26.3.15

Do Lado De Aqui



Todos os desastres são úteis
Todos os homens também
Os mortos são belas ferramentas
de abrir, e de pensar, e de medo
Se olharmos muito para os olhos
Se a pele fria por algum tempo
Sem chorar, sem mágoa, só ver
Há coisas ardentes que se entendem
Que a dor é apenas uma idade
Certa como dedos ou tremer
Que tudo afinal é só por dentro
Que o outro lado é mais aqui

28.2.15

Instância



Não deixes que te enfie num poema.
Ouviste? Apaga o PC, parte-me os dedos
ou outros órgãos internos, mas não deixes,
não aceites versos ou merdinhas literárias.
Ri-te de mim e de todas as palavras longas,
bate-me quando eu disser Crepúsculo,
Imensidões, Miríades, Compassivamente.
Três sílabas chegam bem para o que somos,
Gaivotas, Beijinhos, Torradas e Cinema.
Faz de conta às vezes, mas não me ligues,
festinha-me o pêlo e diz que sim, que sim.
“Tem graça, são lá coisas em que pensas.”
Não deixes que te enfie num poema. 
 

4.1.15

Intendência




Pode o tempo comer-nos a pele,
algumas ideias, como eram as ideias?
Tantas tão coisas dobradas na mão
e nós nunca fomos muito crianças,
(és mais agora, és mais agora).
Pode o tempo cair-nos amanhã,
e vai doer tudo o que é para doer.
Tens cigarros, tens paciência?
Chegámos ao outro lado disto,
tu cantando, e eu nem assim.
Pode o tempo morder-nos os dias,
ajuda-me a dançar, empurra, pisa,
abana, manda, guia, leva-nos de mim.
Não há memória para o que nós somos,
e é sempre cedo tu estares aqui.

 
Add to Technorati Favorites Free counter and web stats