1.7.09

O Marcelo (Décima Sexta Parte)

Acordei cedo nessa manhã. Tão cedo que se eu cantasse acordaria galos. Mas onde eu vivo não há galos e eu também não sei cantar. Fiquei por algum tempo deitado a pensar na vida com letra pequena. Por qualquer motivo as manhãs fazem-me pensar só com verdades. Provavelmente porque estou ainda meio adormecido, sem lucidez para me saber enganar.

A minha vida antes do Marcelo era monótona, feita de muitas rotinas e solidão. Tinha-me longe das banalidades que se praticam mas substituí-as por outras muito minhas, com livros e filmes a fingirem experiências. Livros com cheiro de livros e filmes com cheiro de nada. Talvez fosse isso que me faltasse na vida, cheiros que não fossem os meus nem os de coisas mortas, cheiros que enchessem a casa e me acordassem pela manhã. Devia arranjar um cão ou uma namorada.

Levantei-me animado com a revelação. Lavei-me, fiz a barba e vesti-me à socapa para evitar os conselhos do Marcelo. Antes mal vestido que passear elegâncias alheias. O que eu estava prestes a fazer exigia-me por dentro e por fora. Saí de casa sem que ele acordasse e desci as escadas como se fosse entrar em palco. Pela rua via-se já movimento, gente que sai de casa antes dos outros e limpa as ruas de remelas. O quiosque Império estava ainda fechado e eu aproveitei para tomar o pequeno-almoço no café em frente. Comi um croissant, bebi um café e quando estava a acender o cigarro via-a chegar. Abriu a porta, carregou os pacotes dos jornais e começou a ordená-los. Decidi-me e levantei-me, melhor apanhá-la sozinha.

Estava bonita nessa manhã, como sempre mas mais. Tinha um vestido curto às flores e o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo. Bonitas orelhas.
Dei-lhe os bons dias, ela deu-me o jornal e os cigarros e quando estava para pagar resolvi atacar. “Olhe, por acaso... bem, não quero parecer atrevido ou indiscreto, não o sou, pelo menos creio não o ser... bem, eu queria dizer-lhe que no outro dia, na rádio, havia um concurso desses de telefone e eu... sim, eu telefonei, um jantar para duas pessoas no “Beira-Rio” e pensei, não sei, não leve a mal, se calhar não devia ter dito nada, não ligue, é só que eu pensei...”
“Está a convidar-me para jantar consigo?” Eu devo ter dito que sim, não sei como, mas devo ter dito que sim. “Teria muito gosto, mas não acha que nos devíamos apresentar primeiro?” Eu devo ter dito que sim, não sei como, mas devo ter dito que sim.
“Mariana”
“Alfredo”
“Passe por cá à hora de fecho, lá pelas sete, assim ainda damos um passeio”
Um passeio, sim, teria muito gosto. Por alguns minutos fiquei incrédulo, parecia-me demasiado, excessivo, fora mesmo isso que ela dissera? Durou pouco a incredulidade, assim que me voltei vi o inevitável Marcelo mal disfarçado atrás de um jornal desportivo. Tinha ouvido tudo e repetia as frases de Mariana em todos os tons jocosos que conhecia, que eram muitos. Mas eu nem ouvia o Marcelo nem ouvia nada nem queria saber de nada, ela chamava-se Mariana, às sete íamos dar um passeio e depois jantar a dois, eu e a Mariana.
(Continua, em breve)

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