14.9.09

Acordar um Dia XXXIII

Acordar um dia com uma erecção e nenhum desejo. Uma erecção inútil e vazia que se desfaz em lágrimas e em mais nada.

10.9.09

Procura-se

Pessoa de poucas falas e escassa presença.
Pessoa capaz de ser invocada por via de pouco: um reflexo azul, um cheiro a incenso, umas calças caídas no chão do quarto.
Pede-se o favor de responder com um nome e nada mais que um nome.

7.9.09

Mariana (Quarta e Última Parte)

A partir desse momento tudo mudou. Essa consciência do inevitável, da punição infalível, mudou a perspectiva e amainou exaltações. Estávamos juntos, para o melhor e para o pior, na vida (minha) e na morte (sua). Ela era como era e eu também assim, restava-nos baixar as cabeças e puxar o jugo. Talvez aprendêssemos a assobiar baixinho e a chorar como quem respira, sem pensar no gesto nem saber porquês.

Os tempos que se seguiram fizeram-se de compromissos. A voz da Mariana continuou estridente, mas tornou-se contida, quase serena. Começou também a cuidar a linguagem, evitando certas palavras e usando outras que me vai ouvindo. Deixou os lamentos e os protestos e passou a falar de coisas que sente, de memórias de infância e da aldeia que deixou um dia.

Por vezes dá-me conselhos e diz-me que está tudo bem, outras vezes fica ali calada a sorrir porque me pesa os cansaços. Em troca eu tento enriquecer-lhe os sonhos. Leio histórias românticas que são do seu agrado e sigo a telenovela das nove. Comecei também a perguntar aos meus colegas coisas da vida deles, dos filhos, das mulheres e os filmes que têm visto, ah, os filmes. Vamos ao cinema duas vezes por semana, ao início era um filme para mim (sem beijos) e outro para ela (sem complicações), ultimamente começa a ser difícil distinguir.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Depois foi o que se viu. Acabámos por nos tornar numa espécie de casal quase vulgar e quase feliz. Como tantos, não todos. Talvez gostemos mesmo um do outro, talvez tenhamos descoberto um tesão impossível e assim inesgotável. Talvez sejamos uma simbiose necessária de vida e morte, dia e noite, ser e não ser.

Se eu já pensei? Já. Um frasquinho de comprimidos às cores e a janela aberta para o gato procurar outra casa. Partiríamos os dois para mundos que não conhecemos. Pensei nisso várias vezes, mas tenho dúvidas. Desconfio do além e não me quero pôr nas mãos de Um Qualquer. E depois quem me garante que eu a encontro, que ela existe fora de mim? Que outro mundo me poderia servir se eu nunca cheguei a perceber este, assim finito e cheio de homens? Enquanto penso nisto o gato olha para mim. Ele que também sabe coisas.

5.9.09

Mariana (Terceira Parte)

Que diz um homem às cinco da manhã deitado na cama receando adormecer? Um homem que treme com medo de uma ex-prostituta ex-viva sem papas na língua e com deficiências gramaticais?

Um homem faz perguntas, perguntas que são só uma: Porquê a mim? De todos os clientes da Mariana Marlene, por que fora eu o escolhido para cumprir a punição? Que poderia justificar uma tal arbitrariedade?

Sempre fui um homem discreto, incapaz de incomodar Deus com ofensas ou rogos, e Ele respondera da mesma forma, sem nenhum milagre ou praga a assinalar, mas agora isto... Perguntei bem alto uma e outra vez, porquê eu? Não me dirigia ao Altíssimo mas sim à Mariana, se me ouvia em sonhos talvez se dignasse a responder numa próxima oportunidade. Por essa altura eu estava certo que haveria outras oportunidades.

A resposta chegou à tarde, durante uma sesta no gabinete. Incapaz de aguentar o corpo entreguei-o por breves instantes ao cadeirão em pele. Foi quanto bastou. “É que o Mário não sabe... posso chamar-lhe só Mário? Mesmo que não pudesse, eu chamo-lhe o que quiser e mais nada, olarilas. O que o Mário não sabe e nem adivinha é que foi o meu primeiro cliente, ah pois foi, o primeirinho... eu tinha vindo da aldeia, e nem sabia ao que vinha, foi o senhor Antunes é que tratou de tudo... um sabidão, um safardolas que conhecia mais desta vida do que o padre da missa, olarilas. Eu acabadinha de chegar da aldeia e ele a dar-me as roupitas de andar na vida. Tens de ir ver um senhor, fazes assim e assado e boca calada que ninguém te paga para andares a tocar corneta, ouviste minha linda? E eu lá fui e assim foi. O meu primeiro cliente... e olhe, antes o senhor que outro, que depois de si foram muitos e quase todos piores e mais porcos. Ao menos o senhor era de respeito, não sei se é da picha curta ou quê, mas pelo menos era de respeito...”

Fiquei esclarecido. Fiquei também desesperado e mortificado, mas esclarecido. Um gesto de fraqueza irreflectido, um número de telefone marcado e eis-me com a existência entrelaçada a uma mulher que eu tinha descartado juntamente com o tesão. São sempre os tesões a tramar as vidas dos homens. Uma pessoa estuda e trabalha e acredita em ideias e afinal a vida vai guiada por um pedaço de carne que não conhece a razão nem vontades que não são as suas.

(Continua)

4.9.09

Mariana (Segunda Parte)

Mesmo os sonhos mais acerbos acabam por ceder à realidade, ao sol, aos sons da manhã que entram desfocados pelos estores. Sim, é bem verdade. Não é verdade?

O duche lavou-me o suor fermentado no corpo e o café fez o mesmo a outros fermentos. Vesti-me rapidamente e entrei na rua como quem foge.


A manhã foi de uma banalidade irrepreensível e por alturas do almoço fui capaz de concentrar as angústias numa salada russa altamente suspeita. Foi um dia tranquilo e foi assim até ser tarde. Nunca antes me tinha apercebido das possibilidades felizes e purificadoras escondidas no tédio das aulas e das conversas. Caros colegas, caros alunos, moei-me as horas como quiserdes mas deixai-me a noite para sacudir migalhas.

Voltei para casa carregando um cansaço feliz. Feliz ou idiota, sinónimos de fim de tarde. no apartamento arrisquei o vagar. Meia hora de leituras (deveres e direitos dos sacerdotes na sociedade ateniense), uma pizza congelada, descongelada e engolida e um filme antigo sem surpresas nem desvios. Depois fui dormir, ousadamente fui dormir. Como se o sonho da noite anterior mais não fosse do que um sonho. E aqui fica intuída uma conjunção adversativa, a gosto...

Assim que os olhos se fecharam por dentro, apareceu novamente a abantesma. Meio fantasma, meio diabo, toda pânico e ranger de dentes. Não estava contente o animal... Subitamente após o nosso último encontro caíra num sono profundo do qual acabara de despertar. Também ela tinha sonhado muito, e que haveria de ter sonhado? (a pergunta era sua, não minha) jardins? Mares? Um homem forte e silencioso com medo de relações sérias? Nada disso! (a surpresa era sua, não minha). Tinha sonhado comigo. Não apenas comigo, Mário abstracto e arquétipo (palavras minhas, não suas) mas com toda a minha jornada, nos seus pormenores ínfimos e segundos fugazes. Tinha seguido as aulas, as conversas com os colegas e passado longas horas a ouvir as dúvidas frágeis dos alunos. Não estava contente o animal.

Eram muitas as suas queixas: a voz pedante que lhe dava ganas de um novo suicídio; os colegas idiotas que falam de livros, de filosofia e dos cus das alunas; o filme a preto e branco sem legendas nem beijos, e mesmo a porcaria da salada russa, que lhe tinha deixado um gosto a maionese estragada durante toda a tarde (a minha tarde). Seguiram-se mais berros, lamúrias e resmungos vários. Assim foi até eu me livrar do algoz graças a certas pressões da bexiga, abençoada seja e muitas vezes louvada. Eram cinco da manhã e foi o fim do meu sono. O medo e o amor-próprio mantiveram-me acordado e a falar sozinho enquanto esperava o sol.


(Continua)

3.9.09

Mariana (Primeira Parte)

Era uma pessoa humana, pois claro. Um dia foi encontrada na cama extremamente inconsciente. Morta até. Na cama acontecem muitas coisas importantes e definitivas. Nascimentos, amores e mortes. E nem vale a pena falar dos sonhos, quase nunca vale a pena.

A pessoa humana que o não era tinha um nome que poderia muito bem ser Mariana. Acredito que o fosse. Mariana é até um nome muito possível, é nome de pessoa que existiu e é um nome bom para recordar muitos anos depois. Não neste caso.

Eu não tinha memória da Mariana, mas tinha a lembrança de uma noite. Uma noite em que o seu nome era outro, talvez Marlene ou Tatiana, talvez outra coisa qualquer. Estivemos juntos durante cem euros, oitenta para ela e vinte para a pensão. Depois cada um seguiu o seu caminho e chamou-se como quis. Eu voltei a ser Mário, como sou quase sempre e ela foi sendo o que era antes do telefonema.

Agora algo sobre mim.

Eu estou vivo. Chamo-me Mário e sou professor de história nas horas que não são livres. Nas outras sou muito pouco, leio livros antigos sobre coisas ainda mais antigas e passeio por jardins de gente sozinha. Nas tardes de domingo às vezes vou pescar num riacho falho de peixes. Tenho a idade que tenho e vivo sem ninguém. As poucas mulheres com quem eu falo são pagas. Uma é a dona Lurdes que me limpa a casa e me passa a roupa dois dias por semana. As outras têm muitos nomes e encontram-se pelos jornais. Uma ou duas vezes por semana, às vezes menos, às vezes mais. Eu pago e falamos, pouco, que elas não estão ali para falar e eu também tenho os meus caprichos.

A Mariana apresentou-se há exactamente dois anos, mais ou menos. Dois dias depois de tomar uma embalagem inteira de comprimidos, mais ou menos. Bem sei que pode parecer estranho, mas é sobretudo incomodativo. Eu dormia um sonho meu, de voos, quedas e mulheres disformes, dessas que se sonham. De repente ela apareceu-me num fundo negro de direito de antena. Cumprimentou-me como se me conhecesse e desatou a falar. Falava muito, e falava de tudo. Eu sonhava apenas e não queria saber daquilo, mas a Mariana não é de subtilezas, entrou por mim adentro sem limpar os sapatos e disse o que tinha a dizer.

Falou-me de como tinha acordado num lugar escuro e vazio, vazio de gente. Falou-me do tédio daquilo tudo, de como não tinha fome nem sede e também das perguntas sem resposta. A Mariana sabia-se morta, mas não lhe parecia motivo suficiente para um tal tratamento.

A mulher não se calava e usava todas as figuras de estilo das conversas banais, numa retórica aprendida em autocarros e filas do talho. Uma noite inteira de triplas repetiçõesEu gritava, eu gritava, eu gritava...” de hipóteses e antítesesMas como é que eu morri? Como é que eu não morri?” De exemplos na primeira pessoa “É que eu se mandar uma pessoa para algum sítio não a deixo ali sem dizer água vai ou água vem...” e outros recursos afins. Foi a sua primeira aparição, foi horrível, foi desesperante, foi o início.

(Continua)

 
Add to Technorati Favorites Free counter and web stats