29.3.12

Até em Deus eu acredito


Nas dores de quem é velho
Na meteorologia
Na morte
Nas promessas de um bêbedo
Nos teus olhos claros
Na mão de quem pede
No fim do mundo
No fim de mim
Na Senhora da Saúde
Nas coisas que eu cá sei
Nos dias que hão-de vir
Nos deputados da nação
Nos amanhãs que cantam
Nas pessoas todas
Na sorte
No destino
Na volta do que já foi
No menino Jesus
No que eu já fui
No amor agora
Na manhã agora

19.3.12

Beijar o Mar


Um pai atravessa o oceano e morre longe da gente. Um pai a menos.

“Arredem-me o mar que quero voltar para casa”. Foram as palavras que lhe ouviram, depois morreu.
Nunca chegámos a saber o que o fez partir. Uma carta deixada na mesinha de cabeceira, uma mãe em lágrimas e nós meninos pendurados da saia em perguntas de jantar.
Tínhamos poucos anos e aprendemos a calar. Minha mãe fez-se homem e trabalhou mais e deu-nos de comer e nunca mais cantou.
Não chegaram outras cartas, só aquela tão tardia. O pai que eu não tinha estava morto num lugar.
Escolhi um verão e fui atrás dele. Disseram-me onde jazia, terra chã de cruz em cima, aquilo um pai.
Era uma pequena cidade costeira, a casa abandonada junto à praia, miserável, sem tratos de mulher. Garrafas vazias, roupas esburacadas, um colchão imundo e os bichos a tomar conta.
Abri as gavetas e espreitei o armário, alguns documentos, cartas do banco, uma fotografia de família (de quando ainda sabíamos sorrir) e um maço de bilhetes. A letra desenhada em muitos redondos, excessiva, corações infantis a servir de assinatura. Encontros marcados, outros adiados, “hoje, no lugar que é nosso”, “beijinhos para o meu benzinho”, enjoos desses, coisas de menina ou puta de qualquer idade.
Saí dali e andei às voltas, imaginando-me trinta anos mais velho, tolo de palmeiras e de uma mulher vulgar. Que pai parvo deixaria a minha mãe por uma galdéria de corações?
Dirigi-me ao centro da cidade, bebi algumas cervejas e perguntei. O falecido português, que vida a dele? Foram-me dizendo pouco, que andava por ali, à pesca e aos copos, um resto de homem que nem se entendia.
Passei pelo hotel a buscar lençóis e fui para a praia deitar-me na cama do velho, alguma coisa haveria de entender. O sono veio embrulhado de ondas, um vaivém de ideias e corpo, a cama feita barco, ou náufrago, ou homem bêbedo. De manhã cedo a luz pelo telhado falido e o calor a empurrar-me para fora.
Molhei os pés e lavei a cara de sal, quieto num espanto de dia, à beira de qualquer coisa que me escapava. Pensei em peixes arrimados ao cimo de ondas, olhando a terra e pensando na vida.
Aproximou-se um homem sujo a rir com poucos dentes. “Menino, você é a cara do português!” E ria, e veio para mim.
Perguntei-lhe se o conhecia, se me podia ajudar a compreender, a mulher, quem era essa mulher?
E o homem riu muito mais, e deu passos de dança até cair na areia e eu sentar-me a seu lado.
“Seu pai era homem sem mulher, rapaz, era doido sozinho mesmo. Bilhete? Que bilhete? Isso era coisa da mão dele. Todo o dia o português vinha para a praia, assim que nem você, e se adentrava no mar como fosse coisa feminina. Depois, quando a água chegava na boca dele, ele fechava os olhos e beijava o mar, doido daquilo, parecia até sexual!”.
Fiz-lhe mais algumas perguntas, mas o homem não disse mais nada. Imitava os beijos do meu pai e ria e cantava até se levantar e desaparecer longe na areia.
Demorei-me ali a imaginar a loucura que haveria de herdar. Uma doença de águas e um amor tão desproporcionado. O meu pai era louco, mas talvez não fosse parvo. O mar tão perto, o vento quente, o contrário de nós. Não era coisa de ser normal, mas podia um homem perder-se daquilo. 
Levei o resto das coisas para a casa da praia e fiquei à procura de uma história para contar. Algumas semanas, alguns meses, até me esquecer de procurar.

Afinal aquilo não era coisa de contar.

(Texto publicado na revista "Rua Larga", da Universidade de Coimbra)

18.3.12

Nominal

Que nome dar a isto, a ser assim?
A saber que tudo foi já perdido
mas viver como se houvesse sol
e gente para amar e até meninos
E a música tocasse e se pudesse
dançar com sonhos por ideias
e beijos dados por não dar
E houvesse em algum lugar
um deus que assobia e reza
por todas as almas inúteis
de todas as nossas flores

Um nome único para quem sabe
da chuva mais do que o cair
dos dias mais do que passar

6.3.12

andando


não tenho versos que te sirvam
nem beijos que cheguem para ti
ando curto de todas as palavras
e só risos e passeios lentos a pé
pelas ruas de sol da tua cidade
encolho ainda o amor na língua
porque me dói isso, o verbo –te
que eu esmurrei em particípio
leva-me certo nas mãos certas
e olha para a frente de nós
como se eu não fosse atraso
ou sombra, ou um homem só
mas te andasse nos mesmos pés
e te amasse, e andando te amasse

30.1.12

retrato de agora sem ti


afogo-me muito nestas tardes ao céu
um sol que não chega, não alegra nem cor
um cigarro nos dedos a queimar ar
e o tempo lento de agora menos um quarto
anda por aí amor às sombras de tudo
beijos que mordem olhos que olham
e um frio de ossos a suster-me a pele
se hoje o mar me tocar desapareço
como um poema de água nas mãos

23.1.12

Noite

Não quero poesia mas coisa de mãos
Um seio com a forma da palavra seio
Um corpo carregado de metáforas
E a métrica incerta dos teus beijos
Quero rimas feitas com os dentes
Morder-te as pernas com as pernas
E gemer iambicamente por ti
Quero-te do outro lado disto
Trocar os dedos pela boca
E as minhas noites por nós

16.1.12

Horas

Por aqui como ficaram horas à solta.
Pelo meio das razões sobrou um tempo
que não tem onde dormir, que não tem lugar.
Se as casas fossem paredes ninguém morava,
as casas não são feitas de paredes.
quadros pendurados em nada e não caem,
ninguémconta, são tempo e sorrisos.
Os dias bons são todos vontade, são querer muito
porque nãomais nada, sonho.
vidas tortas e nem tudo o que se mete nelas
fica onde nos possa servir. Há vidas muito tortas.
As minhas melhores horas são tuas,
tenho-as  espalhadas por todo o lado.
Lembro-me por exemplo... mas tu também te lembras,
foi um dia feliz que apagou tristezas e fazia muito calor.
Queria agora o teu corpo e chamá-lo meu.
Trata bem do corpo que foi nosso, como do resto.
Se puderes pendura-nos as horas num sítio bonito,
elas precisam de sol, foi sempre assim.
Desculpa-me mas vou agora dormir contigo,
não é maldade, sonho e um cheiro que ainda sinto.
Amanhã ou depois será como tu queres, mas hoje não,
hoje tu não te foste embora e eu ainda me sei fazer amar.
Assim que te perdi procurei raivas que me cegassem,
uma cegueira boa, de olhos que não vêem.
Não sou capaz de ódio, fico aqui a brincar com as horas
e choro e rio como se amanhã fosse outro dia.
Vou agora despir-me e chegar-me a ti,
não faças caso, sou apenas uma lembrança.

15.1.12

Baldio

Há homens para querer e outros que só se lêem.
Sentam-se em cafés com caneta e papel e despejam em palavras os amores que ninguém pratica.
São homens do lixo da gente, trazem no bolso cadernos-aterro onde se deita o que sobra, o que não cabe já em lugar nenhum.
“Tenho uma vida para cuidar, seguras-me aí o amor?”
E eles seguram, enterrados naquilo até ao pescoço, empestados de dor e lua.

Quando é que tudo se fez tão noite?

8.1.12

vem
    
        deitar
                  
                   te


                        no


                             meu


                                     poema

3.1.12

Sombra

Amar-te-ei de um amor calado
Secreto como coisas nocturnas
Silêncio onde chovam palavras
E nasçam cores fingindo orvalho
Um amor às escondidas de nós
Como a sombra de um sol
Como a dor antes da dor
Ou a dor depois da dor

14.12.11

Ainda

Não creio em deus nem no amor
não faço figas, não digo o teu nome
mas ando por aí onde não me vês
de mãos nos dedos a contar noites
e a sentir muito as horas inteiras
Faço versos brancos que não és tu
nem as ruas vazias de tanta gente
nem nada que sirva, nada de bom
Sonho às vezes, sonho contigo
e connosco, alegrias pequenas
que não acordam nem lembro
Não creio em deus nem no amor
mas rezo ainda e penso em ti

24.11.11

Vintage

São quase oito e tu à minha espera. O trânsito, a chuva… Mas tu já sabes, sempre o trânsito, sempre a chuva, ou um acidente, ou uma reunião, e tu já sabes, sempre eu, sou sempre eu e tu à minha espera.
Hoje quis que fosse diferente, lembrei-me mais de ti, abri a carteira e olhei para a tua fotografia, a que tirei quando estávamos a ser felizes longe. Onde era? Maldivas, ou Canárias, ou na República Dominicana, já nem sei, éramos tão novos e tu tão linda, tão minha e tão linda eras. Ainda és, sou eu que me atraso porque embruteci, porque me esqueço, sei lá eu porque é.
Dez anos, são só dez anos, já dez anos. Não te sei pesar em tempo. Quantos anos tem um sinal na nossa pele? Ou um dente torto, ou um calo nos dedos que tocamos quando estamos nervosos e nada mais sabemos fazer?
Não há idade para o que somos, talvez nos tenhamos tornado um lugar, como um jardim, ou um quarto que tem o nosso cheiro, ou o berço onde dorme o que inventámos ou a cama onde nós dormimos e às vezes nem dormimos.
Mudo a estação e troco as notícias por músicas de amor. Dez anos e ainda me fazes isto, mesmo atrasado, mesmo careca e bruto do tempo. Chove muito e o carro parado numa fila. Talvez abra a janela e vá a nadar até ti, talvez me chames tonto e digas que nem as penso, nadar na chuva numa noite assim… Depois rio-me e dou-te beijos para que me perdoes e te esqueças do atraso, para que te esqueças de muitas coisas.
Tenho uma garrafa guardada para nós, de um ano único, um ano que guardei para nós. É um vinho doce e delicado, de tempo poisado.
Conheço todos os teus sabores, a menina que foste, a rapariga louca e destemida que tu eras como eu não era, a mulher mãe de agora. Não te devia guardar para noites assim, mas sou tonto, tenho medo que vás e não entendo que quanto mais te beba mais há para beber.
Perdoa o atraso, perdoa-me a chuva, a noite, o tempo.
Faltam-me palavras, sobram-me coisas dentro mas faltam-me palavras. O cantor da rádio di-las por mim, fala de amor, de arrependimento, de erros. Queria cantar para ti assim, que me ouvisses sem me olhares, para entenderes melhor, como eu entendo as canções porque não as vejo e só a chuva, os faróis vermelhos e a hora no relógio.
Vou abrir o vinho e vais dizer que é bom. Tu que nem ligas, que nem bebes, vais sorrir. E eu devia abrir-me a mim, dizer que envelheci por ti para que me abrisses e te pudesse falar com as palavras mais finas, as mais maduras, as que faltam.
Agora avanço um pouco, vou chegando a passo de homem. Em que pensas tu? Que nomes me chamas? Que paciência a tua quando eu não estou e tu conversas com a menina? O papá atrasou-se outra vez, o papá esqueceu-se da gente, bebé, porque tem muitas coisas na cabeça, e um dia vai atrasar-se tanto que já ninguém espera por ele, não é, bebé?
Que cabeça a minha, não nadar na chuva numa noite assim.
És chão em que assento, penso e não te digo. Se um dia me faltas caio logo ali, sem lugar para pôr os pés ou a mim. Morreu por falta de chão, dirão os amigos, um homem a cair por todo o lado.
Hoje vou beijar-te mais e melhor, dizer-te estas coisas, contar os trezentos e sessenta e cinco dias multiplicados por dez e por nós. Às horas bissextas escondo-as numa caixinha, para quando formos velhos e nos faltar o tempo. Ato-lhes um laço vermelho e dou-tas de presente. Toma as minhas horas, trata delas porque eu não sei.
Diz à menina que eu estou a chegar. Diz à menina que tens nas mãos e no peito que eu estou mesmo a chegar.
Já não chove, uma música sem palavras agora, apetece-me cantar mas não sei como. Que ouvisses a mesma rádio e a mesma música com as minhas palavras por cima. Não te esqueças de mim, por favor, não te esqueças de mim.

(Texto escrito para a folha de sala do concerto de comemoração do 10º aniversário do Quarteto Vintage

9.10.11

Black Market

Eram três raparigas que riam, pareceu-me assim. Chegavam da rua e despiam os casacos à volta de uma mesa. Diziam coisas e olhavam em volta, eu estava perto com os dedos suspensos em cima do caderno, olhava para elas.
A música era alegre e havia fumo a subir de muitas bocas, pessoas com pessoas e elas e eu. Duas que se sentam e a rapariga loira num vestido vermelho pergunta a um casal que está à espera de outro, depois olha para mim e de novo para as amigas. Elas acenam-lhe para que avance, a rapariga aproxima-se.
Diz-me boa noite e sorri, aponta para a cadeira como se pedisse desculpa, posso? Digo-lhe que sim e vejo-a afastar-se. Fecho o caderno, apago o cigarro e bebo o que resta da cerveja.
Há noites em que estar sozinho é só estar sem ninguém. 

5.10.11

Menina

Quando for grande quero ser avó
Quero ter olhos de céu às vezes
Tocar piano, falar gato e falar riso
Dançar descalça e feliz dos pés
Ser linda de palavras e cantigas
Segredo do mar e de gaivotas
Quero voar azul como um menino
Que assobia ou dorme ou voa
Quero a certeza de flores e dias
Longe como um sol vermelho
Ou países ou amor sincero

Quando eu for grande quero ser pequena


28.9.11

It's gonna rain

vai chover porque me dói o peito
e nem vi deus ou outro indício
só o peito e uma víscera doente
cheia de reumatismos de amor
tenho o tempo certo de abrigar
numa arca de poucos côvados
cada dois de mim e pão e água
doce que eu beba e me não falte

26.8.11

O Avô Pintinhas

O meu avô é uma gota de passado pendurada na parede da sala. As poucas fotografias que resistiram dizem pouco, uma cara redonda, um corpo maciço e um sorriso de brejeirices com o cigarro ao canto da boca. Uma mulher escura de cabelos escuros dá-lhe o braço numa delas, estão num salão, talvez um clube recreativo ou um baile particular. A minha avó não se vê em nenhum lado.
Chamava-se José Silvério mas todos lhe chamavam Pintinhas. Tinha dois sinais na asa esquerda do nariz e morreu do fígado antes que eu aprendesse a falar. Não fez diferença, porque só agora me lembro das perguntas que lhe queria fazer.
A guitarra tem um nome, chama-se Mercedes e está pendurada por um cordel grosso e encardido, mais escuro ao centro, onde assentava o pescoço do meu avô. É do meu pai que ouço as histórias, a minha mãe guarda silêncios como vergonhas, já lá está, era um homem difícil e muito doido, diz-me ela. O avô Pintinhas não era de andar por casa e vive ainda pelas ruas, mais do que por cá.
Conheço bem os passos do meu avô, as ladeiras e os becos onde se encostava para dormir, os homens que lhe ampararam quedas e humores, “este é neto do Pintinhas” dizem uns para os outros, depois riem e dão-me palmadas nos ombros e oferecem copos de aguardente. Eu recuso e riem ainda mais, “Deixa lá, que só de herança hás-de ter que não te falte.” Na tasca do Artur uma outra foto assinada, Rio de Janeiro, 1954, dois anos antes de a minha mãe nascer.
Dizem-me que os dedos dançavam mais do que tocavam, corriam pelo pescoço da Mercedes, acima e abaixo, em festas loucas que trocavam os olhos à gente, meia dose de homem cambado pelos cantos, mas quando punha a guitarra ao pescoço, ai rapazes… era de valor. As mulheres então ficavam tontas naquilo, adivinhavam o que se escondia e era escolhê-las porque todas o queriam, ao Pintinhas não faltava avio.
A minha avó era cantadeira de soirées, de uma família feita com os dinheiros do bacalhau e mercadorias finas, uma venda bem arranjada onde agora dançam mulheres a mostrar vergonhas, parece pulha do meu avô. A menina tinha o gosto da música e cantava certa, com mais recato do que sentimento, uma voz afinada por outro tempo. Chamam-lhe coitada mas eu imagino-a feliz, menina embalada pela guitarra endiabrada do Pintinhas, quem pudera ter-se por entre tanto dedilhar?
Dizem que a enganou, como se fosse um mal, como se não procurássemos todos o engano que nos falta. O cigarro ao canto da boca, uma mão no bolso e a outra a segurar o queixo, um homem cheio de dedos.
Vou por aí e às vezes perco-me, assento algumas linhas num caderno e acabo sempre por encontrá-lo, anda por aí o diabo. Os registos que ficaram estão gravados em gente como ele, homens esconsos às cavalitas do passado, as vozes tremidas cheias de certeza, o teu avô, menino, cantava assim. O meu avô é eco nesta gente, e eu também sou, sombra de sombras, Mercedes das suas mãos. As mesmas paredes, o mesmo branco agreste da cal queimada nos olhos de tanto tempo. O meu avô, menino, vivia aqui.
Um dia veio um americano e perguntou por ele, levou-o para um estúdio da rádio e tocaram juntos. O americano elogiou-o com palavras que ele não entendia, convidou-o a ir com ele, para a América, “big success” dizia ele, o Pintinhas ria e encolhia-se como podia, América? E a minha Lurdes? No, América no…. E gravaram mais uma música. Foram as fitas para longe com palavras escritas à mão, “Danças no Peito”, “Amores, amores”. Foram as fitas e ficou ele, agarrado à aguardente, à Mercedes, e à sua Lurdes, avô que chegue para ruas tão estreitas.
E o Brasil, avô? E as mulheres, avô? E a Carmen dos cabelos pretos? A voz veio depois, as palavras depois. Um homem já ido, o chapéu tombado e um cigarro encostado à curva do riso. A guitarra já sem cordas, o negro descascado por entre os trastes onde os dedos inventaram sons. Agora pendurada, o avô pendurado com a loucura de ser ele, enganador, danceteiro, homens às voltas e agora não.
Os teus Brazis, avô, as tuas mulheres escuras, um copo de aguardente, homem torto pelo torto da vida, era assim, avô, serve esta voz? É assim que se fala? A Mercedes, avô, gota certa que escorre por entre nós, o som que és e nós não somos. As paredes lembram-te, cantam-te ou calam-te consoante a hora, como eu e nós, avô. Andas por aqui às pingas, a chover-nos em cima, como o tempo, avô.

(Texto escrito para a folha de sala da iniciativa "Fado no Museu" da Câmara Municipal do Porto)

25.7.11

Celeste

Eram sete homens loucos à volta de um homem são, e diziam adeus. Vestiam pijamas à volta dele, abraçavam-no, tocavam-lhe com as mãos e sorriam ou choravam. Ele chamava-os pelos nomes secretos que tinham, Jesus, Belzebu, Salazar, Sebastião, nomes de guerra e de ser louco, de fugir com as ideias de uma cabeça doente.
Ele de mala na mão, corpo direito e lágrimas verticais, “a seguir são vocês… Tu, Rasputine, tu também, Madalena, a seguir são vocês.”Cá fora a família que espera, alegria e medo, quem és tu agora que a nós voltas, por onde andaste, quanto de ti te resistiu? Olhos limpos a adivinhar o mal escondido nos pijamas e nas árvores do jardim.Ele dá dois passos e olha para trás, mais quatro e alguém corre até ele. Salomé puxa-o pelo ombro e abraça-o com um cheiro íntimo, “tenho uma coisa para ti, para que te lembres de mim e de nós, para que possas voltar se o dia não te quiser.” Uma pequena caixa azul na mão, “adeus, adeus.”Atravessa o pátio e o portão, cumprimenta a mãe, o pai e o irmão, um último aceno e entra no carro. A caixa em cima dos joelhos, uma música a tocar no rádio e o silêncio nos lábios. Os dedos percorrem as arestas azuis, lentamente, como um gatilho. Ele sabe o que vai dentro porque já lá viveu, alguém abriu e alguém fechou. Ele sabe, porque é ele que lá vai dentro.


(Publicado no Pnet Literatura:  http://www.pnetliteratura.pt/cronica.asp?id=3623)

22.6.11

Maria da Saudade

falta-me ver deus, falta
faltam-me dedos nas mãos
e lugares no corpo e alegrias
beijos azuis que não demos
nas nossas bocas encolhidas
o céu, sabes, o céu inteiro
sol e dias e outras manhãs
sons de festa e de começo
nós antes de nós e de tudo
quando o tempo sobrava
quando tu não eras noite
e eu ainda não te vestia 

29.5.11

Pré-publicação do primeiro capítulo de "No Meu Peito Não Cabem Pássaros"

Nova Iorque



– São quatro segundos, caro amigo, quatro segundos de afli­ção que não dão para um pai‑nosso. O amigo experimente, pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no PAM!, quatro segundos e o corpo despedaçado contra o cimento. Se quiser continuar a trabalhar aqui, invente uma oração, pense bem no que há‑de pedir ao altíssimo, mas que seja em menos de quatro segundos.
Dois homens pendurados por arneses a oitenta metros de altura. Os que trabalham dentro chamam‑lhes pardais com uma ironia desnecessária. Quarenta e oito horas semanais de equi­librismo pagas a quatro dólares, um bom emprego para quem acaba de chegar à cidade. A fome mata‑se muitas vezes com núme­ros de circo, ser equilibrista ou palhaço é só uma questão de oportunidade.
– Quando o mundo foi feito, os homens foram postos na terra de pés assentes e medo das alturas. Os homens não são do alto, como os pássaros e os anjos, a vertigem foi‑nos dada pela natu­reza para que não o esquecêssemos. Os homens que sobem dema­siado alto são puxados para baixo pelo diabo, para baixo de tudo, para o inferno que procuram. A força da terra é força do diabo a chamar gente.
Karl tenta não ouvir o colega, concentra‑se na janela e no rodo que faz deslizar com precisão. Este é o primeiro dia de trabalho e ensaia um desvelo que não lhe é comum. Por entre os movimentos do braço e o chiar da borracha contra o vidro, há palavras que lhe chegam e ficam às voltas na cabeça. Céu, cimento, diabo, inferno. Karl nunca esteve tão longe do chão em toda a vida, pouca gente esteve. As montanhas do seu país são uma coisa diferente, altas, sim, mas vão subindo devagar. Esta parede é demasiado vertical, como o degrau infinito de uma escada absurda, um degrau que é fácil descer.
– Eu não hei‑de cair enquanto o mundo não se virar. Não há diabo que chegue ao santíssimo. Há quase um ano que trabalho nisto e deus nunca me deixou cair, um homem deve precaver‑se e foi o que fiz. O pastor deu‑me na mão uma pena de anjo, uma pena às cores de um anjo que o foi ver, e eu trago‑a cosida ao peito. Esta pena é de puxar para deus. «Cose‑a ao peito e nada te pode deitar abaixo, o coração há‑de puxar‑te sempre para cima enquanto a trouxeres contigo.» Foi o que me disse o pastor antes que eu aceitasse este trabalho. Uma parte do ordenado vai para a igreja e mais que fosse, o favor de deus não tem preço e até os pardais podem cair sem penas de puxar para cima.
Tremem as pernas a Karl de frio ou medo, a esta altitude não há diferença. O vento anda com eles de manhã à noite, como um cão vadio que não tem para onde ir e se mete pelas pernas de quem trabalha. Karl dá por si a inventar orações, é um exer­cício difícil, reduzir a algumas frases tudo o que se quer pedir ao criador. Por fim decide‑se e repete para si mesmo «Perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor, perdoa‑me senhor...», a fórmula é simples e tem a vantagem de poder ser usada também em que­das pequenas.



10.5.11

Poemas e Pardais

As galinhas vêem o vento. É verdade, disse-me um dia um velho.
Disse-me também outras coisas, umas em que acreditei, outras que já esqueci.
A tristeza que temos não nos pertence só a nós, é tristeza de toda a gente.
Disse-me que somos fracos e que em vez de a soprarmos, como os outros sopram, nos pomos a escrever poemas, é assim que nos perdemos. Fazemos a escritura da tristeza e depois… meu amigo. Foi o que ele disse… meu amigo.
Todos os pássaros sabem voar, disse ainda, mas as galinhas são finas… ao ver o vento viram os bicos para baixo e fingem procurar grãos de milho, ou minhocas, ou coisas pequenas que vivem na terra. Os pardais que se lixem se querem tanto voar.
Elas vêem o vento e andam gordas, os pardais é que não. 

8.5.11

É Tarde

Os olhos fixos no que há-de vir. Um amigo, uma mulher, um nome. É tarde, é hora de outras coisas, hora de ser outro e de ter outra vida. Mas estou aqui, com o luxo atrasado de perder-se um homem, no tempo, no resto de alegria que aqui guardo.
Vamos para minha casa ou para longe, onde havemos de rir? Não há um lugar exacto para nós. Podemos ser o que quiseres, quase tudo, quase o que esperámos.
Faz assim, ama-me assim… quase que te apanhei. Não, não faças isso, não ames a estas horas. 

21.4.11

Vamos aos Segredos



Vamos aos segredos com uma cesta
calça os pés e põe o melhor cabelo
vamos de passeio às cores de hoje
fazer buracos em amigos e flores
Se tu quiseres dou-te um beijinho
e digo-te coisas novas com a língua
coisas que voam e são vermelhas
ou azuis ou quentes ou com as mãos
Apanham-se com espantos e amor
vivem por baixo de nós às vezes
quando dançamos em cima deles
e fingimos que não lhes ligamos



9.4.11

País

Portugal é como uma bonita bandeira de Portugal ao vento. Um pedaço de pano impresso que estremece e se esfiapa até ser só o pau onde um dia o penduraram. 

6.4.11

Acordar um Dia XLIV

Acordar um dia entregue a um futuro incómodo. Os que hão-de vir, o mal escondido que aqui anda, a podridão de sermos estes aqui agora.
Andam a foder-me os sonhos, os lindos sonhos que eu insisto em praticar. Flores, sol, mulheres, palavras, dedos, mar, dinheiro e fome. Coisas lindas e coisas estragadas, os sonhos fodidos. Porra para eles, porra para nós, porra para isto.
Acordar um dia sem mais, comigo, connosco, com o pouco de bom que ainda guardo. Os senhores dão-me licença que sonhe sem vós? Os senhores dão licença que vos mande à merda? Muito agradecido. Eu sei que é pouco e triste e não contenta, mas é a minha vida, queria-a simples e asseada, descalcem-se antes de entrar, calem-se antes de entrar, matem-se antes de entrar. Muito agradecido. 

30.3.11

Avesso

A palermice de um corpo aqui deixado
de mãos e pernas com cabeça em cima
Sentes? Sinto, vamos cantar ou morrer
dar pulos ou dormir por muitos anos
Vou fazer assim e dizes que me amas
os dois ao poço, um corpo e um corpo
Dedos e boca e cabelos e pele e sangue
um novelo de gente com outra gente
Bichos, estrelas mancas ou cadentes
buracos por onde nos enfiamos a dois
A cair um dentro do outro, um e um
dentro de nós, no lindo avesso de nós
Do outro lado disto, onde se é ou não
se é, onde nada nos saiba alcançar 

23.3.11

País Menino

País assim, que chora e faz chorar no colo, nós nele, ele em nós por onde menos o queremos, onde menos falta faz. De brincar e atirar ao ar, upalalá, país bola e cavalinho. Quem é o meu menino? Somos todos polícias e ladrões, corremos uns atrás dos outros, uns dos outros, todos maus, todos bons, todos a fingir sei lá o quê, sabemos lá nós. País pai pátria mãe, filho mimado da gente, a correr sem pernas nos cueiros encardidos de tanto tempo, demasiado tempo. Não mexas no mundo que está cheio de porcarias, não vás para fora que te levam, vem o estrangeiro e rouba-te para longe de ti e de nós, para o tempo deles, para amanhã, não vás, não vás. Não vamos.

13.3.11

Lonjura

O tempo é velho, a noite é
velha também, o verbo gasto
de estarmos aqui antes de tudo
Esta mão tem anos e dedos e eu
não sei o que tocou nem de quem
foi a mão que me segura o braço
Os nossos corpos vieram cumprir
danças e sede e martírios doidos
As nossas pernas caminhos de
lonjura que os olhos não
vêem, não podem, não
sabem como medir

7.3.11

matei-me muitas vezes



matei-me muitas vezes por
pensamentos e omissões
mortes mínimas de nada
solucinhos de tédio vindos
de onde nascem os saltos
e os sustos e o mau amor
as vezes que me fiz ao mar
depois de não ter comido
as laranjas de prata e ouro
que afinal eram de noite

1.3.11

Acordar um Dia XLIII

Acordar um dia como deus manda. Os dez mandamentos na agenda e um coração pio como de ave o canto.
Depois aquilo, e ele a rir-se, o cabrão… Que me perdoe o altíssimo, mas ficou tudo fodido, tudo assim mesmo, sou eu que o digo.
Amei-me a mim, mais do que tudo, praguejei até ficar rouco, e nem quis saber se era domingo. Insultei-lhe a mãe e o corno do pai e depois matei-o, o espigão da sachola bem enterrado no olho esquerdo enquanto o direito me olhava com pouco querer.
Fui a casa dele e tratei-lhe da mulher, levei o dinheiro que encontrei e disse-lhe que esperasse o marido caladinha, prometi-lhe mais para cedo e decidi que aquela casa haveria de ser minha.
É afinal o mal das listas e dos domingos na província. 

21.2.11

Arte Poética I


Atira o televisor do alto da cabeça,
Os jornais também, mesmo os bons
Os amigos chatos e alguns dos outros
Amor à pátria, ao clube e ao partido
As notas maiores que tiveres no bolso
Guarda as moedas, sobretudo as pretas
Do emprego, só o que lhe é estranho
Do amor gemidos, dor e vontade
Faz aviões dos poemas alheios
Sopra-os com ideias e certezas
De ti pouco, só mão, sexo e olhar
O que te resta é poesia

12.2.11

Manhã

Que momento é este
em que tu de um lado
e eu de outro, daqui  
te vejo e me sossego
Vamos e vimos de tanto
lugar, abrigados num verbo
único que é segredo nosso
Somos bichos de ser assim
braços brancos onde a luz
que venha há-de poisar
Temos curvas dóceis de sono
e um desenho de pernas ocas
onde cabe tudo, até amor

11.2.11

desses que vão em cantigas

sou desses que vão em cantigas
doido e leve como homem vivo
um sem abrigo de ninguém de nada
entre mim e o vento fora e cá dentro
à espera das horas como outros do táxi
tenho bolsos cheios de mãos abertas
tenho um sonho doente que me sonha
como ruas me atravessam e olhos
me não vêem porque eu me fecho
vivo deitado na incerteza dos dias
e sinto nas costas e no sono leve
o palpitar de pernas e gente em cima
suspenso como pó nuvens ou fumo
mais do sopro do que dos dedos
um voo à espera de um pássaro

 
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