7.10.09

Πηνελόπη

Uma janela sempre aberta ao som do vento. O vento sabe empurrar o tempo, trazer o tempo para perto, onde ele é mais preciso.

O ar soprado toca o corpo sem pudor, sem perguntas. Dedos de um deus distante que um dia inventou arder.

Neste quarto antigo nãodias depois dos dias, nem tempo há neste lugar. Este quarto não é um sítio, choro e dor sem corpo.

Um grito a favor do vento chega onde quer chegar, vento também, sopro de dentro para fora.

À noite os corpos feridos não precisam de boca para falar.

6.10.09

Procura-se III


Coisas que se procuram:

- Sonhos todos novos, por estrear.

- Uma memória com um botão "Apagar" e outro "Escrever por cima".

- Gente como a gente.

- Algum tempo para tratar de assuntos.

- Aquela música que um dia me mostraram e eu já esqueci a letra e a melodia e a cor dos olhos dela.

- Os dias em que os discos tinham um lado B.

Pede-se o favor de responder com um aceno discreto à entrada ou à saída de qualquer coisa.



5.10.09

Cadernos de Perda

O deixado cai num poço que lhe pertence, um poço com nome.
Quem deixou fica lá longe à tona, à altura do mundo.
O deixado faz-se ridículo, esbraceja e grita como um boneco.
No olhar estrangeiro de quem deixou não há luz nem há já nada.

A pena é também distância, como a dor e duas pessoas.

4.10.09

Acordar um Dia XXXIV

Acordar um dia sem ter dormido.

De manhã a vida que tenho não me serve para nada, pelo menos hoje, pelo menos para mim.


2.10.09

Niña en Forma de Recta

La verdad es que ya no era una niña. O mejor, sí, era una niña. Había permanecido así cuando todos los demás habían olvidado lo que eran. Acaso alguien haya dicho "Ella es como es”, y tenía razón.

En cuanto aprendió a mirar decidió hacerlo tan sólo en una dirección, al frente. Todo lo demás era intuido, imaginado, conocido sin necesidad de verlo con sus ojos de mirar al frente. El afuera, el otro, lo diverso, eran para ella un mundo probable y rumoroso hecho de cosas y personas extranjeras, habitantes fantasmas de una realidad que no era la suya. Su mundo estaba allí, ante los ojos claros, sus ojos ceñudos, enfocados en una distancia que no se ve sólo con mirar.

Para la niña todo era simple y recto, lineal. Una variable de partida, otra de llegada y un pendiente personal; no existía nada más. Los que cruzaban su carretera eran para ella pequeños puntos, la intersección de una curva (la curva de una vida hecha de caprichos) y su recta. Los ríos no avanzan rectilíneos porque están condicionados por montes y valles que no saben ignorar, pero la niña cavaba los montes y construía puentes en los valles que no veía, que para ella no existían.

La distancia más corta entre dos puntos es un enorme anhelo. Un anhelo sin distracciones, un anhelo que no baila, que canta siempre la misma música de los días. El resto es espuma y tiempo perdido, un mar parado que se agita sin razones. Le gustaba a la niña la tierra firme donde los pies no resbalan, donde el pasado queda atrás, marcado por las huellas.

El amor le sucedió dos veces a la niña, dos amores fugaces, amores de trazado(1). La primera vez que se enamoró fue de otra recta que condescendió en serle paralela, un amor a una distancia pequeña, pero no desdeñoso. La distancia entre dos manos que casi se tocan, día tras día, casi, siempre casi. La otra vez no le llamó amor, nadie lo hizo, fue un acontecimiento que no aconteció. Una sinusoidal la cruzó diversas veces hasta que se volvió anharmónica, dejando tras de si el trazado de un accidente.

La niña sigue la carretera que debe seguir y no llora y no canta. Quien mira al frente no tiene tiempo para pensar mucho. Una variable de partida y otra de llegada, un trazo recto, casi continuo, casi. Los puntos blancos no le pertenecen, son espacios y tiempos de otros que tal vez un día quieran rellenar. Los anhelos de los otros son anhelos de otros.


Uma bela tradução de Silvia Capón que também é culpada de escrever e o faz muitíssimo bem (textos aqui e aqui).

Para ela um obrigado e um abraço.

29.9.09

Coisas da Rua



Parar o próprio movimento e ficar ali, debaixo de uma velha canção dos Smiths que vem mais da memória do que do rádio. Sujeitar-se ao que de pior pode acontecer a certas horas em que a chuva não nos entende.

Quando o verde chegar pode ser já demasiado tarde.


(Ilustração de Marco Mendes, Now also in English)

27.9.09

Uma Fábula Eleitoral

Era uma vez, antes ou depois de agora, uma terra onde as pessoas viviam. Era uma terra abençoada por Deus e por outros, cheia de tudo o que se quer para viver e onde os dias seguiam tranquilos ao som de música e palavras doces. Nessa terra que se perdeu, os políticos eram homens notáveis e amados pelas populações. As sucessivas gerações de estadistas foram aprimorando os caracteres e assim se criou uma elite virtuosa capaz de satisfazer as necessidades e os desejos dos eleitores.

As pessoas perceberam então que com uma tal classe dirigente não fazia sentido que fosse o povo a escolher os políticos, deveriam ser estes a decidir que gente representar. Assim começaram as campanhas, os diferentes povos mimavam os políticos, faziam-lhes promessas, beijavam-lhes os filhos e davam-lhes presentes. Todos tentavam convencer os grandes líderes, aliciando-os para que os escolhessem a eles como súbditos. Nenhum povo olhava a meios para ganhar os favores de um dos iluminados.

Este sistema durou algum tempo e segundo alguns estudiosos foi a causa do declínio dessa terra. Nos registos de época encontram-se artigos e crónicas em que os líderes, embora louvando os méritos de um tal sistema democrático, explicavam que o problema não era das eleições, mas sim dos povos que eram sempre os mesmos.

22.9.09

Procura-se II

Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.

19.9.09

Menina em Forma de Recta / Bambina in Forma di Retta

Menina em Forma de Recta

A verdade é que não era uma menina. Ou melhor, sim, era uma menina. Tinha permanecido assim quando todos os outros se haviam esquecido do que eram. Alguém terá ditoEla é como é” e tinha razão.

Assim que aprendeu a olhar decidiu fazê-lo apenas numa direcção, em frente. Tudo o resto era intuído, imaginado, conhecia-o sem precisar de o ver com os seus olhos de olhar em frente. O fora, o outro, o diverso, eram para ela um mundo provável e rumoroso feito de coisas e pessoas estrangeiras, habitantes fantasmas de uma realidade que não era a sua. O seu mundo estava ali, em frente aos olhos claros, os seus olhos franzidos, focados numa distância que não se com um olhar.

Para a menina tudo era simples e recto, linear. Uma variável de partida, outra de chegada e um declive pessoal, não existia mais nada. Os que cruzavam a sua estrada eram para ela pequenos pontos, a intersecção de uma curva (a curva de uma vida feita de caprichos) e a sua recta. Os rios não seguem a direito porque estão condicionados por montes e vales que não sabem ignorar, mas a menina furava os montes e fazia pontes nos vales que não via, que para ela não existiam.

A distância mais curta entre dois pontos é uma enorme vontade. Uma vontade sem distracções, uma vontade que não dança, que canta sempre a mesma música dos dias. O resto é espuma e tempo perdido, um mar parado que se agita sem razões. A menina gostava da terra firme onde os pés não escorregam, onde o passado fica para trás, marcado pelas pegadas.

O amor aconteceu duas vezes à menina, dois amores fugazes, amores de percurso. A primeira vez que se apaixonou foi por uma outra recta que condescendeu em ser-lhe paralela, um amor a uma distância pequena, mas não despiciente. A distância entre duas mãos que quase se tocam, dia após dia, quase, sempre quase. Da outra vez ela não o chamou amor, ninguém o chamou, foi um acontecimento que não aconteceu. Uma sinusoidal cruzou-a diversas vezes até que se tornou anarmónica, deixando atrás de si o traçado de um acidente.

A menina segue a estrada que deve seguir e não chora e não canta. Quem olha em frente não tem tempo para pensar muito. Uma variável de partida e outra de chegada, um traço direito, quase contínuo, quase. Os pontos brancos não lhe pertencem, são espaços e tempos de outros que um dia talvez os queiram preencher. As vontades dos outros são vontades de outros.


Bambina in Forma di Retta

La verità è che non era più una vera bambina. O meglio, sì, era una vera bambina. Era rimasta così quando tutti gli altri non sapevano più cosa fossero. Qualcuno avrà detto “lei è cosi com’è” e ha detto bene.

Dal momento in cui imparò a guardare, decise di farlo soltanto in una direzione, avanti. Tutto il resto lo intuiva, lo immaginava, lo conosceva senza doverlo vedere con i suoi occhi fatti per guardare in avanti. Il fuori, l’altro, il diverso erano per lei un probabile e rumoroso mondo fatto di cose e persone straniere, abitanti fantasmi di un mondo oltre, un mondo che non era il suo. Il suo mondo rimaneva li, davanti ai suoi occhi chiari, i suoi occhi stretti, focalizzati al di là di quanto si possa vedere con uno sguardo.

Per la bambina tutto era semplice e retto, lineare. Una variabile di partenza, un’altra di arrivo e una sua pendenza personale; non c’era nient’altro. Quelli che incrociavano la sua strada erano per lei piccoli punti, le intersezione tra una curva (la curva di una vita fatta di capricci) e la sua retta. I fiumi non vanno dritti perché sono costretti da monti e valli che non sanno ignorare, ma la bambina rompeva i monti e costruiva ponti sulle valli che non vedeva, che non erano per lei.

La distanza più corta tra due punti è una voglia immensa. Una voglia senza distrazione, una voglia che non balla, che canta sempre la stessa musica dei giorni. Il resto è schiuma e tempo perso, un mare fermo che si agita senza perché. Alla bambina piaceva la terra ferma dove i piedi non scivolano, dove il passato rimane dietro, segnato dalle impronte.

Per due volte l’amore accadde alla bambina, due amori veloci, amori di percorso. La prima volta che si innamorò fu per un’altra retta che acconsentì di esserle parallela, un amore a una distanza piccola, ma non trascurabile. La distanza tra due mani che quasi si toccano, giorno dopo giorno, quasi, sempre quasi.

L’altra volta lei non lo chiamò amore, nessuno lo chiamò, fu un avvenimento che non avvenne. Una sinusoide la intersecò diverse volte finché diventò anarmonica, lasciandosi dietro il tratteggio tipico di un incidente.

La bambina segue la strada che deve seguire e non piange e non canta. Chi guarda avanti non ha tempo per pensare troppo. Una variabile di partenza e un’altra di arrivo, una traccia dritta quasi continua, quasi. I punti bianchi non le appartengono, sono spazi e tempi di altri che un giorno potranno anche riempirli. La voglia degli altri è una voglia di altri.

 
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