4.9.09

Mariana (Segunda Parte)

Mesmo os sonhos mais acerbos acabam por ceder à realidade, ao sol, aos sons da manhã que entram desfocados pelos estores. Sim, é bem verdade. Não é verdade?

O duche lavou-me o suor fermentado no corpo e o café fez o mesmo a outros fermentos. Vesti-me rapidamente e entrei na rua como quem foge.


A manhã foi de uma banalidade irrepreensível e por alturas do almoço fui capaz de concentrar as angústias numa salada russa altamente suspeita. Foi um dia tranquilo e foi assim até ser tarde. Nunca antes me tinha apercebido das possibilidades felizes e purificadoras escondidas no tédio das aulas e das conversas. Caros colegas, caros alunos, moei-me as horas como quiserdes mas deixai-me a noite para sacudir migalhas.

Voltei para casa carregando um cansaço feliz. Feliz ou idiota, sinónimos de fim de tarde. no apartamento arrisquei o vagar. Meia hora de leituras (deveres e direitos dos sacerdotes na sociedade ateniense), uma pizza congelada, descongelada e engolida e um filme antigo sem surpresas nem desvios. Depois fui dormir, ousadamente fui dormir. Como se o sonho da noite anterior mais não fosse do que um sonho. E aqui fica intuída uma conjunção adversativa, a gosto...

Assim que os olhos se fecharam por dentro, apareceu novamente a abantesma. Meio fantasma, meio diabo, toda pânico e ranger de dentes. Não estava contente o animal... Subitamente após o nosso último encontro caíra num sono profundo do qual acabara de despertar. Também ela tinha sonhado muito, e que haveria de ter sonhado? (a pergunta era sua, não minha) jardins? Mares? Um homem forte e silencioso com medo de relações sérias? Nada disso! (a surpresa era sua, não minha). Tinha sonhado comigo. Não apenas comigo, Mário abstracto e arquétipo (palavras minhas, não suas) mas com toda a minha jornada, nos seus pormenores ínfimos e segundos fugazes. Tinha seguido as aulas, as conversas com os colegas e passado longas horas a ouvir as dúvidas frágeis dos alunos. Não estava contente o animal.

Eram muitas as suas queixas: a voz pedante que lhe dava ganas de um novo suicídio; os colegas idiotas que falam de livros, de filosofia e dos cus das alunas; o filme a preto e branco sem legendas nem beijos, e mesmo a porcaria da salada russa, que lhe tinha deixado um gosto a maionese estragada durante toda a tarde (a minha tarde). Seguiram-se mais berros, lamúrias e resmungos vários. Assim foi até eu me livrar do algoz graças a certas pressões da bexiga, abençoada seja e muitas vezes louvada. Eram cinco da manhã e foi o fim do meu sono. O medo e o amor-próprio mantiveram-me acordado e a falar sozinho enquanto esperava o sol.


(Continua)

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