27.1.10

Acordar um Dia XXXIX

Acordar um dia confioso, tranquilo e sereno com duas pernas paralelas.

Sair de casa e notar que todos os homens se tinham transformado em papa-formigas.

Depois aconteceu o que sempre acontece nessas circunstâncias.


26.1.10

Exúvia II

Os Meus Óculos Sujos

Um dia enquanto pensava deu-me medo,

fui e sou uma criança tardia, daí o medo

de pensar que tudo o que eu bem sei

é tantas vezes meu e mal pensado.

Quando se vive em ciência certa,

por dentro, por prática, ciência de ganhar pão,

autoriza-se a cabeça a ter convicções,

a cabeça, logo a cabeça.

São coisas pequenas e fundamentais

derrotas tortas de andar à vida

a carregar sal nos olhos e a esquecer

alguns gestos simples e asseados.

25.1.10

Exúvia I

Chão

Ando nisto de rir algum tempo

começou com aquela distância parva

que inventámos por crueldade,

foi coisa de crueldade não foi?

Ao início era o som dos pés

que te levavam e eu ria,

os pés a ir contigo em cima

como um barco e tu nele.

Quando alguma porta se fechou

(nós nunca soubemos de portas)

eu ri também, de louco ri-me.

Foi num segundo desses que o chão

olhou para mim e eu fui incapaz

de me lembrar onde é que tu pisavas.

21.1.10

"A Recusa" de Franz Kafka

Aqui fica mudado para português, um outro modo de dizer "traduzido de forma livre e incompetente", um pequeno conto de Kafka encontrado em italiano numa edição da Mondadori.

A Recusa

Quando vejo uma rapariga bonita e lhe pergunto: “Ó jeitosa, queres vir dar uma volta?” e ela passa por mim em silêncio, é essa uma sua maneira de dizer:

Tu não és um duque de nome sonante, nem um americano encorpado com a envergadura de um índio, de olhos fixos no horizonte, de pele marcada pelo ar da pradaria e pelos rios que a atravessam; não viajaste pelos grandes lagos que ficam sei eu onde. Porque deveria eu, uma rapariga bonita, dar uma volta contigo? ”

Tu esqueces-te que não passas por mim de automóvel, oscilando levemente agitada pelos caminhos, nem eu vejo senhores que te sigam direitos nas suas librés, os quais, abençoando-te, caminhem em semicírculo na tua retaguarda. Os teus seios estão bem arrumados no teu corpete, mas as pernas e as ancas ressentem-se de tais contingências; levas um vestido de tafetá pregado, um vestido que era a nossa alegria do Outono que passou, e apesar de tudo tu sorris de vez em quando – carregando esse perigo mortal no teu corpo. “

" Sim, ambos temos razão, e para que de tal não nos apercebamos de modo irrevogável, será melhor, não achas, que cada um vá sozinho para sua casa. "

Franz Kafka

19.1.10

Acordar um Dia XXXVIII

Acordar um dia genuinamente bem disposto. Hoje uma boa percentagem das raparigas está mais bonita do que ontem, entre 10 e 20 por cento. De outras que nada se diga por segredos ou pirraça.

Hoje o sol deixou de ser uma entidade altamente especulativa e ao abrir do estore esperava já colado à janela com cara de garoto.

O homem da portagem assobiava e ria numa impossibilidade de dias normais. Ah essa gente das portagens.

Dias assim há-os às dúzias por todo o lado, mas quem tem tempo, quem se pode permitir o luxo dos dias bons?

14.1.10

Pela Rua um Homem

Um homem vai pela rua vai. Que se chame Pedro e trabalhe no comércio, numa pequena loja de cosméticos. Digamos que sim. Caminha pela rua e quer voltar a casa, são horas de voltar. Enquanto caminha recorda-se de uma cliente que atendeu nessa tarde. Uma cliente jovem e bonita que procurava uma cor de batom e não a sabia definir. Ela, a cliente, acreditava na necessidade absoluta dessa cor, mas não lhe sabia o nome. Pedro ficou a pensar nisso e depois pensou nos seus próprios absolutos para os quais lhe faltavam as palavras.

Ao passar pela porta aberta de uma casa velha, Pedro uma senhora de gatas que esfrega o chão, uma senhora a quem se pode chamar Conceição. A senhora Conceição faz assim, limpezas e arrumações. Trata do terceiro esquerdo, do terceiro direito e do segundo esquerdo. Mais as escadas e o hall de entrada. A manhã tinha sido do terceiro direito, casa dos Gouveia. Ele é advogado, ela a senhora Gouveia. Na noite anterior fez-se um jantar na casa dos Gouveia e hoje havia louça suja. Enquanto a senhora Conceição lavava a louça escorregaram-lhe as mãos e um prato. O prato caiu e fez-se em muitos pedaços de prato. A senhora Gouveia acorreu à cozinha e ficou a ver, depois começou a chorar muito. Desculpas e justificações não lhe estancaram o choro, talvez não fosse um pranto de prato, talvez fosse outra coisa qualquer.

Um choro de nervos, isso. A senhora Gouveia, um dia menina Sara, dizia a si própria que era assunto de nervos. Um prato partido não é morte de gente. Não. Quem se teria servido dele? Talvez o professor Antunes, amigo velho do seu marido, ou o Dr. Cândido, sócio da firma. Talvez tivesse sido a sua mulher, a quem a senhora Gouveia apanhara a meio do jantar a fazer olhinhos ao seu marido, o senhor Gouveia. Seja como for são certamente coisas de nervos, não é morte de gente.

O doutor Cândido está sozinho no escritório sentado à secretária. todos saíram e ele um livro sentado. O livro, escrito numa língua estrangeira, fala de coisas banais e é também banal o estilo com que foi escrito. Se alguém perguntasse ao doutor Cândido porque esse livro ele não saberia responder. O doutor Cândido está sozinho e de pouco vale entrar em fantasias.

28.12.09

Acordar um dia XXXVII

Acordar um dia todo novo, o sol também e o mundo. As pessoas não sabem nada e por isso comem e passeiam pelos centros comerciais como se hoje e ontem fossem palavras de subtrair. Não são.

Se alguém me perguntar eu digo coisas de rir e de ser feliz dentro. É dia de dançar nu com deuses amigos. De resto vai tudo como vai, que ninguém se sobressalte.

11.12.09

Pode-se muito bem enlouquecer por as coisas serem como são,

foi o que aconteceu visto daqui agora. A vida e está.

Nãomais frio que arrepie, nãomais nada que doa.

Um louco faz o que pode e vai andando por como

os outros andam, a rir, a comprar a lotaria e a fazer

festas aos meninos que são bonitos, tão bonitos os meninos.

A loucura deve ser muito triste vista de fora.

Um homem vazio enche-se de coisas doidas às voltas

e não há rezas que valham um insorcismo.

Diabos velhos espreitam os corpos desabitados,

é assim que o mal acontece, assim elas mordem.

Uma mulher que gostava de amar furou um homem,

foi por ali à vida dela, pediu silêncio e compreensão.

A vida é engraçada e toda cheia de variedades.

O pior é o inverno e o resto, o resto é que é o diabo.

28.11.09

Todo cheio de espinhas

Todo cheio de espinhas

o corpo e o resto, a vida e tal.

Todo a arder sem beijos nem gente.

Aqui dentro vive-se mal

e lembra-se muito outro tempo.

A noite pode ser uma amiga nua,

uma amiga nua também.

Alguém me segure este nada

que eu volto num instante dos meus.

Se alguma coisa me chamar

eu vou e fico lá, a viver

para o boneco e a fazer assim.

Quem me agarra, cara linda?

9.11.09

Acordar um Dia XXXVI

"quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já
sabemos de cor"

Acordar um dia com o inferno dentro da gente, virar-se para o lado e abrir os olhos e abrir a boca.

Anda menina, vem ver o inferno a arder”.

Ao lado não dorme ninguém que saiba rir do apocalipse, fica tudo suspenso.

Viver é andar todos os dias à caça de gente e a fugir da dor.

Anda menina, anda ver o que por aqui vai”.

Por dentro está tudo feito em carvão, nãonada que sirva.

Ando há muito tempo amigado com o diabo. Vai de retro Satanás, um dois, dois passinho para o lado, três quatro, uma volta pela esquerda, palminhas mãos ao ar.

“A dor dança-se assim, menina”.

3.11.09

Nota Pessoal

Estamos em Novembro de 2009 e a vida é muito fraca às vezes.

Partiram o muro de Berlim, inventaram a Internet, foi descodificado o genoma humano e aos domingos de manhã eu acordo com uma tristeza inaudita.

Nem a construção europeia me sabe curar as ânsias. Se eu tivesse tido uma infância com ditadura seria tudo mais fácil, assim é só isto, paz, pão, democracia e a porra dos domingos de manhã.

1.11.09

Rua Escura I



cães escuros a lamber os cantos da cidade,

línguas ásperas feitas às pedras e ao resto.

Manda os olhos e o medo por onde os pés não vão,

vidas por todo o lado.

abrigos órfãos de luz

onde a solidão se come às mãos cheias

e se canta baixinho para não acordar os vivos.

fomes que se matam escondidas.

As vozes e o querer dobram esquinas, a luz não.

De dia é fácil ser homem por entre os homens,

o dia é avenida do tempo, rua direita.

À noite o corpo tem pés ligeiros e surdos

e o tempo faz-se de muitas horas compridas.


(Ilustração de Marco Mendes)

27.10.09

Cosmogonia

Num tempo antigo o mundo era todo feito de noite. A Terra era uma pedra escura parada e morta num lugar que ainda não existia.

Nesse escuro sem fim o tempo durava muito tempo e os deuses jogavam à apanhada porque havia pouco mais que fazer.

Flávia era uma deusa e às vezes pegava na lua e corria pelo mundo alumiada pela sua luz frágil. Flávia gostava de saltar e de rir sozinha porque atrás dela vinha sempre Damião, também ele um deus que pendurava o sol na ponta de um pau e se apaixonava por Flávia porque pouco mais havia que fazer.

Uma dessas vezes em que Flávia corria, a lua estava nova e ela tropeçou na terra e caiu. Flávia rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os mares, as plantas, as mulheres e o invisível.

O deus Damião assustou-se ao deixar de ver Flávia e atirou o sol para a frente, o mais longe que pôde numa vontade grande de a encontrar. A luz fugiu-lhe e também ele tropeçou na terra e caiu. Damião rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os rios, os animais, os homens e os poetas.

Flávia e Damião foram os pais da terra e de tudo o que é. Flávia continua ainda hoje a fugir e Damião a correr atrás dela. É por isso que o sol vai sempre atrás da lua, que os rios procuram o mar, os animais as plantas e os homens as mulheres. É também por isso que os poetas não sabem da felicidade.

22.10.09

O Coração à Frente

A vida, a morte, mais os amores e o que nos parta.

A gente na rua, a gente em casa, a gente que somos.

O coração à frente, como numa pega ou um primeiro amor.

Com o depois a vir depois, frio e morto visto daqui.

O último a mergulhar é uma coisa velha.

O mar não nos mata porque sabemos morder,

sabemos rir e sonhar o que o mar não sabe.

A dor vem amanhã ou depois, vem sempre,

vem porque tem de vir, sente-se nos pés

quando o salto é grande. No fundo do peito às vezes.

A dor é uma voz do corpo de quem salta.

O coração à frente, como quem canta.

O bem que nos chega é sempre pouco

para o mal que nos espera.

Vamos hoje fazer tudo o que nos falta,

música, amor, dádivas e tempos felizes.

Somos ainda tudo o que podemos ser,

somos ainda tantos, como os vivos.

Alguém que berre e partimos,

o último a mergulhar é uma coisa velha.

18.10.09

Acordar um dia XXXV

Acordar um dia que é domingo por todos os lados.

Nestes dias as casas vingam-se, as paredes tomam liberdades inusitadas.

Aos domingos, certos domingos, são as casas que nos habitam.

Alguns homens vão à missa, ondeCristo e cantigas mas não há salvação.

O domingo é um bom dia para se ser cão ou criança, a esses nãoquem os engane.

15.10.09

La Nave Va

Nunca se perde tudo, não é? Nunca se tem tudo não é?

Guarda, guarda quanto sto bene... adesso senza un braccio, senza cuore, senza un perché, cosi leggero, leggero...

O silêncio é grande calado em muitas línguas, parece escolha, um modo de não ser nada em lado nenhum.

La vita è sempre da un’altra parte, dopo l’angolo, dopo domani, dopo di me.

Nada de tragédias moço, não é assim que as coisas são? Os cacos são mais resistentes do que o prato, os santos que ajudam, a entropia aos pinotes.

Um homem sai à rua com uma manga vazia e há quem tenha pena do maneta, assim tão novo, assim coitado. Ninguém se lembra de chorar o braço que ficou em casa em manguitos sem fim. O pior de tudo é ainda aquela comichão no sovaco.

La nave va, venite, venite che partiamo verso un giorno migliore.

De toute façon, d’ici on peut bien imaginer la mer.

11.10.09

Cadernos de Perda II

palavras que se perdem por uma palha. Por erros, por esquecimento, por culpa dos dias. Ninguém perde uma perna que não conta, as palavras sim. A alguns sítios não se chega sem pernas nem certas palavras, mas nós sabemos rir e coxear vidas curtas cheias de cansaço.

lugares vazios onde as palavras correm à solta e gente sonha em agarrar gente. Nada é fundamental, nada é prescindível, sobretudo a certas horas. Levante o braço quem nunca acordou embrulhado em muito amor. Esse amor da manhã não é à prova de água, sai do corpo com sabão e fica às voltas muito tempo numa espuma branca que não é nossa.

As palavras também se perdem escritas, gritadas, gemidas, choradas, caladas em frente a uma pergunta. Levante o braço quem... pois. A um amigo como eu tiraram-lhe das tripas um quisto de meio quilo, mas ele sabia que era uma palavra posta ali com vergonha. O meu amigo diz agora que o silêncio é um ramo do fazer mal. Eu apalpo o ventre e vou dizendo que sim.

8.10.09

Πηνελόπη

Uma janela sempre aberta ao som do vento. O vento sabe empurrar o tempo, trazer o tempo para perto, onde ele é mais preciso.

O ar soprado toca o corpo sem pudor, sem perguntas. Dedos de um deus distante que um dia inventou arder.

Neste quarto antigo nãodias depois dos dias, nem tempo há neste lugar. Este quarto não é um sítio, choro e dor sem corpo.

Um grito a favor do vento chega onde quer chegar, vento também, sopro de dentro para fora.

À noite os corpos feridos não precisam de boca para falar.

6.10.09

Procura-se III


Coisas que se procuram:

- Sonhos todos novos, por estrear.

- Uma memória com um botão "Apagar" e outro "Escrever por cima".

- Gente como a gente.

- Algum tempo para tratar de assuntos.

- Aquela música que um dia me mostraram e eu já esqueci a letra e a melodia e a cor dos olhos dela.

- Os dias em que os discos tinham um lado B.

Pede-se o favor de responder com um aceno discreto à entrada ou à saída de qualquer coisa.



5.10.09

Cadernos de Perda

O deixado cai num poço que lhe pertence, um poço com nome.
Quem deixou fica lá longe à tona, à altura do mundo.
O deixado faz-se ridículo, esbraceja e grita como um boneco.
No olhar estrangeiro de quem deixou não há luz nem há já nada.

A pena é também distância, como a dor e duas pessoas.

4.10.09

Acordar um Dia XXXIV

Acordar um dia sem ter dormido.

De manhã a vida que tenho não me serve para nada, pelo menos hoje, pelo menos para mim.


2.10.09

Niña en Forma de Recta

La verdad es que ya no era una niña. O mejor, sí, era una niña. Había permanecido así cuando todos los demás habían olvidado lo que eran. Acaso alguien haya dicho "Ella es como es”, y tenía razón.

En cuanto aprendió a mirar decidió hacerlo tan sólo en una dirección, al frente. Todo lo demás era intuido, imaginado, conocido sin necesidad de verlo con sus ojos de mirar al frente. El afuera, el otro, lo diverso, eran para ella un mundo probable y rumoroso hecho de cosas y personas extranjeras, habitantes fantasmas de una realidad que no era la suya. Su mundo estaba allí, ante los ojos claros, sus ojos ceñudos, enfocados en una distancia que no se ve sólo con mirar.

Para la niña todo era simple y recto, lineal. Una variable de partida, otra de llegada y un pendiente personal; no existía nada más. Los que cruzaban su carretera eran para ella pequeños puntos, la intersección de una curva (la curva de una vida hecha de caprichos) y su recta. Los ríos no avanzan rectilíneos porque están condicionados por montes y valles que no saben ignorar, pero la niña cavaba los montes y construía puentes en los valles que no veía, que para ella no existían.

La distancia más corta entre dos puntos es un enorme anhelo. Un anhelo sin distracciones, un anhelo que no baila, que canta siempre la misma música de los días. El resto es espuma y tiempo perdido, un mar parado que se agita sin razones. Le gustaba a la niña la tierra firme donde los pies no resbalan, donde el pasado queda atrás, marcado por las huellas.

El amor le sucedió dos veces a la niña, dos amores fugaces, amores de trazado(1). La primera vez que se enamoró fue de otra recta que condescendió en serle paralela, un amor a una distancia pequeña, pero no desdeñoso. La distancia entre dos manos que casi se tocan, día tras día, casi, siempre casi. La otra vez no le llamó amor, nadie lo hizo, fue un acontecimiento que no aconteció. Una sinusoidal la cruzó diversas veces hasta que se volvió anharmónica, dejando tras de si el trazado de un accidente.

La niña sigue la carretera que debe seguir y no llora y no canta. Quien mira al frente no tiene tiempo para pensar mucho. Una variable de partida y otra de llegada, un trazo recto, casi continuo, casi. Los puntos blancos no le pertenecen, son espacios y tiempos de otros que tal vez un día quieran rellenar. Los anhelos de los otros son anhelos de otros.


Uma bela tradução de Silvia Capón que também é culpada de escrever e o faz muitíssimo bem (textos aqui e aqui).

Para ela um obrigado e um abraço.

29.9.09

Coisas da Rua



Parar o próprio movimento e ficar ali, debaixo de uma velha canção dos Smiths que vem mais da memória do que do rádio. Sujeitar-se ao que de pior pode acontecer a certas horas em que a chuva não nos entende.

Quando o verde chegar pode ser já demasiado tarde.


(Ilustração de Marco Mendes, Now also in English)

27.9.09

Uma Fábula Eleitoral

Era uma vez, antes ou depois de agora, uma terra onde as pessoas viviam. Era uma terra abençoada por Deus e por outros, cheia de tudo o que se quer para viver e onde os dias seguiam tranquilos ao som de música e palavras doces. Nessa terra que se perdeu, os políticos eram homens notáveis e amados pelas populações. As sucessivas gerações de estadistas foram aprimorando os caracteres e assim se criou uma elite virtuosa capaz de satisfazer as necessidades e os desejos dos eleitores.

As pessoas perceberam então que com uma tal classe dirigente não fazia sentido que fosse o povo a escolher os políticos, deveriam ser estes a decidir que gente representar. Assim começaram as campanhas, os diferentes povos mimavam os políticos, faziam-lhes promessas, beijavam-lhes os filhos e davam-lhes presentes. Todos tentavam convencer os grandes líderes, aliciando-os para que os escolhessem a eles como súbditos. Nenhum povo olhava a meios para ganhar os favores de um dos iluminados.

Este sistema durou algum tempo e segundo alguns estudiosos foi a causa do declínio dessa terra. Nos registos de época encontram-se artigos e crónicas em que os líderes, embora louvando os méritos de um tal sistema democrático, explicavam que o problema não era das eleições, mas sim dos povos que eram sempre os mesmos.

22.9.09

Procura-se II

Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.

19.9.09

Menina em Forma de Recta / Bambina in Forma di Retta

Menina em Forma de Recta

A verdade é que não era uma menina. Ou melhor, sim, era uma menina. Tinha permanecido assim quando todos os outros se haviam esquecido do que eram. Alguém terá ditoEla é como é” e tinha razão.

Assim que aprendeu a olhar decidiu fazê-lo apenas numa direcção, em frente. Tudo o resto era intuído, imaginado, conhecia-o sem precisar de o ver com os seus olhos de olhar em frente. O fora, o outro, o diverso, eram para ela um mundo provável e rumoroso feito de coisas e pessoas estrangeiras, habitantes fantasmas de uma realidade que não era a sua. O seu mundo estava ali, em frente aos olhos claros, os seus olhos franzidos, focados numa distância que não se com um olhar.

Para a menina tudo era simples e recto, linear. Uma variável de partida, outra de chegada e um declive pessoal, não existia mais nada. Os que cruzavam a sua estrada eram para ela pequenos pontos, a intersecção de uma curva (a curva de uma vida feita de caprichos) e a sua recta. Os rios não seguem a direito porque estão condicionados por montes e vales que não sabem ignorar, mas a menina furava os montes e fazia pontes nos vales que não via, que para ela não existiam.

A distância mais curta entre dois pontos é uma enorme vontade. Uma vontade sem distracções, uma vontade que não dança, que canta sempre a mesma música dos dias. O resto é espuma e tempo perdido, um mar parado que se agita sem razões. A menina gostava da terra firme onde os pés não escorregam, onde o passado fica para trás, marcado pelas pegadas.

O amor aconteceu duas vezes à menina, dois amores fugazes, amores de percurso. A primeira vez que se apaixonou foi por uma outra recta que condescendeu em ser-lhe paralela, um amor a uma distância pequena, mas não despiciente. A distância entre duas mãos que quase se tocam, dia após dia, quase, sempre quase. Da outra vez ela não o chamou amor, ninguém o chamou, foi um acontecimento que não aconteceu. Uma sinusoidal cruzou-a diversas vezes até que se tornou anarmónica, deixando atrás de si o traçado de um acidente.

A menina segue a estrada que deve seguir e não chora e não canta. Quem olha em frente não tem tempo para pensar muito. Uma variável de partida e outra de chegada, um traço direito, quase contínuo, quase. Os pontos brancos não lhe pertencem, são espaços e tempos de outros que um dia talvez os queiram preencher. As vontades dos outros são vontades de outros.


Bambina in Forma di Retta

La verità è che non era più una vera bambina. O meglio, sì, era una vera bambina. Era rimasta così quando tutti gli altri non sapevano più cosa fossero. Qualcuno avrà detto “lei è cosi com’è” e ha detto bene.

Dal momento in cui imparò a guardare, decise di farlo soltanto in una direzione, avanti. Tutto il resto lo intuiva, lo immaginava, lo conosceva senza doverlo vedere con i suoi occhi fatti per guardare in avanti. Il fuori, l’altro, il diverso erano per lei un probabile e rumoroso mondo fatto di cose e persone straniere, abitanti fantasmi di un mondo oltre, un mondo che non era il suo. Il suo mondo rimaneva li, davanti ai suoi occhi chiari, i suoi occhi stretti, focalizzati al di là di quanto si possa vedere con uno sguardo.

Per la bambina tutto era semplice e retto, lineare. Una variabile di partenza, un’altra di arrivo e una sua pendenza personale; non c’era nient’altro. Quelli che incrociavano la sua strada erano per lei piccoli punti, le intersezione tra una curva (la curva di una vita fatta di capricci) e la sua retta. I fiumi non vanno dritti perché sono costretti da monti e valli che non sanno ignorare, ma la bambina rompeva i monti e costruiva ponti sulle valli che non vedeva, che non erano per lei.

La distanza più corta tra due punti è una voglia immensa. Una voglia senza distrazione, una voglia che non balla, che canta sempre la stessa musica dei giorni. Il resto è schiuma e tempo perso, un mare fermo che si agita senza perché. Alla bambina piaceva la terra ferma dove i piedi non scivolano, dove il passato rimane dietro, segnato dalle impronte.

Per due volte l’amore accadde alla bambina, due amori veloci, amori di percorso. La prima volta che si innamorò fu per un’altra retta che acconsentì di esserle parallela, un amore a una distanza piccola, ma non trascurabile. La distanza tra due mani che quasi si toccano, giorno dopo giorno, quasi, sempre quasi.

L’altra volta lei non lo chiamò amore, nessuno lo chiamò, fu un avvenimento che non avvenne. Una sinusoide la intersecò diverse volte finché diventò anarmonica, lasciandosi dietro il tratteggio tipico di un incidente.

La bambina segue la strada che deve seguire e non piange e non canta. Chi guarda avanti non ha tempo per pensare troppo. Una variabile di partenza e un’altra di arrivo, una traccia dritta quasi continua, quasi. I punti bianchi non le appartengono, sono spazi e tempi di altri che un giorno potranno anche riempirli. La voglia degli altri è una voglia di altri.

14.9.09

Acordar um Dia XXXIII

Acordar um dia com uma erecção e nenhum desejo. Uma erecção inútil e vazia que se desfaz em lágrimas e em mais nada.

10.9.09

Procura-se

Pessoa de poucas falas e escassa presença.
Pessoa capaz de ser invocada por via de pouco: um reflexo azul, um cheiro a incenso, umas calças caídas no chão do quarto.
Pede-se o favor de responder com um nome e nada mais que um nome.

7.9.09

Mariana (Quarta e Última Parte)

A partir desse momento tudo mudou. Essa consciência do inevitável, da punição infalível, mudou a perspectiva e amainou exaltações. Estávamos juntos, para o melhor e para o pior, na vida (minha) e na morte (sua). Ela era como era e eu também assim, restava-nos baixar as cabeças e puxar o jugo. Talvez aprendêssemos a assobiar baixinho e a chorar como quem respira, sem pensar no gesto nem saber porquês.

Os tempos que se seguiram fizeram-se de compromissos. A voz da Mariana continuou estridente, mas tornou-se contida, quase serena. Começou também a cuidar a linguagem, evitando certas palavras e usando outras que me vai ouvindo. Deixou os lamentos e os protestos e passou a falar de coisas que sente, de memórias de infância e da aldeia que deixou um dia.

Por vezes dá-me conselhos e diz-me que está tudo bem, outras vezes fica ali calada a sorrir porque me pesa os cansaços. Em troca eu tento enriquecer-lhe os sonhos. Leio histórias românticas que são do seu agrado e sigo a telenovela das nove. Comecei também a perguntar aos meus colegas coisas da vida deles, dos filhos, das mulheres e os filmes que têm visto, ah, os filmes. Vamos ao cinema duas vezes por semana, ao início era um filme para mim (sem beijos) e outro para ela (sem complicações), ultimamente começa a ser difícil distinguir.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Depois foi o que se viu. Acabámos por nos tornar numa espécie de casal quase vulgar e quase feliz. Como tantos, não todos. Talvez gostemos mesmo um do outro, talvez tenhamos descoberto um tesão impossível e assim inesgotável. Talvez sejamos uma simbiose necessária de vida e morte, dia e noite, ser e não ser.

Se eu já pensei? Já. Um frasquinho de comprimidos às cores e a janela aberta para o gato procurar outra casa. Partiríamos os dois para mundos que não conhecemos. Pensei nisso várias vezes, mas tenho dúvidas. Desconfio do além e não me quero pôr nas mãos de Um Qualquer. E depois quem me garante que eu a encontro, que ela existe fora de mim? Que outro mundo me poderia servir se eu nunca cheguei a perceber este, assim finito e cheio de homens? Enquanto penso nisto o gato olha para mim. Ele que também sabe coisas.

5.9.09

Mariana (Terceira Parte)

Que diz um homem às cinco da manhã deitado na cama receando adormecer? Um homem que treme com medo de uma ex-prostituta ex-viva sem papas na língua e com deficiências gramaticais?

Um homem faz perguntas, perguntas que são só uma: Porquê a mim? De todos os clientes da Mariana Marlene, por que fora eu o escolhido para cumprir a punição? Que poderia justificar uma tal arbitrariedade?

Sempre fui um homem discreto, incapaz de incomodar Deus com ofensas ou rogos, e Ele respondera da mesma forma, sem nenhum milagre ou praga a assinalar, mas agora isto... Perguntei bem alto uma e outra vez, porquê eu? Não me dirigia ao Altíssimo mas sim à Mariana, se me ouvia em sonhos talvez se dignasse a responder numa próxima oportunidade. Por essa altura eu estava certo que haveria outras oportunidades.

A resposta chegou à tarde, durante uma sesta no gabinete. Incapaz de aguentar o corpo entreguei-o por breves instantes ao cadeirão em pele. Foi quanto bastou. “É que o Mário não sabe... posso chamar-lhe só Mário? Mesmo que não pudesse, eu chamo-lhe o que quiser e mais nada, olarilas. O que o Mário não sabe e nem adivinha é que foi o meu primeiro cliente, ah pois foi, o primeirinho... eu tinha vindo da aldeia, e nem sabia ao que vinha, foi o senhor Antunes é que tratou de tudo... um sabidão, um safardolas que conhecia mais desta vida do que o padre da missa, olarilas. Eu acabadinha de chegar da aldeia e ele a dar-me as roupitas de andar na vida. Tens de ir ver um senhor, fazes assim e assado e boca calada que ninguém te paga para andares a tocar corneta, ouviste minha linda? E eu lá fui e assim foi. O meu primeiro cliente... e olhe, antes o senhor que outro, que depois de si foram muitos e quase todos piores e mais porcos. Ao menos o senhor era de respeito, não sei se é da picha curta ou quê, mas pelo menos era de respeito...”

Fiquei esclarecido. Fiquei também desesperado e mortificado, mas esclarecido. Um gesto de fraqueza irreflectido, um número de telefone marcado e eis-me com a existência entrelaçada a uma mulher que eu tinha descartado juntamente com o tesão. São sempre os tesões a tramar as vidas dos homens. Uma pessoa estuda e trabalha e acredita em ideias e afinal a vida vai guiada por um pedaço de carne que não conhece a razão nem vontades que não são as suas.

(Continua)

4.9.09

Mariana (Segunda Parte)

Mesmo os sonhos mais acerbos acabam por ceder à realidade, ao sol, aos sons da manhã que entram desfocados pelos estores. Sim, é bem verdade. Não é verdade?

O duche lavou-me o suor fermentado no corpo e o café fez o mesmo a outros fermentos. Vesti-me rapidamente e entrei na rua como quem foge.


A manhã foi de uma banalidade irrepreensível e por alturas do almoço fui capaz de concentrar as angústias numa salada russa altamente suspeita. Foi um dia tranquilo e foi assim até ser tarde. Nunca antes me tinha apercebido das possibilidades felizes e purificadoras escondidas no tédio das aulas e das conversas. Caros colegas, caros alunos, moei-me as horas como quiserdes mas deixai-me a noite para sacudir migalhas.

Voltei para casa carregando um cansaço feliz. Feliz ou idiota, sinónimos de fim de tarde. no apartamento arrisquei o vagar. Meia hora de leituras (deveres e direitos dos sacerdotes na sociedade ateniense), uma pizza congelada, descongelada e engolida e um filme antigo sem surpresas nem desvios. Depois fui dormir, ousadamente fui dormir. Como se o sonho da noite anterior mais não fosse do que um sonho. E aqui fica intuída uma conjunção adversativa, a gosto...

Assim que os olhos se fecharam por dentro, apareceu novamente a abantesma. Meio fantasma, meio diabo, toda pânico e ranger de dentes. Não estava contente o animal... Subitamente após o nosso último encontro caíra num sono profundo do qual acabara de despertar. Também ela tinha sonhado muito, e que haveria de ter sonhado? (a pergunta era sua, não minha) jardins? Mares? Um homem forte e silencioso com medo de relações sérias? Nada disso! (a surpresa era sua, não minha). Tinha sonhado comigo. Não apenas comigo, Mário abstracto e arquétipo (palavras minhas, não suas) mas com toda a minha jornada, nos seus pormenores ínfimos e segundos fugazes. Tinha seguido as aulas, as conversas com os colegas e passado longas horas a ouvir as dúvidas frágeis dos alunos. Não estava contente o animal.

Eram muitas as suas queixas: a voz pedante que lhe dava ganas de um novo suicídio; os colegas idiotas que falam de livros, de filosofia e dos cus das alunas; o filme a preto e branco sem legendas nem beijos, e mesmo a porcaria da salada russa, que lhe tinha deixado um gosto a maionese estragada durante toda a tarde (a minha tarde). Seguiram-se mais berros, lamúrias e resmungos vários. Assim foi até eu me livrar do algoz graças a certas pressões da bexiga, abençoada seja e muitas vezes louvada. Eram cinco da manhã e foi o fim do meu sono. O medo e o amor-próprio mantiveram-me acordado e a falar sozinho enquanto esperava o sol.


(Continua)

3.9.09

Mariana (Primeira Parte)

Era uma pessoa humana, pois claro. Um dia foi encontrada na cama extremamente inconsciente. Morta até. Na cama acontecem muitas coisas importantes e definitivas. Nascimentos, amores e mortes. E nem vale a pena falar dos sonhos, quase nunca vale a pena.

A pessoa humana que o não era tinha um nome que poderia muito bem ser Mariana. Acredito que o fosse. Mariana é até um nome muito possível, é nome de pessoa que existiu e é um nome bom para recordar muitos anos depois. Não neste caso.

Eu não tinha memória da Mariana, mas tinha a lembrança de uma noite. Uma noite em que o seu nome era outro, talvez Marlene ou Tatiana, talvez outra coisa qualquer. Estivemos juntos durante cem euros, oitenta para ela e vinte para a pensão. Depois cada um seguiu o seu caminho e chamou-se como quis. Eu voltei a ser Mário, como sou quase sempre e ela foi sendo o que era antes do telefonema.

Agora algo sobre mim.

Eu estou vivo. Chamo-me Mário e sou professor de história nas horas que não são livres. Nas outras sou muito pouco, leio livros antigos sobre coisas ainda mais antigas e passeio por jardins de gente sozinha. Nas tardes de domingo às vezes vou pescar num riacho falho de peixes. Tenho a idade que tenho e vivo sem ninguém. As poucas mulheres com quem eu falo são pagas. Uma é a dona Lurdes que me limpa a casa e me passa a roupa dois dias por semana. As outras têm muitos nomes e encontram-se pelos jornais. Uma ou duas vezes por semana, às vezes menos, às vezes mais. Eu pago e falamos, pouco, que elas não estão ali para falar e eu também tenho os meus caprichos.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Dois dias depois de tomar uma embalagem inteira de comprimidos, mais ou menos. Bem sei que pode parecer estranho, mas é sobretudo incomodativo. Eu dormia um sonho meu, de voos, quedas e mulheres disformes, dessas que se sonham. De repente ela apareceu-me num fundo negro de direito de antena. Cumprimentou-me como se me conhecesse e desatou a falar. Falava muito, e falava de tudo. Eu sonhava apenas e não queria saber daquilo, mas a Mariana não é de subtilezas, entrou por mim adentro sem limpar os sapatos e disse o que tinha a dizer.

Falou-me de como tinha acordado num lugar escuro e vazio, vazio de gente. Falou-me do tédio daquilo tudo, de como não tinha fome nem sede e também das perguntas sem resposta. A Mariana sabia-se morta, mas não lhe parecia motivo suficiente para um tal tratamento.

A mulher não se calava e usava todas as figuras de estilo das conversas banais, numa retórica aprendida em autocarros e filas do talho. Uma noite inteira de triplas repetiçõesEu gritava, eu gritava, eu gritava...” de hipóteses e antítesesMas como é que eu morri? Como é que eu não morri?” De exemplos na primeira pessoa “É que eu se mandar uma pessoa para algum sítio não a deixo ali sem dizer água vai ou água vem...” e outros recursos afins. Foi a sua primeira aparição, foi horrível, foi desesperante, foi o início.

(Continua)

2.9.09

Acordar um Dia XXXII

Acordar um dia cantando e bailando como se não se morresse nunca.

Dois Contos Dois

Um conto meu foi publicado na Revista Voca, um outro na revista/fanzine Qu'Inferno.

1.9.09

Um Crer Assim Tanto

Sob a forma de letras nas páginas de um caderno. Assim e . Um caderno de linhas direitas e palavras com letras em diligências de sentido. Encontrou-o ao voltar para casa, estava para se sentar no banco do autocarro e deu com ele ali guardado. Estava fechado, com a capa de fora e o resto dentro. Isso das linhas e das palavras. Olhou à sua volta mas ninguém tinha cara de autor, por isso levou-o para casa, abriu-o e leu-o.

O caderno era um diário, ou melhor, era uma tentativa de diário. Fragmentos de sucessos, pensamentos e memórias sem estrutura de tempo ou de lógica. Ela estava habituada a ler, por isso percebeu tudo. A letra era de homem e algumas páginas tinham manchas de café e cinza de cigarro, pode não parecer importante, talvez não seja. As coisas escritas interessavam-lhe e ela leu tudo, de enfiada. Depois leu mais uma e outra vez, de forma a compreender melhor o que pudesse ter escapado. Estava habituada a ler.

Ficou surpreendida em mais do que um modo. Nem tudo a impressionou, mas nada a deixou indiferente. As histórias contadas eram simples, acontecimentos que não mudam vidas, viagens de idas e voltas, dias de espanto e outros de tédio. Algum livro lido, telefonemas do passado e ideias sem rumo. Era-lhe estranho ouvir de novo (ela ouvia quando lia) alguém a falar de si. Falar assim, a sério, de coisas feitas, dos momentos em que se percebem palavras antigas, de minutos passados na primeira pessoa, dos intervalos do ser em que não pertencemos a mais nada.