16.5.14

O Meu 25 de Abril



A Memória

A faca de mato trazida da Guiné, fotografias e diapositivos de paisagens cor de terra, mulheres negras de peitos caídos, feiticeiros a meio de um ritual. Homens em camuflado com o cigarro ao canto da boca, mas não são homens, são rapazes, um deles tem o meu sorriso e a minha maçã-de-adão. Aerogramas guardados no fundo de um armário, garrafas de whisky com os rótulos amarelecidos (Grand Old Parr, export), cassetes ouvidas muitas vezes no gravador que usava para o ZX Spectrum: “De toda a parte chegam os vampiros…”, “Ei-los que partem, novos e velhos, buscando a sorte, noutras paragens…”. Um avô que contava histórias dos informadores da PIDE que lhe frequentavam a taberna, do leite que vendia misturado com água, da fome, das sardinhas secas, da miséria que era aquilo. Um outro avô emigrado que trazia chocolates recheados de framboesa e palavras francesas pelo meio das outras. O “respeitinho”, o “não parece bem”, “os pretos”, os “fachos”, os “vermelhos”, os “retornados”. Um país a preto e branco que de repente cantava eurovisões de lantejoulas e camisa amarela. Um país menino que quis ser grande e calçar sapatos europeus. Um país que tropeça, e se levanta, e que tropeça.



As Obras

Tenho alguma dificuldade em escolher uma obra que represente o 25 de Abril, apesar do esforço louvável da Maria de Medeiros com o “Capitães de Abril”, demasiado tardio para que me ficasse gravado. Talvez o “Torre Bela”, com o espanto e os excessos do PREC, com todo o entusiasmo e a desilusão. Guardo as imagens do “antes” nas comédias portuguesas com o Vasco Santana, o Ribeirinho e o António Silva, tão brilhantes que resistiram à propaganda e conseguem ser ao mesmo tempo ingénuas e engenhosas. O “Povo que Canta” do Michel Giacometti, um Portugal tão próximo e tão distante, a carpideira que arrepia porque chora muito mais do que uma morte, um país tosco e subnutrido que canta sabe-se lá porquê. O Zeca Afonso, decididamente o Zeca Afonso, a “Grândola” que não precisava de mais do que os passos cadenciados na gravilha. Quanto a livros, fico-me pela tetralogia do Almeida Faria, que descreve os tempos todos por dentro e por fora e onde, no “Lusitânia”, numa carta datada de 25 de Abril, se pode ler: “Não aparece uma revolução assim do pé para a mão, se calhar nunca mais terei outra ocasião de ver um regime esticar o pernil, se é que não se trata de um engano…”. E a dúvida enorme cresceu connosco: Se é que não se trata de um engano. 


(Texto publicado no Jornal de Letras de 16 de Abril de 2014)

14.5.14

Lei Geral da Gente



São precisos dois para cair
Um que segura o mundo
Outro que aprende a voar
A nossa dança não tem chão
A nossa Terra não tem Lua
Da gravidade só as massas
Tão grandes que nenhum corpo
Tão lentas que nem o tempo
O Sol não importa aos dias
A dor não importa à ferida

20.4.14

Azul-Avô




O meu avô são dois olhos baços,
um rosto onde os anos pousaram
e pernas sentadas que já não vão
A luz da sala filtrada com o vagar
e a certeza azul de um tempo
Nomes e datas que são precisos,
memória, eco e amor antigo
O meu avô segura o passado
nas mãos que não seguram
Netos incertos, passageiros
encolhendo sempre como dias

 
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