19.1.10

Acordar um Dia XXXVIII

Acordar um dia genuinamente bem disposto. Hoje uma boa percentagem das raparigas está mais bonita do que ontem, entre 10 e 20 por cento. De outras que nada se diga por segredos ou pirraça.

Hoje o sol deixou de ser uma entidade altamente especulativa e ao abrir do estore esperava já colado à janela com cara de garoto.

O homem da portagem assobiava e ria numa impossibilidade de dias normais. Ah essa gente das portagens.

Dias assim há-os às dúzias por todo o lado, mas quem tem tempo, quem se pode permitir o luxo dos dias bons?

14.1.10

Pela Rua um Homem

Um homem vai pela rua vai. Que se chame Pedro e trabalhe no comércio, numa pequena loja de cosméticos. Digamos que sim. Caminha pela rua e quer voltar a casa, são horas de voltar. Enquanto caminha recorda-se de uma cliente que atendeu nessa tarde. Uma cliente jovem e bonita que procurava uma cor de batom e não a sabia definir. Ela, a cliente, acreditava na necessidade absoluta dessa cor, mas não lhe sabia o nome. Pedro ficou a pensar nisso e depois pensou nos seus próprios absolutos para os quais lhe faltavam as palavras.

Ao passar pela porta aberta de uma casa velha, Pedro uma senhora de gatas que esfrega o chão, uma senhora a quem se pode chamar Conceição. A senhora Conceição faz assim, limpezas e arrumações. Trata do terceiro esquerdo, do terceiro direito e do segundo esquerdo. Mais as escadas e o hall de entrada. A manhã tinha sido do terceiro direito, casa dos Gouveia. Ele é advogado, ela a senhora Gouveia. Na noite anterior fez-se um jantar na casa dos Gouveia e hoje havia louça suja. Enquanto a senhora Conceição lavava a louça escorregaram-lhe as mãos e um prato. O prato caiu e fez-se em muitos pedaços de prato. A senhora Gouveia acorreu à cozinha e ficou a ver, depois começou a chorar muito. Desculpas e justificações não lhe estancaram o choro, talvez não fosse um pranto de prato, talvez fosse outra coisa qualquer.

Um choro de nervos, isso. A senhora Gouveia, um dia menina Sara, dizia a si própria que era assunto de nervos. Um prato partido não é morte de gente. Não. Quem se teria servido dele? Talvez o professor Antunes, amigo velho do seu marido, ou o Dr. Cândido, sócio da firma. Talvez tivesse sido a sua mulher, a quem a senhora Gouveia apanhara a meio do jantar a fazer olhinhos ao seu marido, o senhor Gouveia. Seja como for são certamente coisas de nervos, não é morte de gente.

O doutor Cândido está sozinho no escritório sentado à secretária. todos saíram e ele um livro sentado. O livro, escrito numa língua estrangeira, fala de coisas banais e é também banal o estilo com que foi escrito. Se alguém perguntasse ao doutor Cândido porque esse livro ele não saberia responder. O doutor Cândido está sozinho e de pouco vale entrar em fantasias.

28.12.09

Acordar um dia XXXVII

Acordar um dia todo novo, o sol também e o mundo. As pessoas não sabem nada e por isso comem e passeiam pelos centros comerciais como se hoje e ontem fossem palavras de subtrair. Não são.

Se alguém me perguntar eu digo coisas de rir e de ser feliz dentro. É dia de dançar nu com deuses amigos. De resto vai tudo como vai, que ninguém se sobressalte.

10.12.09

Pode-se muito bem enlouquecer por as coisas serem como são,

foi o que aconteceu visto daqui agora. A vida e está.

Nãomais frio que arrepie, nãomais nada que doa.

Um louco faz o que pode e vai andando por como

os outros andam, a rir, a comprar a lotaria e a fazer

festas aos meninos que são bonitos, tão bonitos os meninos.

A loucura deve ser muito triste vista de fora.

Um homem vazio enche-se de coisas doidas às voltas

e não há rezas que valham um insorcismo.

Diabos velhos espreitam os corpos desabitados,

é assim que o mal acontece, assim elas mordem.

Uma mulher que gostava de amar furou um homem,

foi por ali à vida dela, pediu silêncio e compreensão.

A vida é engraçada e toda cheia de variedades.

O pior é o inverno e o resto, o resto é que é o diabo.

27.11.09

Todo cheio de espinhas

Todo cheio de espinhas

o corpo e o resto, a vida e tal.

Todo a arder sem beijos nem gente.

Aqui dentro vive-se mal

e lembra-se muito outro tempo.

A noite pode ser uma amiga nua,

uma amiga nua também.

Alguém me segure este nada

que eu volto num instante dos meus.

Se alguma coisa me chamar

eu vou e fico lá, a viver

para o boneco e a fazer assim.

Quem me agarra, cara linda?

9.11.09

Acordar um Dia XXXVI

"quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já
sabemos de cor"

Acordar um dia com o inferno dentro da gente, virar-se para o lado e abrir os olhos e abrir a boca.

Anda menina, vem ver o inferno a arder”.

Ao lado não dorme ninguém que saiba rir do apocalipse, fica tudo suspenso.

Viver é andar todos os dias à caça de gente e a fugir da dor.

Anda menina, anda ver o que por aqui vai”.

Por dentro está tudo feito em carvão, nãonada que sirva.

Ando há muito tempo amigado com o diabo. Vai de retro Satanás, um dois, dois passinho para o lado, três quatro, uma volta pela esquerda, palminhas mãos ao ar.

“A dor dança-se assim, menina”.

3.11.09

Nota Pessoal

Estamos em Novembro de 2009 e a vida é muito fraca às vezes.

Partiram o muro de Berlim, inventaram a Internet, foi descodificado o genoma humano e aos domingos de manhã eu acordo com uma tristeza inaudita.

Nem a construção europeia me sabe curar as ânsias. Se eu tivesse tido uma infância com ditadura seria tudo mais fácil, assim é só isto, paz, pão, democracia e a porra dos domingos de manhã.

31.10.09

Rua Escura I



cães escuros a lamber os cantos da cidade,

línguas ásperas feitas às pedras e ao resto.

Manda os olhos e o medo por onde os pés não vão,

vidas por todo o lado.

abrigos órfãos de luz

onde a solidão se come às mãos cheias

e se canta baixinho para não acordar os vivos.

fomes que se matam escondidas.

As vozes e o querer dobram esquinas, a luz não.

De dia é fácil ser homem por entre os homens,

o dia é avenida do tempo, rua direita.

À noite o corpo tem pés ligeiros e surdos

e o tempo faz-se de muitas horas compridas.


(Ilustração de Marco Mendes)

27.10.09

Cosmogonia

Num tempo antigo o mundo era todo feito de noite. A Terra era uma pedra escura parada e morta num lugar que ainda não existia.

Nesse escuro sem fim o tempo durava muito tempo e os deuses jogavam à apanhada porque havia pouco mais que fazer.

Flávia era uma deusa e às vezes pegava na lua e corria pelo mundo alumiada pela sua luz frágil. Flávia gostava de saltar e de rir sozinha porque atrás dela vinha sempre Damião, também ele um deus que pendurava o sol na ponta de um pau e se apaixonava por Flávia porque pouco mais havia que fazer.

Uma dessas vezes em que Flávia corria, a lua estava nova e ela tropeçou na terra e caiu. Flávia rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os mares, as plantas, as mulheres e o invisível.

O deus Damião assustou-se ao deixar de ver Flávia e atirou o sol para a frente, o mais longe que pôde numa vontade grande de a encontrar. A luz fugiu-lhe e também ele tropeçou na terra e caiu. Damião rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os rios, os animais, os homens e os poetas.

Flávia e Damião foram os pais da terra e de tudo o que é. Flávia continua ainda hoje a fugir e Damião a correr atrás dela. É por isso que o sol vai sempre atrás da lua, que os rios procuram o mar, os animais as plantas e os homens as mulheres. É também por isso que os poetas não sabem da felicidade.

 
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