10.12.09

Pode-se muito bem enlouquecer por as coisas serem como são,

foi o que aconteceu visto daqui agora. A vida e está.

Nãomais frio que arrepie, nãomais nada que doa.

Um louco faz o que pode e vai andando por como

os outros andam, a rir, a comprar a lotaria e a fazer

festas aos meninos que são bonitos, tão bonitos os meninos.

A loucura deve ser muito triste vista de fora.

Um homem vazio enche-se de coisas doidas às voltas

e não há rezas que valham um insorcismo.

Diabos velhos espreitam os corpos desabitados,

é assim que o mal acontece, assim elas mordem.

Uma mulher que gostava de amar furou um homem,

foi por ali à vida dela, pediu silêncio e compreensão.

A vida é engraçada e toda cheia de variedades.

O pior é o inverno e o resto, o resto é que é o diabo.

27.11.09

Todo cheio de espinhas

Todo cheio de espinhas

o corpo e o resto, a vida e tal.

Todo a arder sem beijos nem gente.

Aqui dentro vive-se mal

e lembra-se muito outro tempo.

A noite pode ser uma amiga nua,

uma amiga nua também.

Alguém me segure este nada

que eu volto num instante dos meus.

Se alguma coisa me chamar

eu vou e fico lá, a viver

para o boneco e a fazer assim.

Quem me agarra, cara linda?

9.11.09

Acordar um Dia XXXVI

"quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já
sabemos de cor"

Acordar um dia com o inferno dentro da gente, virar-se para o lado e abrir os olhos e abrir a boca.

Anda menina, vem ver o inferno a arder”.

Ao lado não dorme ninguém que saiba rir do apocalipse, fica tudo suspenso.

Viver é andar todos os dias à caça de gente e a fugir da dor.

Anda menina, anda ver o que por aqui vai”.

Por dentro está tudo feito em carvão, nãonada que sirva.

Ando há muito tempo amigado com o diabo. Vai de retro Satanás, um dois, dois passinho para o lado, três quatro, uma volta pela esquerda, palminhas mãos ao ar.

“A dor dança-se assim, menina”.

3.11.09

Nota Pessoal

Estamos em Novembro de 2009 e a vida é muito fraca às vezes.

Partiram o muro de Berlim, inventaram a Internet, foi descodificado o genoma humano e aos domingos de manhã eu acordo com uma tristeza inaudita.

Nem a construção europeia me sabe curar as ânsias. Se eu tivesse tido uma infância com ditadura seria tudo mais fácil, assim é só isto, paz, pão, democracia e a porra dos domingos de manhã.

31.10.09

Rua Escura I



cães escuros a lamber os cantos da cidade,

línguas ásperas feitas às pedras e ao resto.

Manda os olhos e o medo por onde os pés não vão,

vidas por todo o lado.

abrigos órfãos de luz

onde a solidão se come às mãos cheias

e se canta baixinho para não acordar os vivos.

fomes que se matam escondidas.

As vozes e o querer dobram esquinas, a luz não.

De dia é fácil ser homem por entre os homens,

o dia é avenida do tempo, rua direita.

À noite o corpo tem pés ligeiros e surdos

e o tempo faz-se de muitas horas compridas.


(Ilustração de Marco Mendes)

27.10.09

Cosmogonia

Num tempo antigo o mundo era todo feito de noite. A Terra era uma pedra escura parada e morta num lugar que ainda não existia.

Nesse escuro sem fim o tempo durava muito tempo e os deuses jogavam à apanhada porque havia pouco mais que fazer.

Flávia era uma deusa e às vezes pegava na lua e corria pelo mundo alumiada pela sua luz frágil. Flávia gostava de saltar e de rir sozinha porque atrás dela vinha sempre Damião, também ele um deus que pendurava o sol na ponta de um pau e se apaixonava por Flávia porque pouco mais havia que fazer.

Uma dessas vezes em que Flávia corria, a lua estava nova e ela tropeçou na terra e caiu. Flávia rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os mares, as plantas, as mulheres e o invisível.

O deus Damião assustou-se ao deixar de ver Flávia e atirou o sol para a frente, o mais longe que pôde numa vontade grande de a encontrar. A luz fugiu-lhe e também ele tropeçou na terra e caiu. Damião rompeu-se em mil pedaços que caíram sobre a terra. Dos seus bocados formaram-se os rios, os animais, os homens e os poetas.

Flávia e Damião foram os pais da terra e de tudo o que é. Flávia continua ainda hoje a fugir e Damião a correr atrás dela. É por isso que o sol vai sempre atrás da lua, que os rios procuram o mar, os animais as plantas e os homens as mulheres. É também por isso que os poetas não sabem da felicidade.

22.10.09

O Coração à Frente

A vida, a morte, mais os amores e o que nos parta.

A gente na rua, a gente em casa, a gente que somos.

O coração à frente, como numa pega ou um primeiro amor.

Com o depois a vir depois, frio e morto visto daqui.

O último a mergulhar é uma coisa velha.

O mar não nos mata porque sabemos morder,

sabemos rir e sonhar o que o mar não sabe.

A dor vem amanhã ou depois, vem sempre,

vem porque tem de vir, sente-se nos pés

quando o salto é grande. No fundo do peito às vezes.

A dor é uma voz do corpo de quem salta.

O coração à frente, como quem canta.

O bem que nos chega é sempre pouco

para o mal que nos espera.

Vamos hoje fazer tudo o que nos falta,

música, amor, dádivas e tempos felizes.

Somos ainda tudo o que podemos ser,

somos ainda tantos, como os vivos.

Alguém que berre e partimos,

o último a mergulhar é uma coisa velha.

18.10.09

Acordar um dia XXXV

Acordar um dia que é domingo por todos os lados.

Nestes dias as casas vingam-se, as paredes tomam liberdades inusitadas.

Aos domingos, certos domingos, são as casas que nos habitam.

Alguns homens vão à missa, ondeCristo e cantigas mas não há salvação.

O domingo é um bom dia para se ser cão ou criança, a esses nãoquem os engane.

15.10.09

La Nave Va

Nunca se perde tudo, não é? Nunca se tem tudo não é?

Guarda, guarda quanto sto bene... adesso senza un braccio, senza cuore, senza un perché, cosi leggero, leggero...

O silêncio é grande calado em muitas línguas, parece escolha, um modo de não ser nada em lado nenhum.

La vita è sempre da un’altra parte, dopo l’angolo, dopo domani, dopo di me.

Nada de tragédias moço, não é assim que as coisas são? Os cacos são mais resistentes do que o prato, os santos que ajudam, a entropia aos pinotes.

Um homem sai à rua com uma manga vazia e há quem tenha pena do maneta, assim tão novo, assim coitado. Ninguém se lembra de chorar o braço que ficou em casa em manguitos sem fim. O pior de tudo é ainda aquela comichão no sovaco.

La nave va, venite, venite che partiamo verso un giorno migliore.

De toute façon, d’ici on peut bien imaginer la mer.

 
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