3.2.14
26.1.14
Wounded and Naked
the sort one would find while looking
for nothing
slightly aggressive, wounded, wilder than needed
and still, and still
life, isn’t it? one says to oneself, isn’t it?
it all happens among desires and pain
it’s all about being there, naked and ready, it’s
all there
is
all that one will ever know
19.1.14
Doente
Regresso às mãos, a isto, a mim
Escrevo lentamente, antigo das
ideias
Cansado de sentir coisas absurdas
É sempre absurda a coisa que se sente
Imaginada por nenhuma mão
Andamos todos a amar para dentro
A fazer dos ventres coração
A comer dos dias, a comer os dias
De vez em quando alguém morre
De vez em quando música ou vento
E brota uma flor negra no peito
Apenas flor, doente flor do peito13.12.13
Lugar
de noite ficas mais perto e eu sei
por exemplo o teu corpo inteiro
como as mãos e os pés e respiras
como te voltas e me procuras
e sei também de um tempo
que nós criámos e que cresce
para a frente e para trás de tudo
de como me enches memórias
de nós antes de sermos, de ti
antes de ti, os beijos certos que
demos e não demos, mas somos
bem capazes disso, não somos?
nenhum mal nos cerca, pois não?
nem um lugar sem nós se veja
12.11.13
O Lábio Cego
Pediram-me que preparasse um texto sobre literatura e erotismo.
E eu aceitei o desafio, apesar de não ter qualquer ideia sobre o que haveria de
escrever, apesar de sempre ter praticado as duas artes em separado.
Já comi enquanto escrevia, já me ri
enquanto escrevia, mas nunca… enquanto escrevia. Do ponto de vista prático, não
há para mim qualquer relação entre uma coisa e a outra. Mas tem de haver uma
outra relação, porque a literatura mexe com tudo, e o sexo mexe com tudo,
sobretudo quando é bem feito.
Todos os autores falam de amor, alguns do
ponto de vista do crente, outros do ponto de vista do ateu ou do agnóstico. O
amor está presente mesmo quando está ausente, é uma espécie de crença que se
aceita ou se renega, mas que é difícil contornar.
E o erotismo, o que raio é isso? Um amor
vertido em corpo? É o sexo teorizado? É simplesmente a descrição do que se fez
ou se gostaria de fazer em vez de estar a escrever?
O dicionário diz que o erotismo é um estado de excitação sexual, ou então a tendência para se ocupar com ou de
exaltar o sexo em literatura, arte ou doutrina. E eu fico meio desconfiado, e
parece-me que o erotismo é o sexo sem o sexo.
A par da definição de erotismo vem sempre a
definição de pornografia, e é difícil, se não impossível de estabelecer a
fronteira. Será que depende do carácter mais ou menos explícito das actividades
descritas? Será uma medida da beleza do texto? Ou, simplesmente, o erotismo é o
que gostamos de ler em público e a pornografia o que gostamos de ler quando
estamos sozinhos?
Lembro-me de quando uma amiga minha me
aconselhou um livro erótico, ela disse erótico. Era a Casa dos Budas Ditosos,
do João Ubaldo Ribeiro, e eu comprei o livro, li o livro, e quando a encontrei
de novo disse que tinha gostado muito, que era muito erótico, muito erótico
mesmo. E talvez lhe tenha piscado o olho. Ela sorriu e foi à vida dela, mas eu
tinha quase a certeza que o livro era pornográfico. Pelo menos era bom, e até o
aconselhei a muitas outras amigas. Sempre com a mesma frase: É um livro de um
erotismo único, libertário, transgressor. E talvez lhes tenha piscado o olho.
Ao escrever os meus dois romances deparei-me
com um problema clássico - como descrever uma relação sexual? Deveria
pormenorizar tudo quanto era feito? Ou usar a elipse e fazer como um autor
francês que fala de “meia hora de um agradável silêncio”? Usar terminologia
científica como “falo”, “vagina” e “períneo” ou usar metáforas rebuscadas como
“o animoso ariete”, “a mofosa gruta” ou o “virgíneo botão”? Descobri por mim
que, em prosa, um acto sexual só é bem descrito se na realidade estivermos a
falar de outras coisas – a relação de poder entre os intervenientes, as
expectativas de ambos com o relacionamento, o desejo que sentem por outras pessoas,
o medo de que a mulher ou o marido entrem subitamente no quarto. Tudo o resto
parece artificial e abusivo, afinal as personagens sabem melhor do que nós o
que fazer com os seus arietes e os seus botões.
Mas se a prosa teve sempre uma relação de
conflito com o sexo, já a poesia é um terreno fértil propenso a qualquer
devaneio. Pode dizer-se tudo com pouco, sugerindo, intuindo, pode fazer-se
música com os dedos e o desejo de um (ou de mais) corpos.
E eu, que da poesia pouco sei mas muito leio,
eu não entendo o porquê. Porque o mesmo se encontra nos decassílabos
quinhentistas de Camões:
Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.
Como se encontra também nos versos cariocas
de Vinicius de Moraes:
Oh!
Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Mas afinal o que é isso? O que procuramos e o
que encontramos pela poesia, que é sexo sem ser sexo? Pode um texto ser corpo? Pode um seio
ter a forma da palavra seio? É difícil o amor letrado e é difícil acrescentar
versos ao silêncio. Para escrever o desejo é preciso inventar um lábio cego e
deixar a língua arder.
Afinal, talvez o erotismo seja o único
sinónimo que a poesia aceita - o sexo na ponta no verbo, a sílaba doida, o som
de um corpo que colapsa.
Na Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera
afirma que a sensualidade é a mobilização total dos sentidos. Inspirado nessa
frase eu tive uma ideia, afinal, talvez o erotismo não seja mais do que o
desejo físico pela palavra.
(Texto lido no Encontro de Escritores de
Língua Portuguesa em Natal, Brasil)
6.10.13
Quedas
Dou ao gato o que ninguém quer
Uma festa, uma palavra e sorrisos
Conversamos por algumas horas
E o gato entende, o gato aceita, o gato
é mudo de tudo o que, afinal, me dói
Adormecemos os dois pelo sofá
e sonhamos com quedas estupendas
Ele de uma janela e eu de um verbo
transitivo da primeira conjugação
Mas ele de pé de qualquer andar
e eu acordo pretérito, imperfeito
Sem um chão, sem qualquer sujeito
E, o que é pior, sem sequer um gato
30.9.13
Ponto de Fuga
Fazias
croché encostada ao muro, era cedo e cheguei-me a ti.
A casa
tinha um jardim maltratado, portas de madeira ressequida e paredes antigas
cheias de verde.
Falei-te
das minhas coisas e era uma hora estranha; porque a luz, porque a rua vazia,
porque a noite em claro e um poema incompleto.
Não me
lembro do teu nome, eras o que ali me faltava e não me lembro do teu nome.
A
cabeça baixa nas mãos a puxar linhas e eu a medo nas palavras. O meu passado, o
que fazia, as artes que praticava. Não sei já o que disse, atento ao tom mais
do que ao sentido, para que soubesses, para que olhasses para mim e
adivinhasses o buraco fundo que era eu.
Um
poema escuro de fim de amor, embrulhado em anos, atado em versos que nunca mais
hão-de rimar.
Os teus
amigos passavam e olhavam. Eu não era dali e a sombra que deitava mudava-te o
rosto, a minha sombra de ser buraco.
Sorrias
nas perguntas, a lã vermelha pendurada das mãos e os pés para dentro como se
tivesses crescido ontem e ainda te sobrasse o corpo. Mas era eu que sobrava, tu
fazias croché e arrumavas a linha no desenho dos olhos.
Atravessou-nos
um silêncio de nuvem, encolhi-me num livro e fiquei a esperar calado.
Convidaram-nos
para comer e eu trazia fome e um poema incompleto. Quis dizer que sim, mas
esperei que falasses e ouvi-te recusar, que tinhas alguém à espera; alguém,
disseste alguém.
O meu
poema espalhado num caderno de linhas que abri. As frases muito sujas, pardas
de cor, tão daltónico andava de todo o coração.
Depois de ti tive de limpar as palavras
Fui
lendo em voz alta, como se estivesse sozinho mas fixo no mexer dos teus dedos.
Os versos enroscavam-se na linha e faziam malha, ajeitados por ti, com as tuas
certezas todas, de estares ali e alguém à tua espera.
Como eu
não tinha, nem certezas nem ninguém.
Levaste contigo a ideia de nós
Fez-se
tarde e levantaste o olhar. Tenho de ir, disseste, beijaste-me e foste.
Desceste as escadas com a malha inacabada, o que restava da manhã e a melhor
parte do meu poema.
Sei
hoje, porque perguntei, que caminhávamos por ruas contrárias do amor. Por isso
correste e eu fiquei onde estava, a ver fugir o vermelho do meu poema.
(Conto escrito em 2011 para uma revista que nunca chegou a ser feita)
26.9.13
Mal ao Longe
Não sei por onde andas agora
lembro-te cada vez mais longe
em dias assim, de chuva, de noite
fechado nisto que não mudou
Vejo-te às vezes por essas ruas
se por acaso chega o Outono
ou dores antigas e maiores
vejo-te às vezes por essas ruas
E digo adeus, sincero, míope
as sílabas todas do teu nome
o único poema que sei de cor
e grito cada vez mais longe
24.9.13
Falhar mais, falhar pior
Cada poema é um falhanço, a medida entre o que quis e
o que obtive, a distância entre onde me propus chegar e onde as forças me
deixaram. Já para não falar de amor, mas falamos sempre, sobretudo quando não
dizemos nada, calados como um fósforo por arder. A poesia é também esse
silêncio incompetente, onde não acontece por palavras o que não pôde acontecer
por outros meios.
Quantos mais poemas foram escritos, mais longe
ficámos, mais quisemos, mais loucos, mais sentimos acima das nossas
possibilidades. Páginas e páginas como um cemitério de intenções, uma biografia
que nos desautorizaram, um diário de noites mal dormidas.
E fica a inveja humilde mas sincera desses outros que
nem sei se existem, os infames cabrões felizes e ágrafos, sem uma linha que se
possa consultar.
19.9.13
Equinócio
Árvores
são máquinas de caírem folhas
como
nós somos de doer e fim e noites
E quando choramos não fazemos mais
do que a nossa mui íntima obrigação
Se amamos tão úteis quanto uma flor
pétala a pétala até chegar o Outono
é porque não assinámos o tempo
E clandestinamente vamos caindo
amparando as mortes com beijos
do que a nossa mui íntima obrigação
Se amamos tão úteis quanto uma flor
pétala a pétala até chegar o Outono
é porque não assinámos o tempo
E clandestinamente vamos caindo
amparando as mortes com beijos
à espera de um fim para começar
6.9.13
Coisa Alheia
Conheci-o num boteco da Lapa. Eu estava lá para almoçar, ele
para beber.
Tinha pedido um dos pratos do dia e pensava na reunião da
manhã. Na mão um livro de poemas que tentava ler, voltando sempre ao primeiro
verso do qual não consegui passar: A
palavra torna o corpo coisa alheia.
Ele reconheceu o sotaque e veio sentar-se a meu lado
segurando um copo de cachaça. Lisboa, Porto, Coimbra? Trocámos perguntas e
algumas poucas informações. Chamava-se Fernando, como o poeta, dizia, como o
poeta, e a cachaça num gole.
Comi, pedi um café e fui ficando. Ele falava da vida
misturando a língua de dois países, queixava-se dos cariocas com pouca convicção,
depois as mulheres, as mulheres… e o tom de voz a baixar, como se estivesse a
apanhar fôlego.
- Três casamentos, três, acredita, amigo? Sempre à procura sei
lá eu de quê. O mal é sempre o mesmo, e o bom também, o pouco bom também…. dois
filhos das duas primeiras, à terceira não deu tempo. O amigo tem filhos, uma mulher?
Disse-lhe que não tinha mas não fui capaz de explicar porquê.
Nunca mo tinham perguntado, por isso não tinha uma razão.
- Tenho agora aí uma moça apalavrada… de cada vez eu digo:
Não te metas já noutra, Fernando, dá tempo a essa merda, pá, dá tempo, Fernando…
mas depois… eu sei lá, depois um gajo esquece-se, um gajo é foda, não é, amigo?
Acenei que sim e comecei a procurar um pretexto para sair. O
homem ia-se afogando, as palavras fundiam-se em vogais indistintas e o olhar
cada vez mais baixo, como se o copo um poço e a cabeça uma pedra. Mas de
repente endireitou-se na cadeira e a voz de novo lúcida, o último estertor.
- As mulheres esperam meses, anos, antes de se meterem com
outro, e a gente não, vamos a correr para a primeira que nos ampare a queda. E
sabe porquê? Sabe, amigo?
E, mais uma vez, eu não sabia.
- A gente tem o filme todo feito, mal um cara começa a ganhar
um dinheirito faz logo o filme todo… e se falta a actriz principal é só preciso
arranjar outra, e começa o casting… não é assim? É assim é… Mas elas são outra
coisa, amigo, elas fazem um filme diferente de cada vez, à medida, olham para a
gente, tiram-nos a pinta e escrevem uma história. E por isso demoram tempo, é
preciso mudar tudo, entende? Tudo! O argumento, o cenário, a banda sonora… A gente
tem só uma vida, e elas têm tantas…
Silêncio, e o Fernando já ali não estava.
Pedi a conta, desejei-lhe sorte e saí. O livro ficou
esquecido na cadeira, apercebi-me à noite, que é quando os poemas fazem falta. Ficou-me
apenas o primeiro verso, agora na voz tropeçada de Fernando: A palavra torna o corpo coisa alheia.
(Obrigado ao Wesley Peres pelo verso)
2.9.13
Geográfica
Há lugares feitos para doer
para que o mal tenha chão
morada e um código postal
Há ruas onde não durmo
ruínas que foram casa
paredes que já não são
E o amor se ainda houver
há-de encolher-se também
e sofrer por onde caiba
20.8.13
Menina II
cantavas o nome louco das coisas
como bichos rezam e o vento sonha
trazias o tempo metido nos bolsos
e cheiravas a ontem, e sabias a riso
assobiavas o sol pelos dedos ágeis
enquanto o chão te dançava os pés
roubavas beijos que depois comias
e os poemas aconteciam-te
12.8.13
Memórias de um Átomo
Dirão alguns que
não és ser, que um átomo não pensa, não vive e é coisa que não lembra. Que
sempre foste e sempre serás uma parte que mexe ao ser mexida, sem alma ou
intenção.
E, no entanto,
esses que falam são eles também grãos de coisa tanta e maior. E o sistema
solar, e a galáxia, e o cosmos, e Deus, que não existindo sempre teve imensas
opiniões. Que dirão de nós tantos infinitos?
Vivemos
importados com as nossas infâncias e mortes e somos afinal tão voantes, um
segundo de estrelas, uma mancha na superfície de um planeta, que ora está e ora
se some. E vamos compondo os nossos livros, e relatando as nossas memórias com
a minúcia dos tontos – foi no dia vinte e quatro de Fevereiro de 1866, jamais o
poderei esquecer. Mas esquecem todos os outros, e os próprios leitores chegam
ao fim da página a bocejar-nos os dias inolvidáveis, espreitando o jantar se já
está pronto, olhando para um relógio que mede o que já não nos pertence.
E tu estavas e
estás e vais estar ainda muito mais. Tu viste reis e imperadores e os seus avós
bárbaros, assististe à nossa queda das árvores, ao mar que nos pariu, à sorte
que nos deu nome. E continuas aqui, parte muda do meu aparo, resignado com só
ser sem nada perguntar. E se a indiferença ou a sageza te libertam das
vaidades, cá estou eu, João da Ega, homem de todos os costados, petulante, vão
e airado, pronto a trair-te a anonimidade eterna por uma glória que ninguém
há-de recordar.
(Texto publicado no Jornal de Letras de 29 de Julho, a proposta era a de imaginar os primeiros parágrafos do "Memórias de um Átomo", livro que o João da Ega dos "Maias" nunca chegou a escrever)
25.7.13
linho
queria um verão de linho branco, uma coisa
pura, uma coisa ar
mas não sei se foi do vento, ou aquele bicho
a morrer na praia
o sol foi-se pondo mais cedo e tu choravas
e eu também
o mar nunca foi tão frio, pois não? nada
tão frio, pois não?
e o sal nos beijos, e um mal nas mãos, e
um sal nos beijos
tecemos de estopa uma manta rude
arranhando corpos
e o coração, também de estopa, e o coração
6.6.13
Tarde
Sei das horas muito longas
como estradas de chegar a ti
Uma mão aberta em dedos
um cigarro a arder calado
o copo de um vinho triste
e música às voltas de mim
Sei um nome que já não és
como resto de língua antiga
ou os beijos que me davas
ou o gato que já morreu
Tinhas a boca em forma de dor
e as noites em letras de
versos
28.5.13
A Cidade Condicional
Deixando Atenas por Ocidente e cavalgando por vinte séculos, chegamos a Europa, maravilha quieta dos homens cansados.
A cidade foi erigida em pedra, depois arrasada e
reconstruída em tijolo, depois novamente destruída e refeita em betão e vidro,
pensada para durar e espelhar quem a habita, até ao fim dos tempos ou a
extinção da espécie.
Europa é um lugar por exclusão de partes, nada de seu
que não tivesse importado ou imitado dos impérios circundantes, das culturas
que herdou ou que subjugou pela força e pelo cansaço.
A sua moeda é ambígua, tem uma face que representa o
império e outra dedicada às diversas províncias, como se de povos se pudesse
inventar um povo.
Os cidadãos desentendem-se em muitas línguas e
são-lhes dadas palavras vagas e fracas como uma desistência. Ninguém pensa com
as palavras de Europa, porque não servem para o íntimo, e os amantes não as
trocam, porque não servem para o amor, e os loucos não as gritam, porque são
palavras que não voam.
A cidade trabalha como um prisma do avesso, uma
mistura de muitas cores que resulta em cinzento. Os prédios, as vestes, as
músicas tocadas em algumas esquinas a certas horas, são pardas de cor e de
textura, como algo que permaneceu demasiado tempo no bolso de umas calças e já
não se distingue. Morre-se muito nesse cinza-Europa, e pode um homem
desaparecer apenas porque deixou de ser visto.
Ali, os verbos futuros duram o tempo de uma queda. O
passado engole a gente e os sonhos, o sol que nasce parece gasto de outras
cidades mais vivas, é um sol de ontem, que não deixa ver nada de novo.
Assim é Europa, mas não tem de ser assim.
Há homens secretos a rir pelos buracos da cidade. Há
rachas nos muros, nas paredes, no asfalto do império. Surgem poemas no tecido
coçado dos assentos dos autocarros. Versos brutos de coisas brutas e antigas,
de pão e vermelho vivo, de dor e ar e boca.
A seriedade, o peso, a história da cidade criaram uma
casta de homens que são sombras e anjos, filhos de putas e de deuses
distraídos.
Em algum momento hão-de juntar-se os doidos e votar
moções de nuvem, eleger pássaros, escolher as leis do acaso, formas governos de
um dia e presidentes de um salto.
Hão-de os bancos comprar cantos e assobios, as pastas
negras transportar berlindes e piões, as gravatas atadas em cordas de saltar e
os decretos transformados em aviões de papel.
E Europa há-de ser outra coisa, que rebentemos todos
se não for outra coisa.
Já nos cansa a nona de Beethoven. Não se canta uma
alegria afinada pela fome.
Enfiem as doze estrelas num sítio onde faça muito
escuro. Queremos mais cor, e menos bandeiras.
Queremos as coisas primeiras, comer com as mãos e
semear o que sobrar nos dedos.
E um dia, isto ainda há-de ser outra coisa. Que
rebentemos todos se não for outra coisa.
(Texto lido a 26 de Maio no LeV, em Matosinhos)
2.5.13
Nefelibata
Nefelibata: que ou quem vive nas nuvens;
diz-se também do escritor que não obedece às regras literárias; alguém demasiado
idealista, que foge da realidade.
Do grego nephéle (nuvem) e bata (o que anda), o termo parece ter sido cunhado por Rabelais em
“Pantagruel” onde, no quarto livro, é descrita a batalha dos Nefelibatas com os
Arismaspos. No
final do século XIX, a mesma palavra foi utilizada em Portugal pelos escritores
naturalistas para apelidarem as gerações mais novas que por esse período
aderiam à corrente simbolista-decandentista que chegava de França.
Raul Brandão, um dos escritores que mais
viriam a influenciar a literatura portuguesa do século XX, assumiu a designação
e subverteu-a, formando com Júlio Brandão e Justino de Montalvão o grupo “Os
Nefelibatas” e publicando em 1982 um folheto com esse nome sob o pseudónimo
colectivo de Luís Borja. No folheto/manifesto, os autodenominados Nefelibatas
proclamam-se “Ateus do Preconceito e da Opinião Pública (…) Anarquistas das
Letras, Petroleiros do Ideal”.
Quando eu era criança diziam-me muitas
vezes, ao esbarrar num poste de iluminação ou quando tropeçava nos degraus de
uma escada: Vives nas nuvens, tens a cabeça na Lua. Não sei se eu era apenas
distraído, se estava a praticar para ser um “petroleiro do Ideal”, mas
entretanto cresci e, enquanto muitos dos meus amigos foram descendo à Terra
(alguns poisando, outros caindo), eu temo que ainda por lá ande, nas nuvens, na
Lua, um anarquista do passeio público.
Diziam-me isso e eu não entendia, porque
achava que todos queríamos por lá viver, longe da escola e da rotina, da vida
tão pequena e ordinária. Nas nuvens não haveria trabalhos de casa ou sapatos
enlameados, colegas maiores e mais fortes, gente doente, ou avós que morrem um
dia. Os galos na cabeça e os pés torcidos eram um pequeno preço a pagar, culpas
de um corpo que insistia em não voar.
O nosso mundo nunca foi um lugar
recomendável, e por isso fomos aprimorando a arte da fuga: pelas ideias, por
Deus, pelo amor que vamos conseguindo ou imaginando, pelo álcool, pelas drogas,
pela arte. Parece haver um consenso generalizado entre homens quanto à superioridade
da vida em relação à morte, e, contudo, são poucos os que não tentam escapar à
vida que têm.
Os artistas foram sempre os Houdinis da vida, capazes de desaparecer
mesmo de onde nunca estiveram. Qualquer paixão lhes serve de porta, e lá vai o
artista por um caminho que só ele conhece. De entre estes há alguns
particularmente perigosos, chamam-se malditos ou loucos, estão sempre
adiantados ou atrasados em relação ao tempo dos outros e alguns nem cumprem as
“regras literárias”. É gente que se permite rir por entre o caos ou chorar
enquanto outros dançam. Somem à vista de todos e deixam buracos invisíveis na
calçada, armadilhas terríveis disfarçadas de chão.
Mas onde deve viver um escritor?
Quando me converti em leitor, todos os meus
escritores viviam em mansardas em Paris. Eu não os deixava sair, porque só ali
me serviam. Não queria escritores do meu país nem da minha rua, ou que andassem
pelo bairro e comprassem pão e pagassem as contas. Queria os meus escritores
miseráveis, acordando ao Sol-posto, mordendo cebolas cruas, bebendo o vinho
mais ruim e tendo por amor os favores fortuitos de mulheres pouco
recomendáveis.
As mansardas eram para mim próximas das
estrelas. Aí viviam Balzac e Baudelaire, mas também Kafka, Dostoievski, Borges
e até o meu Fernando Pessoa de Lisboa, que afinal era de Paris. Para mim as
estrelas e as mansardas eram ao mesmo tempo castigo e prémio de poetas, um
lugar fora do mundo, sem as leis do mundo.
Aprendi mais tarde que também se podia
viver nos subúrbios de uma cidade americana ou num bairro sofisticado de
Tóquio. Que alguns escritores (e até bons escritores) casavam-se e tinham
filhos, e acordavam de manhã para cumprirem um horário, tinham as estantes
arrumadas por ordem alfabética e pagavam as contas com uma antecedência
suspeita. Devem ter as mansardas na cabeça, concluí.
Depois aprendi mais, e descobri que há
escritores à paisana, disfarçados de gente e camuflados de cinzento. Descobri
que há agentes secretos infiltrados na vida, prontos a recolher qualquer
conversa banal e a torcer-lhes os sentidos até serem outra coisa qualquer, nos
piores casos até poesia. São homens e mulheres de dedos hábeis, capazes de
eliminar mesmo as lógicas mais subtis, mesmo as regras mais antigas.
Que regras deve um escritor desrespeitar?
O que são as regras literárias e como
fugir-lhes? Uma frase sem verbos ou predicados, é da literatura? Uma oração sem
Deus nem prece, é literatura? Um crime sem vítimas nem culpados, uma história
sem sujeitos ou um sujeito sem história, são literatura? Quanta realidade deve
ter um livro? É necessária? Desejável? É possível fugir-lhe?
As regras nascem do acordo e do
compromisso, “é isto que nos convém”. Servem para que nos entendamos e evitemos
os conflitos desnecessários. Mas, ao contrário das leis civis, que têm
parlamentos eleitos para as propor e aprovar em dias certos, as regras
literárias só podem surgir da infracção. Através de obras isoladas ou de
manifestos colectivos, apenas a transgressão permite estabelecer uma nova forma
ou um novo cânone. São muitas as obras que romperam com o passado e abriram
novos caminhos, poucas as “obras-primas” que se conformaram com o que já
existia. “A Divina Comédia”, “Dom Quixote”, a obra de Shakespeare, “As Flores
do Mal”, o “Ulisses” de Joyce, o “Livro do Desassossego”, “A Metamorfose”,
obras que souberam desobedecer às regras literárias do modo mais escrupuloso.
Afinal, a realidade estava de fora das regras.
Onde está a realidade do escritor?
No meu romance “No Meu Peito Não Cabem
Pássaros” imaginei um Borges que olhava para as nuvens e nelas descobria os
tigres e os dragões que lhe habitavam os sonhos. As nuvens são próximas da
imaginação, matéria estranha entre o sólido, o líquido e o gasoso, ideias que
voam e vão tomando as formas que lhes soubermos encontrar.
A realidade é um lugar onde tudo é apenas o
que pode ser. A literatura e a ciência aumentam a realidade, transformam o
ridículo e o inverosímil em hipóteses, memórias e experiências. Mas essa
realidade deixa de interessar a quem a inventa, está feita, e parte-se para
outra, distante ainda, para lá do que se vê.
Escrever é ser Deus por cima e por baixo,
mexer no íntimo dos homens e escolher do minério o metal, o que deve brilhar ao
dia. Os homens são cheios de nuvens e não sabem. Por entre o almoço e o
trabalho, e não sabem, no trânsito e no escritório, na cama, e não sabem. Mas
há quem more do outro lado do sonho e saia à rua disfarçado num pijama, com os
sapatos trocados e os dentes a cair, voando e caindo com as mesmas asas. Há
quem respire por palavras e músicas secretas, quem se passeie no céu porque só
o azul lhe aguenta o peso.
Em todos os tempos há quem critique os
sonhadores, os intelectuais e os poetas. Que a vida anda por outros lugares,
que os tempos são difíceis e nada propensos a sonhar. Mas em todos os tempos há
momentos cruciais, em que o sonho derrota a vigília e nos apercebemos de que
tudo é como não sabíamos que fosse. Como no capítulo XVI de “Guerra e Paz”, em
que o príncipe Andrei Bolkonsky é derrubado pelo exército francês na batalha de
Austerlitz e, deitado no chão, pensa para si mesmo: “Que tranquilo e sereno
céu, tudo é vazio, tudo engano e decepção, excepto o céu infinito”.
Tudo é vaidade e correr atrás do vento, diz
o Eclesiastes, mas o céu é verdadeiro, o céu espelha os homens sem lhes
perguntar razões.
Hoje a Europa é uma má realidade. Os
noticiários, as palavras e as nossas cabeças foram sequestrados por economistas
e políticos, uma gente sinistra que traz a cabeça presa pela gravata e não
consegue olhar o céu. Os dias estão demasiado iguais, sempre piores e sempre
mais iguais. Andamos há muito tempo a cumprir as más regras, precisamos de
malditos que nos tirem daqui à força de poesia. Estamos atolados numa realidade
que já não serve.
Talvez seja chegado o momento de
fabricarmos asas que nos levem para junto das nuvens, de sermos um continente
de nefelibatas, partindo para o céu como a Península Ibérica partiu um dia para
o meio do Oceano na “Jangada de Pedra” de Saramago. Uma Europa lançada ao
vento, que voe para não cair, que se rapte a si mesma e fuja ao peso de ter
peso.
(Texto publicado na rubrica "Un Mot d'Ailleurs" do número 603 da revista Nouvelle Revue Française)
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