23.4.12

Um Amor


O meu relógio parou em ti. A mesma música a tocar no rádio do carro e a mão que procura uma perna e se fecha contrariada.
Abro a janela para que fujas de vez. Escolho outros caminhos, evito bairros inteiros e cafés, bares e supermercados.
Comeste metade da cidade e às vezes perco-me a contornar rotundas sem saber para onde ir. Encurralaste-me fora de ti.
Foi culpa nossa, de amarmos por todo o lado como se aquilo não coubesse, como se uma vontade parva de tomar espaço e multiplicar por metros os centímetros de paixão.
Ali dormimos os dois.
As conversas que viravam esquinas e iam de tua casa para todo o lado. Não tenho por onde andar que não te ouça. Os teus dedos quentes por entre os meus aqui, aquela casa, lembras-te?
Lembro-me eu.
Foi um amor grande para uma cidade tão pequena. Não temos espaço para a indiferença, ou te amo ainda ou devo odiar-te e lutar por cada esplanada, por cada amigo, rua a rua, numa guerrilha de coração preso.
Foi culpa nossa, de não amarmos sempre no mesmo lugar como quem corta o cabelo ou compra o pão de cada dia. Agora é tarde, agora dou voltas infinitas às rotundas.
Vou emigrar de ti, levo a tua foto e um livro de poemas para olhar e lembrar o mapa do meu país. 

(Texto concebido para o concurso Performance Architecture de Guimarães 2012)


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