10.5.12


queria as palavras certas de um contrário
o teu nome muitas mil vezes, ou beijos, ou
domingo de todas as minhas certas horas
tão perdido ando de agora ter caminho
para o centro exacto de nós, para dentro
de um desejo que não chega, que anda aqui
ao nosso lado viajam as cores vermelhas
uma música coral de dias já esquecidos
e olhos que bebem mãos e pele e risos
afinal esperei por tanto o que corri
afinal cheguei ao muito fundo de ti

29.4.12

Um Velho


O velho acordava com o sol, levantava-se, e ia até à janela somar pássaros; depois lavava-se, vestia-se, comia uma laranja e descia à rua com um número na cabeça.
O velho caminhava lento até à praça dos autocarros e procurava o número que trazia. Entrava no autocarro correspondente e escolhia um lugar ao fundo, de onde pudesse olhar e passar despercebido.
As pessoas entravam, liam o jornal ou conversavam e depois tocavam a campainha e saíam num lugar. Tantos lugares, pensava o velho, e imaginava o que fariam ali, torcendo as mãos nos gestos de escrever, martelar ou apertar parafusos.
A meio da manhã o autocarro chegava vazio à paragem terminal. Ele descia e ficava alguns instantes a olhar em volta. Por vezes chegava a subúrbios de prédios altos e cinzentos, outras a pequenas aldeias que resistiam a ser cidade.
O velho começava então a andar até encontrar um jardim, ou uma taberna, ou um centro de saúde onde estivessem outros velhos como ele. Mas diferentes dele.
Sentava-se a seu lado e dava os bons dias. Trocavam nomes, um aperto de mão, e em pouco tempo começavam a contar histórias da vida. Ele contava a sua e depois ouvia-os com atenção, anotando na cabeça os pormenores todos: as datas, os nomes dos filhos, dos netos e das ex-mulheres. Todos os velhos tinham histórias cheias de gente e de pormenores.
À tarde voltava para a casa vazia. Uma vida de tantos anos e as paredes sem fotos, e a memória branca, e nem cartas ou prendas.
Então o velho sentava-se à secretária e escrevia num caderno as histórias que escutara. Tudo muito devagar, decorando com cuidado as palavras exactas para o dia seguinte. 

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)

26.4.12

Soma


A minha, o meu, e eu sem nenhum.
Sou apenas eu, e tão pouco às vezes.
O meu já anda, o meu aprendeu a falar.
O eu já dói e geme um pouco ao baixar.
Uma vida limpa, sem restos nem filhos,
ou amores a sério, ou obra que se veja.
Não estraguei nada e deixo o que achei:
um pedaço de ser quase por estrear.
Talvez um dia morra como quem desnasce,
as dores e os prazeres somados em nada
até à última casa decimal de porra nenhuma.
Terei aprendido às minhas grandes custas
A arte perfeita de apenas fazer horas.

23.4.12

Um Amor


O meu relógio parou em ti. A mesma música a tocar no rádio do carro e a mão que procura uma perna e se fecha contrariada.
Abro a janela para que fujas de vez. Escolho outros caminhos, evito bairros inteiros e cafés, bares e supermercados.
Comeste metade da cidade e às vezes perco-me a contornar rotundas sem saber para onde ir. Encurralaste-me fora de ti.
Foi culpa nossa, de amarmos por todo o lado como se aquilo não coubesse, como se uma vontade parva de tomar espaço e multiplicar por metros os centímetros de paixão.
Ali dormimos os dois.
As conversas que viravam esquinas e iam de tua casa para todo o lado. Não tenho por onde andar que não te ouça. Os teus dedos quentes por entre os meus aqui, aquela casa, lembras-te?
Lembro-me eu.
Foi um amor grande para uma cidade tão pequena. Não temos espaço para a indiferença, ou te amo ainda ou devo odiar-te e lutar por cada esplanada, por cada amigo, rua a rua, numa guerrilha de coração preso.
Foi culpa nossa, de não amarmos sempre no mesmo lugar como quem corta o cabelo ou compra o pão de cada dia. Agora é tarde, agora dou voltas infinitas às rotundas.
Vou emigrar de ti, levo a tua foto e um livro de poemas para olhar e lembrar o mapa do meu país. 

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)


21.4.12

Um Prédio


No segundo esquerdo um homem morreu de desejo.
No terceiro direito viveu um padre que bateu com a cabeça em Deus e caiu em cima de uma mulher.
Debaixo das escadas da entrada um menino guarda pedras e vidros coloridos para um dia ser artista.
É um prédio frágil e sentimental, de tangos e boleros que tocam por dentro das paredes e se ouvem à noite só por sonhos. Quem lá mora enlouquece lentamente até fazer parte dele. É um prédio feito de muitas loucuras.
Há uma menina a dançar sozinha no rés-do-chão.
Há um cão que olha para a rua e ladra aos homens de bigode.
Há um velho doente que fuma sentado e se apaixona por todas as raparigas.
O prédio tosse e suspira e arrepia-se às vezes.
No terceiro esquerdo já não mora ninguém. As estantes da sala guardam restos de felicidade: fotografias, livros oferecidos, filmes que foram vistos a dois e que agora doem ao lembrar.
As janelas do prédio dão todas para dentro.
No segundo direito uma senhora antiga, um vestido negro e um desvario de mãos a bordar flores.
No primeiro esquerdo está um homem deitado ao lado de uma mulher que respira e dorme com o corpo todo.
Faz frio no prédio, sempre frio, mesmo no Verão. Quando alguém entra tem de vestir um casaco, ou sentir tristeza ou acender o que puder arder.
No primeiro direito uma rapariga de olhos fechados grita sozinha com medo do que lhe pode acontecer.

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)

16.4.12

Lugar

A cidade tem culpas por dentro da gente.
Andamos por cima da cidade, polimos-lhe as esquinas e até dormimos nela. Temos medo, e confiamos em membranas que nos protejam: a sola dos sapatos, as roupas que trazemos, janelas ou pálpebras fechadas.
Mas a cidade tem dedos finos que entram pelos olhos e pelas narinas e pelo meio de tudo. Dedos que agarram por dentro e não largam mais. 
É negro o chão da cidade e nem sabemos porquê. Talvez o queiramos assim, talvez o não saibamos evitar. Como seriam as vidas se assentassem noutras cores?
A cidade é uma insónia de todas as horas, frémito nosso nela, nós nisso, nós o que bule, o que intoxica e mata. A cidade mata todos os dias.
Aqui morrem duas vírgula oito pessoas por dia. Duas pessoas e oito décimas de pessoa a morrer todos os dias.
Somos células especializadas da cidade. Limpamos, construímos, carregamos partes de um lugar para outro, transformamos energia em movimento e pensamos por ela. Células que morrem e nascem todos os dias, partes que adoecem e multiplicam.
Somos partes pequenas e fundamentais, vivemos enquanto servimos, até que se esqueçam de nós ou nos falte o amor.
Foi a cidade que inventou o amor.
Não podemos amar sem geometria. Ruas que cruzam ruas, esquinas que dobram vidas, jardins onde os corpos passeiam e se escondem, um tecto onde o amor cresce e se alimenta de noite.
São de toda a importância as árvores da cidade, como os candeeiros, a cor dos contentores, a inclinação das ruas e os desenhos na calçada.
Pode muito bem amar-se só por estarmos aqui.

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)

14.4.12

Desiderata

Sim, meu amor, às vezes, muitas vezes, embriago-me de mim.
Sou disso e pior ainda, como sonhar com sonhos, ou morrer acordado.
Não tenho nada para dar, mas prometo roubar o que puder, assim, amor.
Não garanto nada que possas lembrar, mas sou fácil de esquecer.
Declino-me em tudo o que é fraco e pobre, e desilusões também sou.
Ranjo os dentes a dormir e grito os nomes de outras mulheres.
Engano-me mais do que a ti, mas vou enganar-te a ti.
Tirando isso, prometo-te tudo, por quem me tomas, amor?

9.4.12

How Soon Was Then

Eu conhecia as letras todas
porque havia de ser preciso
cantar amor a qualquer hora
De manhã à porta da escola,
nos bilhetes de mão em mão,
e à noite virado para o tecto
O amor dizia-se em inglês
porque não cabia na língua
pobre de todos os meus dias
Veio depois a vida inteira
e desse amor só um pouco
que ainda pude lembrar
Agora canto os lalalas
de palavras muito iguais
e sempre mais estrangeiras

1.4.12

queda de um grave

a sonhar tu saltaste e eu caí
parti um braço e perdi-te para o ar
agora quando sonho eu caio e tu voas
trago o braço direito parado no peito
e digo-te adeus com tudo o que é esquerdo

29.3.12

Até em Deus eu acredito


Nas dores de quem é velho
Na meteorologia
Na morte
Nas promessas de um bêbedo
Nos teus olhos claros
Na mão de quem pede
No fim do mundo
No fim de mim
Na Senhora da Saúde
Nas coisas que eu cá sei
Nos dias que hão-de vir
Nos deputados da nação
Nos amanhãs que cantam
Nas pessoas todas
Na sorte
No destino
Na volta do que já foi
No menino Jesus
No que eu já fui
No amor agora
Na manhã agora

19.3.12

Beijar o Mar


Um pai atravessa o oceano e morre longe da gente. Um pai a menos.

“Arredem-me o mar que quero voltar para casa”. Foram as palavras que lhe ouviram, depois morreu.
Nunca chegámos a saber o que o fez partir. Uma carta deixada na mesinha de cabeceira, uma mãe em lágrimas e nós meninos pendurados da saia em perguntas de jantar.
Tínhamos poucos anos e aprendemos a calar. Minha mãe fez-se homem e trabalhou mais e deu-nos de comer e nunca mais cantou.
Não chegaram outras cartas, só aquela tão tardia. O pai que eu não tinha estava morto num lugar.
Escolhi um verão e fui atrás dele. Disseram-me onde jazia, terra chã de cruz em cima, aquilo um pai.
Era uma pequena cidade costeira, a casa abandonada junto à praia, miserável, sem tratos de mulher. Garrafas vazias, roupas esburacadas, um colchão imundo e os bichos a tomar conta.
Abri as gavetas e espreitei o armário, alguns documentos, cartas do banco, uma fotografia de família (de quando ainda sabíamos sorrir) e um maço de bilhetes. A letra desenhada em muitos redondos, excessiva, corações infantis a servir de assinatura. Encontros marcados, outros adiados, “hoje, no lugar que é nosso”, “beijinhos para o meu benzinho”, enjoos desses, coisas de menina ou puta de qualquer idade.
Saí dali e andei às voltas, imaginando-me trinta anos mais velho, tolo de palmeiras e de uma mulher vulgar. Que pai parvo deixaria a minha mãe por uma galdéria de corações?
Dirigi-me ao centro da cidade, bebi algumas cervejas e perguntei. O falecido português, que vida a dele? Foram-me dizendo pouco, que andava por ali, à pesca e aos copos, um resto de homem que nem se entendia.
Passei pelo hotel a buscar lençóis e fui para a praia deitar-me na cama do velho, alguma coisa haveria de entender. O sono veio embrulhado de ondas, um vaivém de ideias e corpo, a cama feita barco, ou náufrago, ou homem bêbedo. De manhã cedo a luz pelo telhado falido e o calor a empurrar-me para fora.
Molhei os pés e lavei a cara de sal, quieto num espanto de dia, à beira de qualquer coisa que me escapava. Pensei em peixes arrimados ao cimo de ondas, olhando a terra e pensando na vida.
Aproximou-se um homem sujo a rir com poucos dentes. “Menino, você é a cara do português!” E ria, e veio para mim.
Perguntei-lhe se o conhecia, se me podia ajudar a compreender, a mulher, quem era essa mulher?
E o homem riu muito mais, e deu passos de dança até cair na areia e eu sentar-me a seu lado.
“Seu pai era homem sem mulher, rapaz, era doido sozinho mesmo. Bilhete? Que bilhete? Isso era coisa da mão dele. Todo o dia o português vinha para a praia, assim que nem você, e se adentrava no mar como fosse coisa feminina. Depois, quando a água chegava na boca dele, ele fechava os olhos e beijava o mar, doido daquilo, parecia até sexual!”.
Fiz-lhe mais algumas perguntas, mas o homem não disse mais nada. Imitava os beijos do meu pai e ria e cantava até se levantar e desaparecer longe na areia.
Demorei-me ali a imaginar a loucura que haveria de herdar. Uma doença de águas e um amor tão desproporcionado. O meu pai era louco, mas talvez não fosse parvo. O mar tão perto, o vento quente, o contrário de nós. Não era coisa de ser normal, mas podia um homem perder-se daquilo. 
Levei o resto das coisas para a casa da praia e fiquei à procura de uma história para contar. Algumas semanas, alguns meses, até me esquecer de procurar.

Afinal aquilo não era coisa de contar.

(Texto publicado na revista "Rua Larga", da Universidade de Coimbra)

18.3.12

Nominal

Que nome dar a isto, a ser assim?
A saber que tudo foi já perdido
mas viver como se houvesse sol
e gente para amar e até meninos
E a música tocasse e se pudesse
dançar com sonhos por ideias
e beijos dados por não dar
E houvesse em algum lugar
um deus que assobia e reza
por todas as almas inúteis
de todas as nossas flores

Um nome único para quem sabe
da chuva mais do que o cair
dos dias mais do que passar

6.3.12

andando


não tenho versos que te sirvam
nem beijos que cheguem para ti
ando curto de todas as palavras
e só risos e passeios lentos a pé
pelas ruas de sol da tua cidade
encolho ainda o amor na língua
porque me dói isso, o verbo –te
que eu esmurrei em particípio
leva-me certo nas mãos certas
e olha para a frente de nós
como se eu não fosse atraso
ou sombra, ou um homem só
mas te andasse nos mesmos pés
e te amasse, e andando te amasse

30.1.12

retrato de agora sem ti


afogo-me muito nestas tardes ao céu
um sol que não chega, não alegra nem cor
um cigarro nos dedos a queimar ar
e o tempo lento de agora menos um quarto
anda por aí amor às sombras de tudo
beijos que mordem olhos que olham
e um frio de ossos a suster-me a pele
se hoje o mar me tocar desapareço
como um poema de água nas mãos

23.1.12

Noite

Não quero poesia mas coisa de mãos
Um seio com a forma da palavra seio
Um corpo carregado de metáforas
E a métrica incerta dos teus beijos
Quero rimas feitas com os dentes
Morder-te as pernas com as pernas
E gemer iambicamente por ti
Quero-te do outro lado disto
Trocar os dedos pela boca
E as minhas noites por nós

16.1.12

Horas

Por aqui como ficaram horas à solta.
Pelo meio das razões sobrou um tempo
que não tem onde dormir, que não tem lugar.
Se as casas fossem paredes ninguém morava,
as casas não são feitas de paredes.
quadros pendurados em nada e não caem,
ninguémconta, são tempo e sorrisos.
Os dias bons são todos vontade, são querer muito
porque nãomais nada, sonho.
vidas tortas e nem tudo o que se mete nelas
fica onde nos possa servir. Há vidas muito tortas.
As minhas melhores horas são tuas,
tenho-as  espalhadas por todo o lado.
Lembro-me por exemplo... mas tu também te lembras,
foi um dia feliz que apagou tristezas e fazia muito calor.
Queria agora o teu corpo e chamá-lo meu.
Trata bem do corpo que foi nosso, como do resto.
Se puderes pendura-nos as horas num sítio bonito,
elas precisam de sol, foi sempre assim.
Desculpa-me mas vou agora dormir contigo,
não é maldade, sonho e um cheiro que ainda sinto.
Amanhã ou depois será como tu queres, mas hoje não,
hoje tu não te foste embora e eu ainda me sei fazer amar.
Assim que te perdi procurei raivas que me cegassem,
uma cegueira boa, de olhos que não vêem.
Não sou capaz de ódio, fico aqui a brincar com as horas
e choro e rio como se amanhã fosse outro dia.
Vou agora despir-me e chegar-me a ti,
não faças caso, sou apenas uma lembrança.

15.1.12

Baldio

Há homens para querer e outros que só se lêem.
Sentam-se em cafés com caneta e papel e despejam em palavras os amores que ninguém pratica.
São homens do lixo da gente, trazem no bolso cadernos-aterro onde se deita o que sobra, o que não cabe já em lugar nenhum.
“Tenho uma vida para cuidar, seguras-me aí o amor?”
E eles seguram, enterrados naquilo até ao pescoço, empestados de dor e lua.

Quando é que tudo se fez tão noite?

8.1.12

vem
    
        deitar
                  
                   te


                        no


                             meu


                                     poema

3.1.12

Sombra

Amar-te-ei de um amor calado
Secreto como coisas nocturnas
Silêncio onde chovam palavras
E nasçam cores fingindo orvalho
Um amor às escondidas de nós
Como a sombra de um sol
Como a dor antes da dor
Ou a dor depois da dor

14.12.11

Ainda

Não creio em deus nem no amor
não faço figas, não digo o teu nome
mas ando por aí onde não me vês
de mãos nos dedos a contar noites
e a sentir muito as horas inteiras
Faço versos brancos que não és tu
nem as ruas vazias de tanta gente
nem nada que sirva, nada de bom
Sonho às vezes, sonho contigo
e connosco, alegrias pequenas
que não acordam nem lembro
Não creio em deus nem no amor
mas rezo ainda e penso em ti

24.11.11

Vintage

São quase oito e tu à minha espera. O trânsito, a chuva… Mas tu já sabes, sempre o trânsito, sempre a chuva, ou um acidente, ou uma reunião, e tu já sabes, sempre eu, sou sempre eu e tu à minha espera.
Hoje quis que fosse diferente, lembrei-me mais de ti, abri a carteira e olhei para a tua fotografia, a que tirei quando estávamos a ser felizes longe. Onde era? Maldivas, ou Canárias, ou na República Dominicana, já nem sei, éramos tão novos e tu tão linda, tão minha e tão linda eras. Ainda és, sou eu que me atraso porque embruteci, porque me esqueço, sei lá eu porque é.
Dez anos, são só dez anos, já dez anos. Não te sei pesar em tempo. Quantos anos tem um sinal na nossa pele? Ou um dente torto, ou um calo nos dedos que tocamos quando estamos nervosos e nada mais sabemos fazer?
Não há idade para o que somos, talvez nos tenhamos tornado um lugar, como um jardim, ou um quarto que tem o nosso cheiro, ou o berço onde dorme o que inventámos ou a cama onde nós dormimos e às vezes nem dormimos.
Mudo a estação e troco as notícias por músicas de amor. Dez anos e ainda me fazes isto, mesmo atrasado, mesmo careca e bruto do tempo. Chove muito e o carro parado numa fila. Talvez abra a janela e vá a nadar até ti, talvez me chames tonto e digas que nem as penso, nadar na chuva numa noite assim… Depois rio-me e dou-te beijos para que me perdoes e te esqueças do atraso, para que te esqueças de muitas coisas.
Tenho uma garrafa guardada para nós, de um ano único, um ano que guardei para nós. É um vinho doce e delicado, de tempo poisado.
Conheço todos os teus sabores, a menina que foste, a rapariga louca e destemida que tu eras como eu não era, a mulher mãe de agora. Não te devia guardar para noites assim, mas sou tonto, tenho medo que vás e não entendo que quanto mais te beba mais há para beber.
Perdoa o atraso, perdoa-me a chuva, a noite, o tempo.
Faltam-me palavras, sobram-me coisas dentro mas faltam-me palavras. O cantor da rádio di-las por mim, fala de amor, de arrependimento, de erros. Queria cantar para ti assim, que me ouvisses sem me olhares, para entenderes melhor, como eu entendo as canções porque não as vejo e só a chuva, os faróis vermelhos e a hora no relógio.
Vou abrir o vinho e vais dizer que é bom. Tu que nem ligas, que nem bebes, vais sorrir. E eu devia abrir-me a mim, dizer que envelheci por ti para que me abrisses e te pudesse falar com as palavras mais finas, as mais maduras, as que faltam.
Agora avanço um pouco, vou chegando a passo de homem. Em que pensas tu? Que nomes me chamas? Que paciência a tua quando eu não estou e tu conversas com a menina? O papá atrasou-se outra vez, o papá esqueceu-se da gente, bebé, porque tem muitas coisas na cabeça, e um dia vai atrasar-se tanto que já ninguém espera por ele, não é, bebé?
Que cabeça a minha, não nadar na chuva numa noite assim.
És chão em que assento, penso e não te digo. Se um dia me faltas caio logo ali, sem lugar para pôr os pés ou a mim. Morreu por falta de chão, dirão os amigos, um homem a cair por todo o lado.
Hoje vou beijar-te mais e melhor, dizer-te estas coisas, contar os trezentos e sessenta e cinco dias multiplicados por dez e por nós. Às horas bissextas escondo-as numa caixinha, para quando formos velhos e nos faltar o tempo. Ato-lhes um laço vermelho e dou-tas de presente. Toma as minhas horas, trata delas porque eu não sei.
Diz à menina que eu estou a chegar. Diz à menina que tens nas mãos e no peito que eu estou mesmo a chegar.
Já não chove, uma música sem palavras agora, apetece-me cantar mas não sei como. Que ouvisses a mesma rádio e a mesma música com as minhas palavras por cima. Não te esqueças de mim, por favor, não te esqueças de mim.

(Texto escrito para a folha de sala do concerto de comemoração do 10º aniversário do Quarteto Vintage

9.10.11

Black Market

Eram três raparigas que riam, pareceu-me assim. Chegavam da rua e despiam os casacos à volta de uma mesa. Diziam coisas e olhavam em volta, eu estava perto com os dedos suspensos em cima do caderno, olhava para elas.
A música era alegre e havia fumo a subir de muitas bocas, pessoas com pessoas e elas e eu. Duas que se sentam e a rapariga loira num vestido vermelho pergunta a um casal que está à espera de outro, depois olha para mim e de novo para as amigas. Elas acenam-lhe para que avance, a rapariga aproxima-se.
Diz-me boa noite e sorri, aponta para a cadeira como se pedisse desculpa, posso? Digo-lhe que sim e vejo-a afastar-se. Fecho o caderno, apago o cigarro e bebo o que resta da cerveja.
Há noites em que estar sozinho é só estar sem ninguém. 

5.10.11

Menina

Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero

Quando eu for grande quero ser pequena


28.9.11

It's gonna rain

vai chover porque me dói o peito
e nem vi deus ou outro indício
só o peito e uma víscera doente
cheia de reumatismos de amor
tenho o tempo certo de abrigar
numa arca de poucos côvados
cada dois de mim e pão e água
doce que eu beba e me não falte

26.8.11

O Avô Pintinhas

O meu avô é uma gota de passado pendurada na parede da sala. As poucas fotografias que resistiram dizem pouco, uma cara redonda, um corpo maciço e um sorriso de brejeirices com o cigarro ao canto da boca. Uma mulher escura de cabelos escuros dá-lhe o braço numa delas, estão num salão, talvez um clube recreativo ou um baile particular. A minha avó não se vê em nenhum lado.
Chamava-se José Silvério mas todos lhe chamavam Pintinhas. Tinha dois sinais na asa esquerda do nariz e morreu do fígado antes que eu aprendesse a falar. Não fez diferença, porque só agora me lembro das perguntas que lhe queria fazer.
A guitarra tem um nome, chama-se Mercedes e está pendurada por um cordel grosso e encardido, mais escuro ao centro, onde assentava o pescoço do meu avô. É do meu pai que ouço as histórias, a minha mãe guarda silêncios como vergonhas, já lá está, era um homem difícil e muito doido, diz-me ela. O avô Pintinhas não era de andar por casa e vive ainda pelas ruas, mais do que por cá.
Conheço bem os passos do meu avô, as ladeiras e os becos onde se encostava para dormir, os homens que lhe ampararam quedas e humores, “este é neto do Pintinhas” dizem uns para os outros, depois riem e dão-me palmadas nos ombros e oferecem copos de aguardente. Eu recuso e riem ainda mais, “Deixa lá, que só de herança hás-de ter que não te falte.” Na tasca do Artur uma outra foto assinada, Rio de Janeiro, 1954, dois anos antes de a minha mãe nascer.
Dizem-me que os dedos dançavam mais do que tocavam, corriam pelo pescoço da Mercedes, acima e abaixo, em festas loucas que trocavam os olhos à gente, meia dose de homem cambado pelos cantos, mas quando punha a guitarra ao pescoço, ai rapazes… era de valor. As mulheres então ficavam tontas naquilo, adivinhavam o que se escondia e era escolhê-las porque todas o queriam, ao Pintinhas não faltava avio.
A minha avó era cantadeira de soirées, de uma família feita com os dinheiros do bacalhau e mercadorias finas, uma venda bem arranjada onde agora dançam mulheres a mostrar vergonhas, parece pulha do meu avô. A menina tinha o gosto da música e cantava certa, com mais recato do que sentimento, uma voz afinada por outro tempo. Chamam-lhe coitada mas eu imagino-a feliz, menina embalada pela guitarra endiabrada do Pintinhas, quem pudera ter-se por entre tanto dedilhar?
Dizem que a enganou, como se fosse um mal, como se não procurássemos todos o engano que nos falta. O cigarro ao canto da boca, uma mão no bolso e a outra a segurar o queixo, um homem cheio de dedos.
Vou por aí e às vezes perco-me, assento algumas linhas num caderno e acabo sempre por encontrá-lo, anda por aí o diabo. Os registos que ficaram estão gravados em gente como ele, homens esconsos às cavalitas do passado, as vozes tremidas cheias de certeza, o teu avô, menino, cantava assim. O meu avô é eco nesta gente, e eu também sou, sombra de sombras, Mercedes das suas mãos. As mesmas paredes, o mesmo branco agreste da cal queimada nos olhos de tanto tempo. O meu avô, menino, vivia aqui.
Um dia veio um americano e perguntou por ele, levou-o para um estúdio da rádio e tocaram juntos. O americano elogiou-o com palavras que ele não entendia, convidou-o a ir com ele, para a América, “big success” dizia ele, o Pintinhas ria e encolhia-se como podia, América? E a minha Lurdes? No, América no…. E gravaram mais uma música. Foram as fitas para longe com palavras escritas à mão, “Danças no Peito”, “Amores, amores”. Foram as fitas e ficou ele, agarrado à aguardente, à Mercedes, e à sua Lurdes, avô que chegue para ruas tão estreitas.
E o Brasil, avô? E as mulheres, avô? E a Carmen dos cabelos pretos? A voz veio depois, as palavras depois. Um homem já ido, o chapéu tombado e um cigarro encostado à curva do riso. A guitarra já sem cordas, o negro descascado por entre os trastes onde os dedos inventaram sons. Agora pendurada, o avô pendurado com a loucura de ser ele, enganador, danceteiro, homens às voltas e agora não.
Os teus Brazis, avô, as tuas mulheres escuras, um copo de aguardente, homem torto pelo torto da vida, era assim, avô, serve esta voz? É assim que se fala? A Mercedes, avô, gota certa que escorre por entre nós, o som que és e nós não somos. As paredes lembram-te, cantam-te ou calam-te consoante a hora, como eu e nós, avô. Andas por aqui às pingas, a chover-nos em cima, como o tempo, avô.

(Texto escrito para a folha de sala da iniciativa "Fado no Museu" da Câmara Municipal do Porto)

25.7.11

Celeste

Eram sete homens loucos à volta de um homem são, e diziam adeus. Vestiam pijamas à volta dele, abraçavam-no, tocavam-lhe com as mãos e sorriam ou choravam. Ele chamava-os pelos nomes secretos que tinham, Jesus, Belzebu, Salazar, Sebastião, nomes de guerra e de ser louco, de fugir com as ideias de uma cabeça doente.
Ele de mala na mão, corpo direito e lágrimas verticais, “a seguir são vocês… Tu, Rasputine, tu também, Madalena, a seguir são vocês.”Cá fora a família que espera, alegria e medo, quem és tu agora que a nós voltas, por onde andaste, quanto de ti te resistiu? Olhos limpos a adivinhar o mal escondido nos pijamas e nas árvores do jardim.Ele dá dois passos e olha para trás, mais quatro e alguém corre até ele. Salomé puxa-o pelo ombro e abraça-o com um cheiro íntimo, “tenho uma coisa para ti, para que te lembres de mim e de nós, para que possas voltar se o dia não te quiser.” Uma pequena caixa azul na mão, “adeus, adeus.”Atravessa o pátio e o portão, cumprimenta a mãe, o pai e o irmão, um último aceno e entra no carro. A caixa em cima dos joelhos, uma música a tocar no rádio e o silêncio nos lábios. Os dedos percorrem as arestas azuis, lentamente, como um gatilho. Ele sabe o que vai dentro porque já lá viveu, alguém abriu e alguém fechou. Ele sabe, porque é ele que lá vai dentro.


(Publicado no Pnet Literatura:  http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3623)

22.6.11

Maria da Saudade

falta-me ver deus, falta
faltam-me dedos nas mãos
e lugares no corpo e alegrias
beijos azuis que não demos
nas nossas bocas encolhidas
o céu, sabes, o céu inteiro
sol e dias e outras manhãs
sons de festa e de começo
nós antes de nós e de tudo
quando o tempo sobrava
quando tu não eras noite
e eu ainda não te vestia 

29.5.11

Pré-publicação do primeiro capítulo de "No Meu Peito Não Cabem Pássaros"

Nova Iorque



– São quatro segundos, caro amigo, quatro segundos de afli­ção que não dão para um pai‑nosso. O amigo experimente, pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no PAM!, quatro segundos e o corpo despedaçado contra o cimento. Se quiser continuar a trabalhar aqui, invente uma oração, pense bem no que há‑de pedir ao altíssimo, mas que seja em menos de quatro segundos.
Dois homens pendurados por arneses a oitenta metros de altura. Os que trabalham dentro chamam‑lhes pardais com uma ironia desnecessária. Quarenta e oito horas semanais de equi­librismo pagas a quatro dólares, um bom emprego para quem acaba de chegar à cidade. A fome mata‑se muitas vezes com núme­ros de circo, ser equilibrista ou palhaço é só uma questão de oportunidade.
– Quando o mundo foi feito, os homens foram postos na terra de pés assentes e medo das alturas. Os homens não são do alto, como os pássaros e os anjos, a vertigem foi‑nos dada pela natu­reza para que não o esquecêssemos. Os homens que sobem dema­siado alto são puxados para baixo pelo diabo, para baixo de tudo, para o inferno que procuram. A força da terra é força do diabo a chamar gente.
Karl tenta não ouvir o colega, concentra‑se na janela e no rodo que faz deslizar com precisão. Este é o primeiro dia de trabalho e ensaia um desvelo que não lhe é comum. Por entre os movimentos do braço e o chiar da borracha contra o vidro, há palavras que lhe chegam e ficam às voltas na cabeça. Céu, cimento, diabo, inferno. Karl nunca esteve tão longe do chão em toda a vida, pouca gente esteve. As montanhas do seu país são uma coisa diferente, altas, sim, mas vão subindo devagar. Esta parede é demasiado vertical, como o degrau infinito de uma escada absurda, um degrau que é fácil descer.
– Eu não hei‑de cair enquanto o mundo não se virar. Não há diabo que chegue ao santíssimo. Há quase um ano que trabalho nisto e deus nunca me deixou cair, um homem deve precaver‑se e foi o que fiz. O pastor deu‑me na mão uma pena de anjo, uma pena às cores de um anjo que o foi ver, e eu trago‑a cosida ao peito. Esta pena é de puxar para deus. «Cose‑a ao peito e nada te pode deitar abaixo, o coração há‑de puxar‑te sempre para cima enquanto a trouxeres contigo.» Foi o que me disse o pastor antes que eu aceitasse este trabalho. Uma parte do ordenado vai para a igreja e mais que fosse, o favor de deus não tem preço e até os pardais podem cair sem penas de puxar para cima.
Tremem as pernas a Karl de frio ou medo, a esta altitude não há diferença. O vento anda com eles de manhã à noite, como um cão vadio que não tem para onde ir e se mete pelas pernas de quem trabalha. Karl dá por si a inventar orações, é um exer­cício difícil, reduzir a algumas frases tudo o que se quer pedir ao criador. Por fim decide‑se e repete para si mesmo «Perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor...», a fórmula é simples e tem a vantagem de poder ser usada também em que­das pequenas.



 
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