3.12.14

Diante



O fito de um poema é o silêncio que o termina,
sabem-no os poetas, os leitores, e assim fingem
ler, pensar, julgar, interpretar antes do vazio.
A poesia como o teatro, ou a missa, ou alegrias,
montanhas que subimos para podermos descer,
e tudo o que fazemos, que nos deixa ficar feitos.
Antes de morrer havíamos de viver um bocadinho,
cansarmo-nos, saltar, tirar palavras de uma boca.
Que venha a noite, tremenda, e ainda seja linda.

25.11.14

Retórica



Estou cansado como uma metáfora
Coitadas das pedras, da lua e dos olhos
Gastos de serem duros, um amor, outro amor
Se falassem diriam os nossos nomes
És o João que me acende as horas
Um fogo a outro fogo acendido
E tudo caiu como um Pedro, ou uma Rita
As falésias lendo poemas que só delas
Frescas como essas mulheres tão lindas
Exaustas como homens que ruíssem

11.11.14

1:39 a.m.



Algumas noites não passam nunca, nunca
Estou ainda numa quarta-feira, Janeiro 2002
Acordado e doente de Maio de um ano sinistro
Noites cicatrizes, manchas, traumatismos
Noites que são falta de ar no peito, no corpo
escuro a crescer, comendo, correndo a sangue
Noites em que se morre de todas as vezes
as muitas madrugadas que não viram o sol
Espera, delírio, amores que não cumpriram
(são nocturnos os amores que não se cumprem)
É raro dormir, como é raro estar desperto
Leio, mexo em mim, grito, (não, não grito)
E sobra-me sempre tanto do que é escuro
E tenho muitas mais noites do que dias

 
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