4.1.15

Intendência




Pode o tempo comer-nos a pele,
algumas ideias, como eram as ideias?
Tantas tão coisas dobradas na mão
e nós nunca fomos muito crianças,
(és mais agora, és mais agora).
Pode o tempo cair-nos amanhã,
e vai doer tudo o que é para doer.
Tens cigarros, tens paciência?
Chegámos ao outro lado disto,
tu cantando, e eu nem assim.
Pode o tempo morder-nos os dias,
ajuda-me a dançar, empurra, pisa,
abana, manda, guia, leva-nos de mim.
Não há memória para o que nós somos,
e é sempre cedo tu estares aqui.

16.12.14

Ponderabilidade



É fácil ouvir a chuva, sobretudo quando cai
Um pouco como a voz, mas de mais alto
(cerrando os olhos até o pó ganha peso
, pergunta à pele, pergunta ao vento)
Andamos todos a pedir no metro
Mas só os cegos arriscam cantar
De onde sai tanto pó se não da gente?
Temos a pressa de montanhas meninas
Erodidos da vida, penteados pelo tempo
Valha-nos o aquecimento global
Havemos de morrer quentinhos

3.12.14

Diante



O fito de um poema é o silêncio que o termina,
sabem-no os poetas, os leitores, e assim fingem
ler, pensar, julgar, interpretar antes do vazio.
A poesia como o teatro, ou a missa, ou alegrias,
montanhas que subimos para podermos descer,
e tudo o que fazemos, que nos deixa ficar feitos.
Antes de morrer havíamos de viver um bocadinho,
cansarmo-nos, saltar, tirar palavras de uma boca.
Que venha a noite, tremenda, e ainda seja linda.

 
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