8.6.09

O Marcelo (Duodécima Parte)

Chegou a noite do primeiro embate. O jogo, o campo de batalha tantas vezes antecipado em delírios heróicos e vontades épicas. A hora era a hora. Saímos de casa calados um para o outro. As vestes sóbrias mas afirmativas, os modos duros e decididos. Eu era um miúdo em dia de faz-de-conta, mas não o disse, nem a mim nem ao Marcelo.

Fomos de Táxi até um bairro que quase poderia ser sério, mas não era. Tocámos à campainha e sai de lá uma voz que pergunta um monossílabo, eu respondi, “Boa noite para quem for”, a porta abriu-se. Subimos as escadas iluminadas por uma luz esforçada e antes de entrar trocámos olhares confiantes, aqui vai disto.

A sala tinha as dimensões exactas e a mesa ao fundo guardava uma cadeira vazia. Um braço esticado indicou-me o meu posto, algumas vozes rosnadas deram as boas noites e um homem grande explicou as regras do jogo. Todos conheciam as regras. O dinheiro foi trocado por fichas e acenderam-se os primeiros cigarros. Eu esperava charutos, mas foram cigarros.

Éramos cinco, não contando com o homem grande que ali fazia apenas de homem grande. Começando pela esquerda e no sentido dos ponteiros do relógio: Um senhor de uma certa idade, que era a da velhice, com muitas rugas na cara e olhos que tinham passado muitas taprobanas, os gestos calmos, os olhos não. Depois um tipo mestiço, feito de raças que nunca se deveriam ter cruzado, um riso que prefiro não lembrar. O seguinte era do género convencional, saído de um banco ou de uma repartição com a gravata lassa e a camisa suja no colarinho. Finalmente, uma mulher, dessas que podem ser qualquer coisa e cujo corpo comporta enormes vantagens estratégicas. Era loura, ou morena.

Uma ronda de olhares, alguns dedos estalados e estavam reunidas todas as condições, a partida ia começar.

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