25.7.13

linho

queria um verão de linho branco, uma coisa pura, uma coisa ar
mas não sei se foi do vento, ou aquele bicho a morrer na praia
o sol foi-se pondo mais cedo e tu choravas e eu também
o mar nunca foi tão frio, pois não? nada tão frio, pois não?
e o sal nos beijos, e um mal nas mãos, e um sal nos beijos
tecemos de estopa uma manta rude arranhando corpos
e o coração, também de estopa, e o coração


6.6.13

Tarde

Sei das horas muito longas
como estradas de chegar a ti
Uma mão aberta em dedos
um cigarro a arder calado
o copo de um vinho triste
e música às voltas de mim
Sei um nome que já não és
como resto de língua antiga
ou os beijos que me davas
ou o gato que já morreu
Tinhas a boca em forma de dor
e as noites em letras de versos

28.5.13

A Cidade Condicional


Deixando Atenas por Ocidente e cavalgando por vinte séculos, chegamos a Europa, maravilha quieta dos homens cansados.

A cidade foi erigida em pedra, depois arrasada e reconstruída em tijolo, depois novamente destruída e refeita em betão e vidro, pensada para durar e espelhar quem a habita, até ao fim dos tempos ou a extinção da espécie.
Europa é um lugar por exclusão de partes, nada de seu que não tivesse importado ou imitado dos impérios circundantes, das culturas que herdou ou que subjugou pela força e pelo cansaço.

A sua moeda é ambígua, tem uma face que representa o império e outra dedicada às diversas províncias, como se de povos se pudesse inventar um povo.
Os cidadãos desentendem-se em muitas línguas e são-lhes dadas palavras vagas e fracas como uma desistência. Ninguém pensa com as palavras de Europa, porque não servem para o íntimo, e os amantes não as trocam, porque não servem para o amor, e os loucos não as gritam, porque são palavras que não voam.

A cidade trabalha como um prisma do avesso, uma mistura de muitas cores que resulta em cinzento. Os prédios, as vestes, as músicas tocadas em algumas esquinas a certas horas, são pardas de cor e de textura, como algo que permaneceu demasiado tempo no bolso de umas calças e já não se distingue. Morre-se muito nesse cinza-Europa, e pode um homem desaparecer apenas porque deixou de ser visto.

Ali, os verbos futuros duram o tempo de uma queda. O passado engole a gente e os sonhos, o sol que nasce parece gasto de outras cidades mais vivas, é um sol de ontem, que não deixa ver nada de novo.

Assim é Europa, mas não tem de ser assim.


Há homens secretos a rir pelos buracos da cidade. Há rachas nos muros, nas paredes, no asfalto do império. Surgem poemas no tecido coçado dos assentos dos autocarros. Versos brutos de coisas brutas e antigas, de pão e vermelho vivo, de dor e ar e boca.
A seriedade, o peso, a história da cidade criaram uma casta de homens que são sombras e anjos, filhos de putas e de deuses distraídos.  

Em algum momento hão-de juntar-se os doidos e votar moções de nuvem, eleger pássaros, escolher as leis do acaso, formas governos de um dia e presidentes de um salto.
Hão-de os bancos comprar cantos e assobios, as pastas negras transportar berlindes e piões, as gravatas atadas em cordas de saltar e os decretos transformados em aviões de papel.

E Europa há-de ser outra coisa, que rebentemos todos se não for outra coisa.

Já nos cansa a nona de Beethoven. Não se canta uma alegria afinada pela fome.
Enfiem as doze estrelas num sítio onde faça muito escuro. Queremos mais cor, e menos bandeiras.

Queremos as coisas primeiras, comer com as mãos e semear o que sobrar nos dedos.

E um dia, isto ainda há-de ser outra coisa. Que rebentemos todos se não for outra coisa. 


(Texto lido a 26 de Maio no LeV, em Matosinhos)


2.5.13

Nefelibata


Nefelibata: que ou quem vive nas nuvens; diz-se também do escritor que não obedece às regras literárias; alguém demasiado idealista, que foge da realidade.

Do grego nephéle (nuvem) e bata (o que anda), o termo parece ter sido cunhado por Rabelais em “Pantagruel” onde, no quarto livro, é descrita a batalha dos Nefelibatas com os Arismaspos. No final do século XIX, a mesma palavra foi utilizada em Portugal pelos escritores naturalistas para apelidarem as gerações mais novas que por esse período aderiam à corrente simbolista-decandentista que chegava de França.
Raul Brandão, um dos escritores que mais viriam a influenciar a literatura portuguesa do século XX, assumiu a designação e subverteu-a, formando com Júlio Brandão e Justino de Montalvão o grupo “Os Nefelibatas” e publicando em 1982 um folheto com esse nome sob o pseudónimo colectivo de Luís Borja. No folheto/manifesto, os autodenominados Nefelibatas proclamam-se “Ateus do Preconceito e da Opinião Pública (…) Anarquistas das Letras, Petroleiros do Ideal”.

Quando eu era criança diziam-me muitas vezes, ao esbarrar num poste de iluminação ou quando tropeçava nos degraus de uma escada: Vives nas nuvens, tens a cabeça na Lua. Não sei se eu era apenas distraído, se estava a praticar para ser um “petroleiro do Ideal”, mas entretanto cresci e, enquanto muitos dos meus amigos foram descendo à Terra (alguns poisando, outros caindo), eu temo que ainda por lá ande, nas nuvens, na Lua, um anarquista do passeio público.
Diziam-me isso e eu não entendia, porque achava que todos queríamos por lá viver, longe da escola e da rotina, da vida tão pequena e ordinária. Nas nuvens não haveria trabalhos de casa ou sapatos enlameados, colegas maiores e mais fortes, gente doente, ou avós que morrem um dia. Os galos na cabeça e os pés torcidos eram um pequeno preço a pagar, culpas de um corpo que insistia em não voar.
O nosso mundo nunca foi um lugar recomendável, e por isso fomos aprimorando a arte da fuga: pelas ideias, por Deus, pelo amor que vamos conseguindo ou imaginando, pelo álcool, pelas drogas, pela arte. Parece haver um consenso generalizado entre homens quanto à superioridade da vida em relação à morte, e, contudo, são poucos os que não tentam escapar à vida que têm.
Os artistas foram sempre os Houdinis da vida, capazes de desaparecer mesmo de onde nunca estiveram. Qualquer paixão lhes serve de porta, e lá vai o artista por um caminho que só ele conhece. De entre estes há alguns particularmente perigosos, chamam-se malditos ou loucos, estão sempre adiantados ou atrasados em relação ao tempo dos outros e alguns nem cumprem as “regras literárias”. É gente que se permite rir por entre o caos ou chorar enquanto outros dançam. Somem à vista de todos e deixam buracos invisíveis na calçada, armadilhas terríveis disfarçadas de chão.

Mas onde deve viver um escritor?
Quando me converti em leitor, todos os meus escritores viviam em mansardas em Paris. Eu não os deixava sair, porque só ali me serviam. Não queria escritores do meu país nem da minha rua, ou que andassem pelo bairro e comprassem pão e pagassem as contas. Queria os meus escritores miseráveis, acordando ao Sol-posto, mordendo cebolas cruas, bebendo o vinho mais ruim e tendo por amor os favores fortuitos de mulheres pouco recomendáveis.
As mansardas eram para mim próximas das estrelas. Aí viviam Balzac e Baudelaire, mas também Kafka, Dostoievski, Borges e até o meu Fernando Pessoa de Lisboa, que afinal era de Paris. Para mim as estrelas e as mansardas eram ao mesmo tempo castigo e prémio de poetas, um lugar fora do mundo, sem as leis do mundo.
Aprendi mais tarde que também se podia viver nos subúrbios de uma cidade americana ou num bairro sofisticado de Tóquio. Que alguns escritores (e até bons escritores) casavam-se e tinham filhos, e acordavam de manhã para cumprirem um horário, tinham as estantes arrumadas por ordem alfabética e pagavam as contas com uma antecedência suspeita. Devem ter as mansardas na cabeça, concluí.
Depois aprendi mais, e descobri que há escritores à paisana, disfarçados de gente e camuflados de cinzento. Descobri que há agentes secretos infiltrados na vida, prontos a recolher qualquer conversa banal e a torcer-lhes os sentidos até serem outra coisa qualquer, nos piores casos até poesia. São homens e mulheres de dedos hábeis, capazes de eliminar mesmo as lógicas mais subtis, mesmo as regras mais antigas.

Que regras deve um escritor desrespeitar?
O que são as regras literárias e como fugir-lhes? Uma frase sem verbos ou predicados, é da literatura? Uma oração sem Deus nem prece, é literatura? Um crime sem vítimas nem culpados, uma história sem sujeitos ou um sujeito sem história, são literatura? Quanta realidade deve ter um livro? É necessária? Desejável? É possível fugir-lhe?
As regras nascem do acordo e do compromisso, “é isto que nos convém”. Servem para que nos entendamos e evitemos os conflitos desnecessários. Mas, ao contrário das leis civis, que têm parlamentos eleitos para as propor e aprovar em dias certos, as regras literárias só podem surgir da infracção. Através de obras isoladas ou de manifestos colectivos, apenas a transgressão permite estabelecer uma nova forma ou um novo cânone. São muitas as obras que romperam com o passado e abriram novos caminhos, poucas as “obras-primas” que se conformaram com o que já existia. “A Divina Comédia”, “Dom Quixote”, a obra de Shakespeare, “As Flores do Mal”, o “Ulisses” de Joyce, o “Livro do Desassossego”, “A Metamorfose”, obras que souberam desobedecer às regras literárias do modo mais escrupuloso. Afinal, a realidade estava de fora das regras.

Onde está a realidade do escritor?
No meu romance “No Meu Peito Não Cabem Pássaros” imaginei um Borges que olhava para as nuvens e nelas descobria os tigres e os dragões que lhe habitavam os sonhos. As nuvens são próximas da imaginação, matéria estranha entre o sólido, o líquido e o gasoso, ideias que voam e vão tomando as formas que lhes soubermos encontrar.   
A realidade é um lugar onde tudo é apenas o que pode ser. A literatura e a ciência aumentam a realidade, transformam o ridículo e o inverosímil em hipóteses, memórias e experiências. Mas essa realidade deixa de interessar a quem a inventa, está feita, e parte-se para outra, distante ainda, para lá do que se vê.
Escrever é ser Deus por cima e por baixo, mexer no íntimo dos homens e escolher do minério o metal, o que deve brilhar ao dia. Os homens são cheios de nuvens e não sabem. Por entre o almoço e o trabalho, e não sabem, no trânsito e no escritório, na cama, e não sabem. Mas há quem more do outro lado do sonho e saia à rua disfarçado num pijama, com os sapatos trocados e os dentes a cair, voando e caindo com as mesmas asas. Há quem respire por palavras e músicas secretas, quem se passeie no céu porque só o azul lhe aguenta o peso.
Em todos os tempos há quem critique os sonhadores, os intelectuais e os poetas. Que a vida anda por outros lugares, que os tempos são difíceis e nada propensos a sonhar. Mas em todos os tempos há momentos cruciais, em que o sonho derrota a vigília e nos apercebemos de que tudo é como não sabíamos que fosse. Como no capítulo XVI de “Guerra e Paz”, em que o príncipe Andrei Bolkonsky é derrubado pelo exército francês na batalha de Austerlitz e, deitado no chão, pensa para si mesmo: “Que tranquilo e sereno céu, tudo é vazio, tudo engano e decepção, excepto o céu infinito”.
Tudo é vaidade e correr atrás do vento, diz o Eclesiastes, mas o céu é verdadeiro, o céu espelha os homens sem lhes perguntar razões.

Hoje a Europa é uma má realidade. Os noticiários, as palavras e as nossas cabeças foram sequestrados por economistas e políticos, uma gente sinistra que traz a cabeça presa pela gravata e não consegue olhar o céu. Os dias estão demasiado iguais, sempre piores e sempre mais iguais. Andamos há muito tempo a cumprir as más regras, precisamos de malditos que nos tirem daqui à força de poesia. Estamos atolados numa realidade que já não serve.

Talvez seja chegado o momento de fabricarmos asas que nos levem para junto das nuvens, de sermos um continente de nefelibatas, partindo para o céu como a Península Ibérica partiu um dia para o meio do Oceano na “Jangada de Pedra” de Saramago. Uma Europa lançada ao vento, que voe para não cair, que se rapte a si mesma e fuja ao peso de ter peso.

(Texto publicado na rubrica "Un Mot d'Ailleurs" do número 603 da revista Nouvelle Revue Française)

15.3.13

anda aqui um homem


anda aqui um homem a fazer uma vida toda a vida e a vida que um homem faz é outra coisa sempre outra coisa e às vezes nem vida nem nada só um andar por cá a por pés à frente de outros pés e palavras à frente disto e disto e disto ainda um homem é fraca e constante coisa um homem é o que se vai arranjando um homem é daqui para o chão e olhos virados ao céu ou ao amor que é um céu de quem é triste quem me apanha o que trago pesado quem me acha no meio disto agora a noite e um silêncio grande de nem pensar nem a dor agora nem dedos à procura de mãos soltas as mãos vão por elas putas de só sentir como nervo descarnado entrando por um abrigo e com isto perdi-me e já não sei e o amor sei lá eu não me fodam com isso o amor é salvar quem não precisa de salvação
ponto
final

8.3.13

Somo-nos


e afinal é isto e só isto
será? que seja, quero
dias todos assim, assim
boca, assim duas mãos
seguras por beijos e medo
da luz um corpo amanhecido
de muito mudas as palavras
e tão dentro dos teus olhos
vemos tudo o que não era
e somos o que não fomos
porque adormecemos inteiros
por dentro de dentro de nós
ao fundarmos um nosso verbo


25.2.13

Cada Homem é Aqui


Da janela para fora vê-se gente pela rua. Turistas americanos com latas de cerveja na mão, adolescentes aos beijos, homens que regressam sozinhos deitando olhares a mulheres cada vez mais feias. Há cadeiras e até poltronas no meio do passeio, conversam, olham, vêem televisão em aparelhos portáteis. Dois turcos acocorados puxam fumos de um narguilé e um polícia gordo parado numa parede a olhar para o telemóvel.

Carros, um homem a gritar de bêbado, música electrónica de um bar às cores, o rádio de um táxi, rebético mal tocado numa taberna para turistas.
Da janela para dentro estou eu sozinho. Alguns folhetos com roteiros turísticos espalhados na cómoda, um telemóvel desligado, um bilhete de avião a marcar a página cinquenta e oito de “Os Mitos Gregos” do Robert Graves: “O nascimento de Eros”. O aparelho de ar condicionado faz tremer o ar com um ronco incerto e nenhuma brisa. Uma televisão acesa no quarto ao lado, um casal a gemer no quarto ao lado.
Penso em sair e não saio. Nenhum sono, nenhuma vontade de alguma coisa.
É tão difícil estar longe, não há mundo que chegue para fugir. Tenho de dormir, tenho o tempo de algumas horas para andar mais um bocadinho, sempre para a frente, sempre amanhã e depois.
Se sonhar com o Kavafis, atiro-me cedo pela janela.

As senhoras da limpeza batem outra vez à porta e eu não sei dizer palavrões em grego, Later, later, please. Os olhos abertos e tanta luz, já me limparam as sombras, as cabronas.
Tomo um duche e visto as roupas mais brancas, um disfarce de pedras antigas. Desço para tomar o pequeno-almoço, É demasiado tarde, dizem-me; É demasiado tarde, digo-lhes.
Saio do hotel e procuro e encontro um lugar para comer. Um velho sem inglês nenhum traz-me um bolo suado de calda de açúcar e um café excessivamente grego. Ele ri-se para mim com todos os dentes que não tem e eu rio-me também - Que há-de a gente fazer?
Estudo os horários dos barcos para as ilhas mas a verdade é que não sei para onde quero ir. Leio os nomes em voz baixa exagerando a pronúncia: Chios, Naxos, Ikaria, Patmos, Kos, Samos. Apetece-me ir a todas, especialmente às que têm “k” ou “x” no nome. Puxo do caderno e procuro as notas que tinha preparado.

Odisseia, Ilhas Jónicas: Corfu, Ítaca, Levkas, etc.
 “Eu, João, que também sou vosso irmão, e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus Cristo.” (Apocalipse1:9)
Córtazar: Xiros, a “Ilha ao meio-dia”.
“Zorba o grego”, Kazantzakis: Creta
“Mediterraneo”, Gabriele Salvatores: Kastelorizo (430 habitantes)

A literatura já me estragou viagens que cheguem. Há cidades que rebentaram de tanto serem lidas: Praga, Dublin, Veneza, Barcelona. Não se pode confiar nos escritores para viajar, é preferível seguir os filmes, são enganos que os olhos aceitam. Em Kastelorizo havia cabras, burros, galinhas, pastores e mulheres de cabelos muito negros.
Pergunto por gestos onde posso comprar o bilhete, Ticket, aponto para o mapa e desenho com o braço um barco a baloiçar nas ondas. O velho ri-se e imita também um barco. Pireus, Pireus!
Da janela do táxi é tudo mais aceitável, as senhoras que se benzem antes de atravessar a rua, os milhares de gatos que dormem a desinventar o dia, homens que dão voltas aos kombolói nas mãos sempre tão nervosas. O taxista pergunta-me para onde quero ir e ri-se com a resposta. “Too little, only goats and time, is too little.” Peço-lhe que espere à porta da agência. Lá dentro os turistas dividem-se pelos guias que trazem nas mãos: American Express, Lonely Planet, Guide du Routard, Touring Club Italiano. Americanos e alemães reformados, jovens com rastas, grupos franceses com mochilas e calçado de trekking, casais gay de todas as idades.
Quando chego ao guiché repito a minha ideia. O homem olha-me devagar e faz algumas perguntas ao computador. Vira o ecrã para que eu possa ler e aponta com o dedo, apenas um barco por semana, É longe, diz, um barco por semana. Abro o caderno e digo-lhe outro nome, Cárpatos, dê-me um bilhete para Cárpatos.

Tenho horas até à noite. O barco parte de madrugada para Rhodes e depois um outro nocturno até ao meu destino. Agora vou ver a Acrópole, um monte de mármore branco erguido por gente já muito ida. Há um qualquer conforto nisso, em ver e tocar algo que já morreu mas no qual podemos tropeçar.
Vou passear aos deuses.
Isto pensei eu depois de almoço, a morte só depois de comer. Subi por Monasterakis e perdi-me algumas vezes atrás de gatos e cantigas, sobrava-me o tempo e os passos. Um miúdo de cabelo rapado quis vender-me postais e pedras do Partenon, perguntei-lhe para quê e encolheu os ombros, “Há pessoas que gostam de lembrar”, cabrão do puto. Dei-lhe dois euros e disse-lhe que esquecesse.
Sempre mais turistas, mais pedras, mais postais e réplicas de plástico. Não fui capaz de imaginar deuses ou sábios, só o sol muito branco nas pedras, só vento a passar pelo desabitado dos templos. Foram todos e levaram o passado que tinham. Agora uma bandeira grega a drapear para as fotografias, agora estátuas que perderam há muito a cor e mantêm poses difíceis, como um avô que foi actor. 
Sento-me no Propileus a querer ser americano ou japonês. Não tenho máquina fotográfica e escrevo alguns versos muito maus. O miúdo do cabelo rapado passa por mim e ri-se, é fácil lembrar o que nunca se viveu.
Desço até à cidade e pelo caminho compro uma garrafa de raki.

No hotel tentam cobrar-me uma taxa por ter deixado a mochila, discuto com o recepcionista por alguns minutos e acabamos no bar. Ofereço-lhe uma cigarrilha e bebemos um café. Ele pergunta-me porque viajo sozinho, eu digo-lhe que troco uma história triste por outra mais alegre. Chama-se Yannis, mostra-me uma foto que guarda na carteira e dá-me uma palmada no ombro. As mulheres empurram-nos com os pés, diz o grego, Mas podemos sempre ir para a frente ou para trás. Não há nenhum homem no mundo que não tenha uma teoria sobre as mulheres - Que há-de a gente fazer?
Volto ao Pireus e janto e olho para os barcos até ser noite. Tenho quatro horas pela frente e nenhum sítio para esperar. Vou andando, fumo e bebo pequenos goles de raki que me vão queimando cada vez menos.
Porque viajo sozinho?
A noite é quente e desabrigo-me no chão encostado a um pequeno muro. Acordo passadas algumas horas, a tempo de correr para o cais com uma dor de álcool na cabeça. Levantam a rampa atrás de mim e três apitos antes de zarparmos. Subo para o convés e fico a turvar as luzes de Atenas até não haver lugar nenhum.

Rodes deve ser uma ilha bonita por baixo de tantos turistas. Vou caminhando por ela com a esperança de que os pés reconheçam o que os olhos não conseguem. Mais música despropositada, mais vendedores e esplanadas, milhares de cruzados nórdicos que tiram fotos uns aos outros e se contentam com um Graal de cerveja e um pires de azeitonas.
Fico rabugento e sem saber para onde ir, Porra para as ilhas, e sento-me no cais onde algum dia assentou o colosso. Leio no guia que as autoridades locais consideram a reconstrução da estátua, “com o objectivo de incrementar o turismo”. Não imagino o incremento, a menos que obriguem os visitantes a andar às cavalitas uns dos outros.
Leio e espero por um barco que me patrocine a fuga.

Passo a noite no convés enfiado num saco-cama. O vento vai aumentando e pelas três da manhã desisto do sono e dedico-me a enlouquecer. Um marinheiro fuma abrigado e observa-me com admiração. O saco-cama sacode-se como a vela de um navio e eu tento acender um cigarro também, para me convencer de que é tudo normal. O vento rouba-me o cigarro da boca e o marinheiro volta para dentro a rir às gargalhadas. Não sei para onde fica o Norte e, por precaução, insulto os ventos todos: Bóreas, Zéfiro, Euro e Noto.

Ao primeiro sol vê-se a costa de Cárpatos, uma baía de casas brancas rodeada por montes de pinheiros mansos e oliveiras tombadas para o mar.
Os passageiros vão-se juntando para sair, há mais lenços negros amarrados nas cabeças do que calções e sapatilhas de marca. Finalmente vou poder esquecer que sou apenas um turista como outros, talvez consiga até escapar de ser apenas o que sou.
Assim que piso o cais vem um senhor grisalho ter comigo. Italian, English? Would you like a nice room? Lembro-me das mulheres da Nazaré e da Figueira, rooms, zimmers, chambres… Caminhamos lado a lado em silêncio. Subimos por ruas estreitas e chegamos a uma casa pequena com um terraço coberto por uma latada e virado para o mar.
Ele prepara o café e conta-me a vida em frases curtas. Nasceu ali e esteve vinte anos emigrado na América, como quase todos os homens da ilha. Trabalhava na construção civil e aos fins-de-semana tocava lira em casamentos de compatriotas mais abastados. “Fazia mais dinheiro a tocar do que a assentar tijolos, sábado é dia de festa, se quiseres vens comigo e ouves-me tocar.”
“Vieste sozinho” e poisa duas chávenas brancas com um buraco muito negro a deitar fumo. Não tinha dinheiro para chegar à América, rio-me, Só pude fugir até aqui. “São vinte euros por noite, pagas quando quiseres.” Entrega-me as chaves e levanta-se depois de me apertar a mão. “Não te cases com uma ilha, são sempre elas a ficar viúvas.”
Fico ali olhando o mar a ser azul, o café até à borra espessa, um cheiro seco a sálvia e tomilho, o silêncio de sinos de vez em quando, pés calçados de chinelos a raspar as pedras do caminho, Kalimera, Kalimera.
Nos dias que se seguem vou aprendendo a ilha. As senhoras vestidas com trajes regionais que se levantam cedo para cozer o pão no forno comunitário, as praias de areia onde chego à boleia de pescadores de esponjas, o café-restaurante Gabriela, gerido por uma italiana que passa os dias a ouvir fado enquanto prepara o pesto.
As raparigas da ilha andam guardadas de olhares, e é melhor assim. Há um parque de campismo escondido num vale, ali servem carne grelhada com muitas ervas e é preciso comer com atenção para que os gatos não a roubem do prato.
A população aumenta com os emigrantes que voltam para a festa. O mistério do grego vai-se misturando com palavras inglesas de sotaque nasalado. Viajo pela ilha de autocarro e vou ter a uma aldeia onde um velho sisudo toca uma tsampouna na esperança de que eu a compre. Assisto a uma cerimónia religiosa que não consigo entender, são meninas de saia rodada e toucas com rendas e um padre ortodoxo a dizer palavras e gestos.
Chega o último dia e, depois de jantar, o meu senhorio convida-me para o acompanhar até à taberna. “Chamo-me Georgios, nunca tinha conhecido um português.” À volta de uma mesa juntam-se homens e rapazes com instrumentos nas mãos, pedem bebidas e brindamos à ilha, à Grécia e a coisas que só eles sabem. Tocam e cantam até ser já muito noite. Antes do fecho alguém me puxa pela mão e fazemos uma roda para dançar.
“Vai-te agora embora e deixa cá a mulher que te trouxe”, diz-me Georgios, “quando quiseres voltar, basta que cantes ou dances à nossa moda, dança até poderes esquecer, até ser já noite.”

De madrugada deixei Cárpatos e não olhei para trás. A meu lado uma menina italiana desenhava peixes e ovelhas e barcos. Perguntei-lhe o que mais gostara da ilha e ela disse-me que tinham sido os bigodes dos gatos e uma velha muito pequenina. Perguntei-lhe como se chamava e ela disse-me que era Sara, e às vezes Giulia, ou Cristina, ou Silvia, ou Martina ou Anna.
Não olhei para trás e tentei adormecer. Não há caminhos para fora de uma ilha, só voltas ao mesmo, ideias circulares rodeadas de azul. Todos os homens deveriam ter uma no meio do mar, onde deixassem os amores que sobram e dias que já não podem ser vividos.
Afinal, que há-de a gente fazer?

Rebético: Género musical grego que teve origem no séc. XIX nas tabernas do Pireus.
Kombolói: Brinquedo popular na Grécia, semelhante a um rosário mas sem fins religiosos.
Raki: Bebida de elevado teor alcoólico e sabor anisado.
Kalimera: Bom-dia, em grego.
Tsampouna: Instrumento musical semelhante à gaita-de-foles.


(Texto publicado na Revista do jornal Expresso a 19 de Janeiro)






23.1.13

Acordar um Dia XLVI


Acordar um dia do outro lado do dia. Ter alguém à minha espera e uma certeza de caminho nos pés.
Alguém que fuja comigo para fora de mim, capaz de roubar-me às tantas voltas que dei sem nunca sair daqui.
Um corpo curto de braços e apertado no peito, uma casa onde moro e onde não mora ninguém. Livros em cima de livros em cima de livros em cima de mim.
Alguém que me faça disto alguma coisa, que traga cheiros e palavras com sangue dentro.
Alguém que empreste só para eu poder pagar, com juros altos e impossíveis, numa dívida em que me enterre até ao Fim. 

5.1.13

Entrelinhas


Esse que por aí anda não sou eu
E se fala, e se posa, e se comenta até
É mais por desleixo do que vontade
Não tenho nada de muito para dizer
Quando me apetece falar, eu escrevo
Quando me apetece posar, eu durmo
Comento os meus sonhos com sonhos
E acordo os dias sem qualquer opinião
Se me virem, façam que não me vêem
Que eu ando por aqui, só entre as linhas
E quando terminar o verso, já eu me fui

29.11.12

Calendária


É difícil ser a gente, não é?
Com esta dor aprumada ao peito
Com tantos pés sem uma dança
E muita terra comidos nos olhos
E muita carne escondida na pele

É difícil isto e amanhã
Um corpo que cai para o futuro
Um desejo maior do que a vontade
E tantas flores que não são beijos
E tantos sonhos que não são dias 

21.11.12

Idade Para Estar Calado


Tão novo e já sem metafísica. E eu que estudei, que resolvi as equações de Maxwell e de Schrödinger, que aprendi até as leis da termodinâmica e da relatividade. E depois nada, só este andar por cá, a dizer e a escrever coisas que às vezes se aproveitam e às muitas outras se vão perdendo.
Tão novo e já tão Esteves. Sem nada para lá de mim, um corpo tão pouco guerreiro entre forças e Deus, e sempre sem umas ou o Outro.
Deixei-me apanhar pelo tempo e pelos homens, foi isso, não foi isso? Agora como e deixo-me comer, certo como um relógio de trazer no bolso. Por onde anda o meu compasso metafísico? Pudesse eu ser um jovem antigo…
Tenho apenas a sorte inteira de haver velhos com ideias velhas. Homens e mulheres (alguns até alemães) que me dizem o que sou, e porque sou, e até como deveria ser.
O melhor é calar-me, ou dizer o que dizem, se pensaram tanto quem sou eu agora? O melhor é estar calado e esperar que passe, afinal não hei-de ser novo por muito mais tempo.

1.11.12

Queda


vai aqui uma qualquer coisa torta
como eu ser assim e tu tão outra
como eu amar, ou pensar que amo
em cada buraco de mim, por cada poro
e o teu sorriso triste de uma descrença
não sirvo, eu sei, não sou um que baste
e vejo-te fugir, de todos os teus olhos
para outros lugares, ou dias, ou homens
e mais que me endireite ou persigne, ou
cante as horas azedas, são noite os teus dias
e olhas, e olhas o espelho do que pareço ser
sem um riso, sem que digas afinal que
o dia é breve e  há outros céus onde voar

7.10.12

Bandeira


A falta que faz uma bandeira do mundo. Um símbolo total que pudéssemos pendurar às avessas e dizer que é como a gente, virada de borco com olhos cravados no chão.
São tantas as ideias que deram as más voltas, parece até errado pensar muito. Quero ser chinês de nós, americano com estrelas ao alto e um deus em cima. Não sei já quem me governa, não sei quase nada nem se aqui estou.
Revisto os bolsos em busca de uma licença de andar por cá, como antes do isqueiro, peço desculpa, senhor agente, eu juro que poderia arder.
Mas não ardo, não sou, não ando. Angolano de uma noite que não acaba nunca, e há quem me fale de um país.
A Europa é morrer lentamente numa ideia, eu sei, eu sei bem o que é. Uma ideia azul como um mar que come a gente. Há mil maneiras de comer um português, e, para quem somos, só isto basta. 

8.9.12

a sede que há-de vir


não fales de nós no presente
não digas que hoje, porque hoje
não é ninguém que aqui esteja
diz-me um passado que saibas
cheio de casos, perguntas e noites
diz-me amanhã o que queres e eu
até esqueça e seja o futuro outro
deitemos uma vontade ao vento
e venha o dia, se um esse dia vier
em que a sede que agora não tenho
se sacie com água que nunca será

20.8.12

Agosto


Ouço os emigrantes que falam entre eles com línguas novas, rostos tão Sul de sons tão Norte.
Ouço os emigrantes que falam em línguas e sinto-me assim, voltado de um lugar que não fica onde.
Digo palavras que são só minhas e que nem eu entendo, são palavras-ponte que já ninguém atravessa.
Só os sotaques e as minis lhes seguram o passado, como a mim o medo e algumas canções antigas. 

18.7.12

Concomitância


Tinha vinte anos em Paris. Estava a meio de uma escala demorada, a caminho de casa, de um país pequeno e de uma vida triste.
Mas isso vem mais tarde, a vida e o futuro mais tarde.
Andou perdido e deslumbrou-se com os edifícios, os jardins, os museus e a gente. Cidade desenhada para o espanto, Paris derrota os olhares.
Ao final do dia entrou num café e pediu uma cerveja. Abriu a mochila de onde tirou um caderno e uma esferográfica, mas não soube escrever nada.  
Recompunha-se ali, pensava um pouco e perguntava os rostos dos outros clientes quando cruzou um par de olhos que também andavam desencontrados.
Fixaram-se durante algum tempo, fugindo para os copos e voltando logo a seguir. Os sorrisos mais fortes que o embaraço e em pouco segundos estavam já à distância de uma mesa de café.
O rumor do sítio e alguns copos de uma cerveja vermelha criaram entre eles uma intimidade precoce. Falaram ao ouvido, ela riu-se do mau francês, e ele de estar ali com ela, loira e estrangeira, um corpo tão pronto.
Saíram para a rua e descobriram a noite inteira. Caminharam, ouviram música, beijaram-se, dançaram e viram espantados como o Verão se apaga nas águas lentas do Sena.
O resto foi silêncio e sonho, até à despedida nebulenta na estação de comboios. Um último abraço e uma promessa tonta. As lágrimas entre ambos sentidas de um amor curto, certeiras de muito doer.
No percurso da sua vida não voltou a ter horas assim. Foi-se deixando pintar lentamente num quadro sem cores, fazendo o que toda a gente faz. Trabalhar, acumular capital, arranjar mulher, filhos, aparelhos domésticos e de transporte, promoções, outras máquinas, algumas amantes mais ou menos remuneradas, ginásio e fins-de-semana à beira-mar. E assim até rebentar, como também se costuma fazer.
Trinta anos passaram. Muitos dias a fingir querença e a adiar vontades, somando cuidadosamente pequenas parcelas de nada. Só os sonhos lhe fugiam por outros caminhos, escalando altos de loucura, caindo em águas fundas. Assim até não poder ser mais.
Os filhos emancipados, uma menopausa precoce com direito a cursos de pintura, e ei-lo que inventa uma viagem de negócios. A Paris, à sua ideia de Paris.
Desceu na estação que o vira partir e acreditou sentir no ar um cheiro íntimo. Passeou o mesmo deslumbre pela cidade condescendente e procurou as pegadas invisíveis de alguém que tinha sido. Um trânsito em espiral até ao centro delongado no café ainda aberto. A mesma mesa, a mesma hora do dia, trinta anos passaram.
Com gestos encadeados pediu a cerveja vermelha, pousou o copo e dirigiu os olhos para uma esperança remota. E foi assim mesmo, com todas as probabilidades em seu desfavor, que viu as suas expectativas reflectidas no espelho da parede longínqua. Era ele que se olhava a si que se olhava.
Duas, três, quatro cervejas, e ela não apareceu. Não se interrompeu o caminho óptico de um desejo triste que observava o passado.
Paris morrera, e nada mais aconteceu.

Conto publicado na revista "A Sul de Nenhum Norte" que pode ser descarregada aqui: http://www.mediafire.com/?5xc6kcfznolwilc

17.7.12

Acordar um Dia XLV

Acordar um dia com os anos todos em cima. Ter feito muitas coisas e nenhuma razão forte para nada. Os dias fizeram-se assim, como na canção.

O mês passado morreu uma rapariga que escrevia e que agora já não escreve. Continuo a lê-la à espera que acorde, há-de acordar, como um carro se empurra para que pegue.

Acorda, estou a ouvir-te ainda, acorda por favor.




14.7.12

Credo


As palavras têm dono
São sempre de alguém
Ou da falta de alguém
E os versos também são
Saem de dentro da gente
Vindos de fora da gente
E têm nome e um rosto
E lêem-se como um álbum
De fotos que custa abrir
Mas não sabemos fechar
E são o caminho tosco
Do que pensávamos ser
Para o que agora somos
Ou acreditamos ser
Ou já não acreditamos

8.7.12

Rodoviária


como estrada nacional passando por ti
um voto ao tempo, coisa muito de vagar
mil curvas de entender-te caminho
e o andar lento de quem só quer parar
somo absurdos nos olhos espantados:
armazéns, néones, louças e moradias  
és tanto que eu não entendo, cachopa
mas nunca é longe eu estar aqui

10.5.12


queria as palavras certas de um contrário
o teu nome muitas mil vezes, ou beijos, ou
domingo de todas as minhas certas horas
tão perdido ando de agora ter caminho
para o centro exacto de nós, para dentro
de um desejo que não chega, que anda aqui
ao nosso lado viajam as cores vermelhas
uma música coral de dias já esquecidos
e olhos que bebem mãos e pele e risos
afinal esperei por tanto o que corri
afinal cheguei ao muito fundo de ti

29.4.12

Um Velho


O velho acordava com o sol, levantava-se, e ia até à janela somar pássaros; depois lavava-se, vestia-se, comia uma laranja e descia à rua com um número na cabeça.
O velho caminhava lento até à praça dos autocarros e procurava o número que trazia. Entrava no autocarro correspondente e escolhia um lugar ao fundo, de onde pudesse olhar e passar despercebido.
As pessoas entravam, liam o jornal ou conversavam e depois tocavam a campainha e saíam num lugar. Tantos lugares, pensava o velho, e imaginava o que fariam ali, torcendo as mãos nos gestos de escrever, martelar ou apertar parafusos.
A meio da manhã o autocarro chegava vazio à paragem terminal. Ele descia e ficava alguns instantes a olhar em volta. Por vezes chegava a subúrbios de prédios altos e cinzentos, outras a pequenas aldeias que resistiam a ser cidade.
O velho começava então a andar até encontrar um jardim, ou uma taberna, ou um centro de saúde onde estivessem outros velhos como ele. Mas diferentes dele.
Sentava-se a seu lado e dava os bons dias. Trocavam nomes, um aperto de mão, e em pouco tempo começavam a contar histórias da vida. Ele contava a sua e depois ouvia-os com atenção, anotando na cabeça os pormenores todos: as datas, os nomes dos filhos, dos netos e das ex-mulheres. Todos os velhos tinham histórias cheias de gente e de pormenores.
À tarde voltava para a casa vazia. Uma vida de tantos anos e as paredes sem fotos, e a memória branca, e nem cartas ou prendas.
Então o velho sentava-se à secretária e escrevia num caderno as histórias que escutara. Tudo muito devagar, decorando com cuidado as palavras exactas para o dia seguinte. 

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)

26.4.12

Soma


A minha, o meu, e eu sem nenhum.
Sou apenas eu, e tão pouco às vezes.
O meu já anda, o meu aprendeu a falar.
O eu já dói e geme um pouco ao baixar.
Uma vida limpa, sem restos nem filhos,
ou amores a sério, ou obra que se veja.
Não estraguei nada e deixo o que achei:
um pedaço de ser quase por estrear.
Talvez um dia morra como quem desnasce,
as dores e os prazeres somados em nada
até à última casa decimal de porra nenhuma.
Terei aprendido às minhas grandes custas
A arte perfeita de apenas fazer horas.

 
Add to Technorati Favorites Free counter and web stats