20.4.14

Azul-Avô




O meu avô são dois olhos baços,
um rosto onde os anos pousaram
e pernas sentadas que já não vão
A luz da sala filtrada com o vagar
e a certeza azul de um tempo
Nomes e datas que são precisos,
memória, eco e amor antigo
O meu avô segura o passado
nas mãos que não seguram
Netos incertos, passageiros
encolhendo sempre como dias

15.4.14

Susto

Andávamos às almas
Perdidos como nuvens
Secretos como nós
Brincavas aos poemas
E eu a entendê-los
Apontavas para o céu
E eu dizia que sim
As árvores, os patos
E eu dizia que sim
As tuas mãos abertas
Os pés soltos na erva
E o medo contrário
Tão susto de mim
Tu eras o poema
E eu dizia que sim

21.3.14

Retorno


Ando amigado com o espanto
De todas as coisas que não entendo
(e entendo nada de todas as coisas)
Crónico de dias, flores e alguns homens
Como bicho que das palavras um grito
Como livro que das páginas tão branco
(é o silêncio a língua mais difícil)
Quero esquecer tudo inteiro até ao fim
Apontar com um dedo para o espelho
E inventar outro nome para o medo

 
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