28.2.15

Instância



Não deixes que te enfie num poema.
Ouviste? Apaga o PC, parte-me os dedos
ou outros órgãos internos, mas não deixes,
não aceites versos ou merdinhas literárias.
Ri-te de mim e de todas as palavras longas,
bate-me quando eu disser Crepúsculo,
Imensidões, Miríades, Compassivamente.
Três sílabas chegam bem para o que somos,
Gaivotas, Beijinhos, Torradas e Cinema.
Faz de conta às vezes, mas não me ligues,
festinha-me o pêlo e diz que sim, que sim.
“Tem graça, são lá coisas em que pensas.”
Não deixes que te enfie num poema. 
 

4.1.15

Intendência




Pode o tempo comer-nos a pele,
algumas ideias, como eram as ideias?
Tantas tão coisas dobradas na mão
e nós nunca fomos muito crianças,
(és mais agora, és mais agora).
Pode o tempo cair-nos amanhã,
e vai doer tudo o que é para doer.
Tens cigarros, tens paciência?
Chegámos ao outro lado disto,
tu cantando, e eu nem assim.
Pode o tempo morder-nos os dias,
ajuda-me a dançar, empurra, pisa,
abana, manda, guia, leva-nos de mim.
Não há memória para o que nós somos,
e é sempre cedo tu estares aqui.

16.12.14

Ponderabilidade



É fácil ouvir a chuva, sobretudo quando cai
Um pouco como a voz, mas de mais alto
(cerrando os olhos até o pó ganha peso
, pergunta à pele, pergunta ao vento)
Andamos todos a pedir no metro
Mas só os cegos arriscam cantar
De onde sai tanto pó se não da gente?
Temos a pressa de montanhas meninas
Erodidos da vida, penteados pelo tempo
Valha-nos o aquecimento global
Havemos de morrer quentinhos

 
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