cabeças puseram fora dos aposentos, foi o mesmo corrupio de asas e bicos para ver quem enfardava mais grãozinhos. O Tomé ainda olhou de raspão para a janelita, mas depois fez como os outros e apaziguou as ânsias, pela goela.

O rapazito que então era eu, fechou a gaiola e dormiu mais uma noite sem filosofia. No outro dia acordou, acordei, e assim dormindo e acordando se seguiram os dias sem mais pensar em pássaros nem em gaiolas.

Mas é que às vezes, dessas e outras vezes, doem-me certas partes pequeninas de estar vivo. Como aos outros, que também estão vivos. E é então que eu me levanto com os braços encolhidos a dar a dar. Esvoaço pela sala num pânico muito meu e vou piscando o olho a um Deus cretino e pueril.

23.1.09

Acordar Um Dia VIII

Acordar um dia e dizer-te coisas muito belas. Demasiado belas, exageradamente belas. Deixar-te incomodada. Criar um desconforto que cresce até se tornar insustentável.
Alimentá-lo sem saber e perder-te diversas vezes.

22.1.09

Concomitâncias

Tudo aconteceu quando ele tinha apenas vinte e dois anos de uma vida muito como podem ser todas as outras. Uma escala demorada em Paris, uma pausa a caminho de sítios menos civilizados e de um futuro triste, triste. Mas isso só o viria a saber mais tarde, de forma demasiado progressiva para que soubesse reagir.
Um passeio deslumbrado levou-o a todos os sítios a que tais passeios devem levar. Era uma cidade feita para esse efeito, onde tudo era grande, asseado e bem arranjado. Ele que vinha de uma arrecadação sentia-se ali um intruso, na sala de mostrar aos hóspedes. Foi–se espantando e caminhando até ser acometido pela síndrome de Stendhal dos pequeninos, que se manifesta numa vontade louca de beber uma cerveja gelada na esplanada mais próxima.

Estava assim entretido nestas actividades terapêuticas quando se lhe encalhou o olhar num par de olhos perdidos, por ventura pertencentes a um esplêndido membro do sexo oposto. Os sorrisos mútuos foram mais fortes que o embaraço e superaram as diferenças linguísticas, em pouco segundos a distância que os separava tinha o diâmetro de uma mesa de café. O rumor protervo do café e alguns copos de uma cerveja vermelha criaram entre ambos uma intimidade instantânea, bem à medida dos desejos.

Desde que saíram do café até se despedirem nebulentos na estação de comboios, todas as horas foram suas e correram ao ritmo dos sonhos bons. As poucas palavras ditas pareciam vir de um tempo alheio, mais feito de impulsos que de sentidos. O resto foi silêncio, o som de corpos emocionados que pareciam saber mais do que haviam aprendido. Numa mesma noite, ele descobriu Paris, a alegria de um corpo solto e muitas outras coisas para as quais não tinha ainda nome.

No percurso da sua vida essa foi uma noite extravagante pintada em cores de excesso. Um Miró pendurado num salão vitoriano. Nos anos que se seguiram ele fez o que toda a gente faz. Trabalhar, acumular capital, casa, mulher, filhos, aparelhos domésticos e de transporte, promoções, outras máquinas para fazer sabe-se lá o quê, amantes mais ou menos remuneradas, ginásio e fins-de-semana à beira mar. E assim até rebentar, como se costuma fazer.
Foram trinta anos disto. Muitos dias a fingir querenças e a adiar vontades, muitos pequenos prazeres a cobrirem enormes loucuras. Quantas montanhas, mares e serralhos lhe visitaram os sonhos encolhidos ao canto do leito conjugal. Assim foi sendo até que não pôde mais continuar. Filhos emancipados, uma menopausa precoce com direito a cursos de pintura e ei-lo que inventa uma viagem de negócios até à sua bem recordada Paris.

Desceu no mesmo aeroporto que o vira partir e acreditou sentir no ar um cheiro familiar. Passeou o mesmo deslumbre pela cidade condescendente e procurou as pegadas invisíveis de alguém que já tinha sido. Um trânsito em espiral de centro delongado no café ainda aberto. A mesma mesa, a mesma hora do dia, trinta anos passados.
De gestos encadeados pediu a cerveja vermelha e ao pousar o copo dirigiu os olhos para uma esperança remota. E foi assim mesmo, com todas as probabilidades em seu desfavor, que viu as ridículas expectativas reflectidas num espelho da parede longínqua. Era ele que se olhava a si que se olhava. Duas, três, quatro cervejas e ela não apareceu, não se interrompeu o triste caminho óptico de uma vontade que mira um passado. Nada.

Levantou-se com a cabeça à roda e o resto também à roda. Era inútil. Ele sempre tinha sido uma pessoa de fé, mas de nada servia ignorar certas subtilezas do destino.

21.1.09

Detalhes

Decidiu finalmente fazer a operação de mudança de sexo e após algum tempo apercebeu-se que tinha cometido um erro. Seja como for, os amigos prepararam-lhe uma grande festa e deram-lhe óptimos presentes, alguns deles particularmente valiosos.
Gostava também do seu novo guarda-roupa e já não estava em idade para se chatear com pequenos detalhes.

20.1.09

Acordar Um Dia VII

Acordar um dia e ter de partir.




Ilustração de Marco Mendes, como sempre.

Num Bar, na Baixa

O bar ficava numa rua escondida da baixa e a clientela era constituída quase exclusivamente por homens com mais de quarenta anos. O balcão de madeira e o ar familiar lembravam uma série americana, aparte os tremoços e o benfica no televisor. Ele estava sentado no canto e emborcava diligentemente mini atrás de mini, preta. Sorri ao cliché e sentei-me a seu lado. Quando chegou o intervalo (e com ele o vazio), começámos a juntar palavras aos tremoços.
Trocaram-se as banalidades de circunstância, oarbitromaisestesladrõeseocaralhoqueosfodaatodos, mas acabaram os tremoços e pouco depois estava a contar-me que nos últimos dois anos tinha perdido a mulher e dois filhos. Disse-me também que antes praticamente não bebia, e que de todas as vezes tinha quase conseguido parar, até que morria mais alguém e tornava ao mesmo. Graças ao álcool, tinha perdido o emprego e o subsídio era todo trocado em minis. Assim também ele se ia convertendo em pedaços, em trocos. Chamava-se a si mesmo um alcoólico do luto. Disse-lhe que não (tínhamos a segunda parte pela frente), que era o resultado da tragédia e que não se culpasse. Ele sorriu, olhou para mim e falou lentamente: então, por que é que eu os matei?
(Publicado na Revista Minguante)

Tautologias

Há pessoas que são felizes com pessoas que são infelizes, muitas vezes graças a outras pessoas que não querem saber da felicidade para nada, mesmo sendo felizes.

Há pessoas que são razoavelmente felizes porque ainda não perceberam que são razoavelmente infelizes. Outras não.

Certas pessoas ainda não perceberam se são felizes, mas se calhar são, ou então não são. Mas está bem assim.

Há pessoas que não sabem o que é a felicidade, o que é uma grande fortuna, sobretudo se são infelizes.

Existem muitos tipos de pessoas, muitos graus de felicidade e muitas formas de lidar com isso, e está bem assim.

19.1.09

Acordar Um Dia VI

Acordar um dia devagarinho, com cuidado, sussurando-lhe ao ouvido para não o estragar.

18.1.09

Às tantas

- Olha que giro, com as orelhas brancas e o focinhito preto
- Sim, mas sabes que não gosto muito de cães...
- Preferes gatos?
- Hummm, também não sou grande fã
- Dizem que quem não gosta de animais também não gosta de pessoas
- Pois, então é capaz de ser isso.

16.1.09

Crimes Exemplares

Gostou tanto do Crimes Exemplares que depois de o haver lido resolveu matar a vizinha por coisas de somenos importância. Encontra-se agora preso e muitas vezes arrependido.
A verdade é que nunca percebeu nada de literatura nem de coisa nenhuma.

Acordar Um Dia V

Acordar um dia com um mamífero monotrémato de aspecto fusiforme a dar-nos beijinhos com o bico córneo. Como se não fossem já suficientes a ressaca e o remorso.

15.1.09

A Festa Foi Ontem

É este um povo demente
De bandeiras na janela
E o avô no hospital
Gente pobre e doente
Cravo murcho na lapela
E galinhas no quintal

Gente estranha infeliz
Que canta em vez de chorar
Rosto murcho insolente
Em surdina alguém diz
Já morreu em nós um mar
É este um povo demente

Madrugada nua e crua
Olhos brancos de remela
Marcha forçada brutal
Vai o povo pela rua
De bandeiras na janela
E o avô no hospital

Na margem de uma avenida
Pára um carro e ao volante
Um bigode de cliente
Desce uma Rosa Maria
Passo torto e minguante
Gente pobre e doente

E há um velho ainda ledo
Encostado a uma capela
Que se chama Portugal
Canta um fado do Alfredo
Cravo murcho na lapela
E galinhas no quintal

(Versão do "Há Festa na Mouraria" de António Amargo e Alfredo Marceneiro, publicada na Revista Minguante)

14.1.09

Acordar Um Dia IV

Acordar um dia no Porto




(Ilustração de Marco Mendes, esta e outras em Diário Rasgado)
 
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