Os olhos que fecham o mundo nem sempre abrem o sono, é assim não é?
Pois, é isso.
Ilustração de Marco Mendes
Acordar um dia... sim, mais um acordar de mais um dia. Não é contudo uma grande avaria.
É fácil acordar do sono, mais difícil acordar da vida. Abrir os olhos antes que nos abanem, lavar a cara por via das dúvidas e dizer alto (no talho, no supermercado ou na missa)
“porra! que eu tenho estado a dormir”
No princípio era um ser unicelular capaz de se replicar. Este desenvolveu-se em bactérias, depois algas, esponjas e anémonas. Algumas plantas e animais primitivos começaram então a invadir a terra e pouco depois temos os primeiros insectos e anfíbios. Seguiram-se então os répteis que deram origem aos mamíferos.
Os mamíferos evoluíram rapidamente e tornaram-se cada vez mais complexos até surgirem os primeiros símios, os Australopitecos. Estes dão lugar ao Homo Erectus, depois aos Neandertais, e cerca de 130 mil anos antes de Cristo surge o primeiro Homo Sapiens. No XXX século d.C. vêem-se os primeiros Super Homens que rapidamente evoluem para Semideuses e nos finais do XXXIV século chegam finalmente os Deuses Maiores.
A partir desse momento tudo se tornou mais complexo e a evolução segue de forma independente em cada um dos mundos criados por estes Deuses. Existe contudo uma fórmula inicial comum e um procedimento bem estabelecido que consiste em usar o pó do solo para formar um ser de sexo masculino e dar-lhe vida através de um sopro divino. Um outro truque muito popular é o de tomar uma porção desse ser primevo e fazer dela uma fêmea da mesma espécie.
A razão para este comportamento padronizado por parte dos Deuses é ainda obscura e segundo alguns estudiosos deve-se a um mito arcaico proveniente da herança remota deixada por algumas sociedades de Homo Sapiens.
No passado dia três do mês de Março, por incúria minha e com grande pesar e ranger de dentes, deixei um maço de folhas A4 manuscritas no Intercidades Lisboa-Porto ao descer de forma claramente precipitada na estação de Estarreja. Essas folhas A4 continham um manuscrito único de um romance por mim escrito e destinado a ser publicado em breve por uma grande editora nacional. Dirijo-me desta forma a quem o possa ter encontrado e tomado posse do mesmo.
1. Deixe-me começar por lhe pedir desculpa pela péssima caligrafia que desgraçadamente me acompanha desde os tempos da escola primária. Como terá notado, tenho por hábito fazer os “P” minúsculos muito semelhantes aos “F”, é um defeito que me atormenta e para o qual não encontro solução. Todavia se tiver a gentileza de observar atentamente a parte inferior de ambas as letras, notará que a maior espessura da linha é claramente identificativa da letra “F”.
2. Peço-lhe também que me escuse a ligeireza, ou porque não dizê-lo, o desleixo com que algumas personagens menores foram caracterizadas. Tenho por método o ir aprimorando de forma iterativa estas personagens até me dar finalmente por contente com o resultado, o que nitidamente não tinha ainda sucedido.
3. Finalmente gostaria de lhe dizer, embora naturalmente já tenha reparado, que falta ao manuscrito o último capítulo. Imagino-o decepcionado e pleno de frustração por assim se ver privado da chave de leitura capaz de dar sentido à narrativa e de elucidar o mistério construído ao longo das trezentas e doze páginas. Sinto-me na obrigação de lhe confidenciar que na realidade o Fagundes é o pai desaparecido da Mariana, que o Terêncio se escondeu todo o tempo na casa dos Pimental e que o anel estava desde o terceiro capítulo dissimulado no espanta-espíritos da Teresinha.
Atenciosamente,
O Autor
Faz muito noite. Também faz frio, chuva e vento, que vento. Dois homens trabalham na linha do comboio. Tanto um como o outro.
Primeiro Homem: Está frio!
Segundo Homem: Está frio e vento. Venta muito.
Primeiro Homem: Toda a gente sentada ao quente e nós aqui... E eu que nem sequer ando de comboio. Estas linhas não me levam para lado nenhum.
Segundo Homem: As linhas não levam ninguém.
Primeiro Homem: Se os comboios pudessem andar por todo o lado não eram precisas linhas. Havia mais liberdade e menos noites ao frio.
Segundo Homem: Mas podia-se ir parar a qualquer lado, um engano do condutor e ia-se parar a qualquer lado.
Primeiro Homem: Mas assim só se pode ir para a frente, para onde está escrito.
Segundo Homem: Se calhar chega bem, não há muita gente a querer ir para outros sítios. Vai-se para lá e pronto... para onde está escrito.
Primeiro Homem: Mas são precisas as linhas, e com este frio...
Segundo Homem: Frio e vento, venta muito.
A recente publicação em língua portuguesa das mais representativas obras de Inisi Afa, importante escritor Melanésio, vem finalmente permitir ao público lusófono o conhecimento de um curioso caso de singularidade literária. Inisi, filho dos amores furtivos de um missionário escocês e de uma nativa da ilha de Makira, apreendeu o conceito de alfabeto através de uma bíblia deixada à pressa na cabana de sua mãe. Desde tenra idade Inisi dedicou-se a desenvolver um sistema de símbolos que lhe permitisse registar por escrito o seu dialecto, até esse momento apenas de expressão oral. Uma vez completada tal tarefa, Inisi começou a criar algumas das mais originais obras da literatura mundial.
O seu primeiro livro, escrito nas entrelinhas da referida bíblia, tem por título “Nos dias pequenos às vezes temos fome” e poder-se-ia qualificar como um relato naturalista “avant la lettre” em que este descreve as contingências económicas que provocavam violentos conflitos entre as diversas tribos do território. Numa passagem inesquecível Inisi descreve com pormenor o processo pelo qual as cabeças dos inimigos capturados eram reduzidas e penduradas em pontos estratégicos da ilha. Já neste primeiro manuscrito é notória a sua capacidade para expressar os sentimentos de descontentamento e de revolta existencial tão característicos da sociedade Melanésia do sec. XVIII.
A segunda obra apresentada nesta edição tem por título “Fui pescar um peixe grande grande” e é um notável relato em fluxo de consciência de uma jornada de pesca solitária. Inisi convida-nos a partilhar da sua percepção e faz-nos acompanhar as preocupações, os desejos e as fantasias de um pescador simbólico em busca de um “peixe grande grande”.
O último volume agora traduzido é por muitos considerado como a obra-prima deste autor, o magistral “O regresso dos cabelos vermelhos” é uma distopia poderosa em que o autor imagina um mundo futuro dominado por personagens omnipotentes e cruéis de cabelos ruivos. Nesta utopia negra, Inisi descreve uma sociedade transformada e radicalmente oposta aos valores e tradições que conhece. O autor imagina uma realidade onde o tempo é controlado por mecanismos e não pelo sol, os homens são obrigados a caçar para outros homens, os corpos são presos em tecidos de cores escuras e todos os deuses morrem ficando apenas um, desconhecido pelas gentes da ilha. É uma escrita angustiada e assaltada por assombros filosóficos que revela um autor maduro preocupado com os destinos da sua cultura e da sua colecção de cabeças encolhidas (maravilhosa metáfora).
Esta tripla edição constitui um documento fundamental que vem consubstanciar a teoria do famoso crítico literário Kapi Popol, segundo a qual a literatura europeia dos finais do século XIX e inícios do século XX é originalmente um produto importado da Melanésia conjuntamente com a copra, o cacau e a kava.
“Eu não sei nada de telhas acima, mas se o amigo se lembrar diga um Pai Nosso por mim que eu andei muito de mal com ele”. Disse-me estas antes de o levarem dali para fora aos empurrões. Não exactamente aos empurrões, mas com os movimentos precisos e indiferentes de profissionais de mudanças. Agora estás aqui a pedir Pais Nossos e agora vais para onde te queremos nós, alguém por nós ou o outro das rezas. E vais de rodinhas. De quando aqui entras passas a ser deitado, se sais de pé ou não, é coisa que não sabemos, fala lá com o outro se ele ainda lá estiver.
Eu tentava lembrar-me das palavras mas não conseguia passar do “assim na terra como no céu”, por isso disse-o muitas vezes como se fosse um mantra. “Assim na terra como no céu, assim na terra como no céu”. Eu também não sabia nada de telhas acima e suspeitava muito das palavras. Que doesto lhe haveria feito o pobre homem? Que resposta lhe haveria dado o outro? Eles que se entendessem que eu nem o Pai Nosso sei de cor. Pedir-me assim uma cunha de tanta responsabilidade era coisa irreflectida, “assim na terra...”. Devia-lhe ter pedido o mesmo, “diga-lhe um Pai Nosso por mim que eu nem sequer o conheço”, quem lá chegar primeiro que amanse a fera e trate do arranjinho, “há-de aparecer aí um amigo...”, era o que eu devia ter feito.
Afinal de contas, mais cedo ou mais tarde... e de rodinhas.
Acordar um dia a meio de uma enorme epifania onírica. Significados ocultos e subtis revelados com clareza cristalina. Ter preguiça de escrever. Voltar a adormecer. Acordar duas horas mais tarde a meio de um sonho palimpsesto feito de palhaços pernetas e mamas voadoras.