27.2.09

Acasos

Conheceu-a por acaso no terminal de um aeroporto internacional. Ambos os voos estavam atrasados e acabaram por conversar durante algumas horas. Foi também por acaso que se voltaram a encontrar dois anos mais tarde num supermercado. Embalados pela coincidência foram tomar um café e descobriram que vinham ambos de terminar relações longas e dolorosas. Casaram passados alguns meses e foram até felizes e tiveram até dois filhos e uma casa nos subúrbios.
Foi por acaso que ela voltou ao mesmo aeroporto sete anos depois. Mais uma vez havia um atraso e um companheiro de infortúnio, também ele com o voo atrasado e uma vida que se havia tornado monótona. Por esta altura ela, que do acaso já conhecia as manhas, poupou-se à espera e logo ali ficou combinado um encontro para a semana seguinte.

25.2.09

Dois homens e o vento

Faz muito noite. Também faz frio, chuva e vento, que vento. Dois homens trabalham na linha do comboio. Tanto um como o outro.

Primeiro Homem: Está frio!
Segundo Homem: Está frio e vento. Venta muito.
Primeiro Homem: Toda a gente sentada ao quente e nós aqui... E eu que nem sequer ando de comboio. Estas linhas não me levam para lado nenhum.
Segundo Homem: As linhas não levam ninguém.
Primeiro Homem: Se os comboios pudessem andar por todo o lado não eram precisas linhas. Havia mais liberdade e menos noites ao frio.
Segundo Homem: Mas podia-se ir parar a qualquer lado, um engano do condutor e ia-se parar a qualquer lado.
Primeiro Homem: Mas assim só se pode ir para a frente, para onde está escrito.
Segundo Homem: Se calhar chega bem, não há muita gente a querer ir para outros sítios. Vai-se para lá e pronto... para onde está escrito.
Primeiro Homem: Mas são precisas as linhas, e com este frio...
Segundo Homem: Frio e vento, venta muito.

24.2.09

Acordar Um Dia XVII

Acordar um dia e não dizer nada a ninguém. Ir por aí fora fazendo-se invisível e imortal. Voar por cima das casas de olhos fechados. Mover algumas nuvens e outras coisas fundamentais. Descer à terra e seguir a vida com falsa modéstia.

22.2.09

Volumetria

Ele tinha as suas coisas e ela também tinha as suas coisas. Cada um deles tinha também verdades e pontos de vista, como toda a gente tem tantos. Viviam em permanentes tangências dos seres, ou das suas coisas. Mais raramente do resto. É uma história como as outras mas com menos espaços, pouco mundo e muita bagagem.
Os dois corpos encolhiam-se, torciam-se e incomodavam-se por entre caixotes cobertos de pó e cadeiras sem uma perna. Às vezes esticavam um braço com esforço e afloravam com os seus os dedos do outro, outras vezes não. Aquilo só parecia mal a quem olhava de fora. Ninguém olhava de fora. Não havia de fora. O espaço que tinham era todo dentro e enrolava-se por entre as pernas todas. Ela cantava baixinho e ele talvez cantasse também, músicas simples e só o refrão. Afinal não havia motivos para grandes exaltações.

20.2.09

De Inisi Afa

A recente publicação em língua portuguesa das mais representativas obras de Inisi Afa, importante escritor Melanésio, vem finalmente permitir ao público lusófono o conhecimento de um curioso caso de singularidade literária. Inisi, filho dos amores furtivos de um missionário escocês e de uma nativa da ilha de Makira, apreendeu o conceito de alfabeto através de uma bíblia deixada à pressa na cabana de sua mãe. Desde tenra idade Inisi dedicou-se a desenvolver um sistema de símbolos que lhe permitisse registar por escrito o seu dialecto, até esse momento apenas de expressão oral. Uma vez completada tal tarefa, Inisi começou a criar algumas das mais originais obras da literatura mundial.


O seu primeiro livro, escrito nas entrelinhas da referida bíblia, tem por título “Nos dias pequenos às vezes temos fome” e poder-se-ia qualificar como um relato naturalista “avant la lettre” em que este descreve as contingências económicas que provocavam violentos conflitos entre as diversas tribos do território. Numa passagem inesquecível Inisi descreve com pormenor o processo pelo qual as cabeças dos inimigos capturados eram reduzidas e penduradas em pontos estratégicos da ilha. Já neste primeiro manuscrito é notória a sua capacidade para expressar os sentimentos de descontentamento e de revolta existencial tão característicos da sociedade Melanésia do sec. XVIII.


A segunda obra apresentada nesta edição tem por título “Fui pescar um peixe grande grande” e é um notável relato em fluxo de consciência de uma jornada de pesca solitária. Inisi convida-nos a partilhar da sua percepção e faz-nos acompanhar as preocupações, os desejos e as fantasias de um pescador simbólico em busca de um “peixe grande grande”.


O último volume agora traduzido é por muitos considerado como a obra-prima deste autor, o magistral “O regresso dos cabelos vermelhos” é uma distopia poderosa em que o autor imagina um mundo futuro dominado por personagens omnipotentes e cruéis de cabelos ruivos. Nesta utopia negra, Inisi descreve uma sociedade transformada e radicalmente oposta aos valores e tradições que conhece. O autor imagina uma realidade onde o tempo é controlado por mecanismos e não pelo sol, os homens são obrigados a caçar para outros homens, os corpos são presos em tecidos de cores escuras e todos os deuses morrem ficando apenas um, desconhecido pelas gentes da ilha. É uma escrita angustiada e assaltada por assombros filosóficos que revela um autor maduro preocupado com os destinos da sua cultura e da sua colecção de cabeças encolhidas (maravilhosa metáfora).


Esta tripla edição constitui um documento fundamental que vem consubstanciar a teoria do famoso crítico literário Kapi Popol, segundo a qual a literatura europeia dos finais do século XIX e inícios do século XX é originalmente um produto importado da Melanésia conjuntamente com a copra, o cacau e a kava.

19.2.09

Porque me olhas assim?

É verdade que ela era bonita e inteligente, que tinha uma carreira de sucesso e conhecia toda a gente. O corpo era perfeito, tinha uns belos cabelos pretos e vestia-se com extrema elegância.
É verdade que eu sou feio e careca, que tenho a barriga flácida e os dentes maltratados. Bem sei que sou desajeitado, que tenho tendência para a misantropia e não arranjo um emprego certo. Mas porra!

18.2.09

Acordar Um Dia XVI

Acordar um dia sem ter a certeza. Pedir por sonhos e palavras que venha alguém e me desperte.

16.2.09

Intercessão

“Eu não sei nada de telhas acima, mas se o amigo se lembrar diga um Pai Nosso por mim que eu andei muito de mal com ele”. Disse-me estas antes de o levarem dali para fora aos empurrões. Não exactamente aos empurrões, mas com os movimentos precisos e indiferentes de profissionais de mudanças. Agora estás aqui a pedir Pais Nossos e agora vais para onde te queremos nós, alguém por nós ou o outro das rezas. E vais de rodinhas. De quando aqui entras passas a ser deitado, se sais de pé ou não, é coisa que não sabemos, fala lá com o outro se ele ainda lá estiver.

Eu tentava lembrar-me das palavras mas não conseguia passar do “assim na terra como no céu”, por isso disse-o muitas vezes como se fosse um mantra. “Assim na terra como no céu, assim na terra como no céu”. Eu também não sabia nada de telhas acima e suspeitava muito das palavras. Que doesto lhe haveria feito o pobre homem? Que resposta lhe haveria dado o outro? Eles que se entendessem que eu nem o Pai Nosso sei de cor. Pedir-me assim uma cunha de tanta responsabilidade era coisa irreflectida, “assim na terra...”. Devia-lhe ter pedido o mesmo, “diga-lhe um Pai Nosso por mim que eu nem sequer o conheço”, quem lá chegar primeiro que amanse a fera e trate do arranjinho, “há-de aparecer aí um amigo...”, era o que eu devia ter feito.
Afinal de contas, mais cedo ou mais tarde... e de rodinhas.

14.2.09

Comportamentos

Na belicosa tribo dos Salué é tido como bom augúrio encontrar um Tapapi sozinho de manhã pela floresta. Tal visão é particularmente auspiciosa sempre que o Salué em causa não tenha decidido ainda o que preparar para o almoço.
Já na precavida cultura dos Tapapi considera-se que a aparição de um Salué em tais circunstâncias constitui um péssimo presságio. Para o poderem anular, os Tapapi transportam frequentemente um poderoso amuleto que consiste numa catana ligeiramente mais afiada do que permite a tosca tecnologia dos Salué.
O povo dos Pabis, arbóreo e discreto por natureza, observa estas movimentações terrenas com um misto de diversão e displicência. Afinal, tudo quanto possa acontecer está já inscrito nas nervuras das folhas com que se alimentam.
(Incluido no último número da Minguante)

13.2.09

Trajecto

Entrei e sentei-me no lugar do costume. Não estava mais ninguém e aproveitei para passear os olhos por um livro pouco exigente. Ainda não havia chegado a metade da página quando vi aproximar-se uma senhora de meia idade com os cabelos pintados de cor de senhora de meia idade. Sentou-se a meu lado e apresentou-se, “boa tarde, chamo-me Isabel”. Começámos a falar do livro e tentei explicar-lhe de forma simples a história que eu próprio ainda não havia compreendido. Perguntou-me se costumava ler muito e pediu-me algumas sugestões, “algo ligeiro que faça esquecer por momentos uma tarefa pontual de relativa importância...”. A conversa seguia de forma natural (mesmo nas suas perplexidades) quando chegou um casal jovem sorrindo uma cumplicidade precoce.

O Pedro e a Joana sentaram-se à nossa frente e começaram a falar do apartamento para onde se tinham mudado há escassas semanas. Tinha problemas de canalizações, uma divisão pequena para a qual ainda não tinham função e uma varanda onde batia o sol antes de se pôr. Eram um casal simpático e intercalavam o discurso com pequenos apartes não orais de intimidade provocatória. Foram chegando mais pessoas, o senhor António de Almeida, recém divorciado e à espera de uma promoção; a Sara, que frequentava o primeiro ano de uma licenciatura de inquestionável modernidade; a família Pinto com o periquito Daniel e finalmente a dona Ana que entrou perseguindo o andarilho numa perfeita demonstração do paradoxo de Zenão que a todos agradou. Contaram-se algumas piadas e fizeram-se confissões. Os mais afoitos aproveitaram mesmo para interpretarem uma ou outra canção popular.

Era este um grupo particularmente simpático e foi com mágoa que nos vi chegar à praça do mercado, precisamente no momento de maior entrega, de uma quase euforia colectiva. Assinalei a minha intenção de sair na paragem seguinte e comecei as despedidas. Entre beijos e apertos de mão, tive de me conter para não ceder a algum sentimento mais líquido. Cheguei-me à porta do autocarro, deixei-lhes um sorriso e os votos de reencontro e desci as escadas. Fiquei a acenar-lhes da rua enquanto partiam em direcção a um serão já fora do meu alcance.

Subi as escadas do prédio e inspirei fundo antes de dar a volta à chave. Entrei rendido no meu pedaço de mundo, alugado e partilhado. Ela saudou-me da cozinha com uma daquelas frases que tão bem servem. Respondi no mesmo tom e trocámos beijos tangentes. Pouco depois estamos sentados um em frente ao outro com os pescoços torcidos na direcção do televisor. Temos o garfo suspenso no ar e vemos mortos de guerras monótonas darem lugar às gaffes de políticos, eles próprios gaffes da natureza. Ruminamos de boca e olhos abertos aquela mistura de puré com sangue de gente pobre, de ervilhas congeladas e palavras banais, almôndegas tristes de artistas medíocres e gatinhos prodígio. Depois tomamos café. Vemos um filme e um debate e vamos para a cama como quem desiste. Apagamos a luz, contamos uma mentira para não dizermos outra, e acabamos por fazer o óbvio imaginando sabe-se lá o quê.

Eu às vezes só gostava que nos voltássemos a encontrar no 14 daquela tarde de Janeiro. Que tal como dessa vez subíssemos juntos e às voltas as escadas do prédio. Que abríssemos todas as portas até chegar ao quarto e aí fizéssemos um amor que já não sabemos onde deixámos.

11.2.09

Hidrostática

O barco ia-se afundando lentamente enquanto a orquestra tocava a última valsa. Os olhos dos músicos gritavam de pânico a cada nota, apenas o contrabaixista tentava dissimular o sorriso.

Acordar Um Dia XIV

Acordar um dia demasiado tarde. Ler o atraso no despertador, no calendário e no espelho.

10.2.09

Era Assim

Pelo atelier da Mariana passavam diariamente as personagens mais estranhas. Era gente sem poiso certo ou uma ocupação conhecida, por vezes nem mesmo um nome. Era assim no atelier da Mariana.
Passávamos as noites (era quase sempre noite) a fumar e a beber. Falavam-se de coisas vagas e por vezes havia alguma rapariga bonita. Nós alinhávamo-nos de copo na mão e fazíamos uma corrida em câmara lenta para ver quem chegava primeiro. Nem sempre havia raparigas bonitas, mas nós fumávamos e bebíamos não obstante.
Eram dias em que o tempo passava muito devagar. Sobravam-nos minutos e horas inteiras que não sabíamos gastar. Durava muito o tempo por essa altura. Nós fumávamos e bebíamos e uma conversa durava toda a vida. Assim era no atelier da Mariana.


(Ilustração de Marco Mendes)

9.2.09

Feitios

Era aquela uma família de gente dotada. Um ministro, vários advogados e alguns médicos ilustres de reputação confirmada pelos maiores doentes. Vivia-se ali a um nível altíssimo, não havia lugar para diletantes amadores ou poetas danados. Artistas e putas, só de importação.
Um dia nasceu o Serginho, e fê-lo muito como costumam fazer outros nas mesmas circunstâncias, ou seja, sem querer. Do calor materno para o branco hospitalar, dos cantos redondos de um corpo que se conhece para um mundo idiota cheio de olhos esbugalhados a adivinhar parecenças, tudo eram renitências e hesitações. Mas nasceu, ou foi nascido, e cedo foi levado para o lar provecto cheio de mognos e livros encadernados em pele.
Que bonito era o Serginho. Uma bela criança que deu em crescer enquanto os outros esfregavam os olhos. E comia tudo o Serginho, e dormia sonos de menino Jesus o Serginho, era um petiz abençoado.
Segunda a tia Luísa, uma solteirona muito direita e de nariz em abre-latas, era este um rebento exemplar. Senão vejamos (e puxava pelo caderninho), aprendeu a dizer adeus aos cinco meses, aos seis já se aguentava de pé e aos nove começou a caminhar, um verdadeiro prodígio de caracóis. Havia apenas uma pequena lacuna no percurso do rebento, é que tardava em falar. Ia já em ano meio e ainda ninguém o tinha ouvido articular o mínimo som, nem “mamã”, ou “papá” ou “pepê” ou mesmo “pá” ou “mã” ou qualquer outro ditongo que os familiares pudessem interpretar. Nada, o catraio fazia voto de silêncio.
Naturalmente o Serginho foi visto pelos melhores especialistas disponíveis no burgo e estes, que eram unânimes em poucas coisas, numa concordavam, o petiz não era mudo, apenas não sabia ou... não queria falar. Feito o diagnóstico, começou toda a família a envidar esforços para convencer o pirralho. Doces, chocolates, cócegas e beijinhos, chantagens (emocionais e das outras), sevícias, palmadas e orelhas torcidas. Aquilo foi o diabo. Mas que viesse a inquisição, o doce arcanjo Gabriel, ou um palhaço coberto de algodão doce, era igual, o raça do moço não falava nem que se virasse o mundo. Impassível e silencioso como uma estátua particularmente impassível e silenciosa. Assim era o Serginho.
Foram passando os anos e foram-se conformando os parentes. O Serginho fazia tudo o que faziam os outros miúdos e às vezes até melhor, tinha as suas habilidades, mas coitadinho, não falava. Pelo menos não era aleijadinho, nem parco de entendimento, e antes assim que pior. Era essa a sua índole.
Até que um dia, estando toda a família a jantar, aconteceu um silêncio no final da sobremesa. Alguns olhavam o copo, outros lambiam a colher e outros nem menos isso. E então, com um ar muito solene levantou-se o Sérgio. Pôs-se muito direito no alto da adolescência espigadota e olhou lentamente em redor. O rapaz inspirou fundo e de seguida abriu a boca. Na sala o ar vibrava com tantas expectativas. Mas foram bem escusadas, o estafermo fechou a boca e de novo se sentou para esperar o café. Quem saberia das suas razões?

8.2.09

Do caderno de Cide Hamete Benengeli

Cansado do caminho, da vida e de certos deveres da ficção, Dom Quixote descansava um dia à sombra de um sobreiro. À sua frente, tinha pintada com cores vivas e simples a figura de um Sancho que dormia com a enorme barriga a sair das calças abertas. O seu ventre inchava sempre que adormecia, como para conter os sonhos que no caso de Sancho habitavam outras geografias.
Dom Quixote levantou-se a custo e subiu dolorosamente até ao cimo do monte. Daí conseguia ver com clareza os moinhos de Dom Pablo e da viúva Castañeda. Que tristes eram os moinhos de Dom Pablo e da viúva Castañeda. Moinhos, montes, sobreiros e Sancho, tudo lhe parecia vazio e desnecessário como o que não estava escrito. Como um velho demente que atravessasse a vida sem se inventar uma outra.
Então Dom Quixote inspirou fundo, depois fechou os olhos para dentro e ensaiou mais uma vez o monólogo do exército de gigantes.

6.2.09

Acordar Um Dia XIII

Acordar um dia ao som de música e sapatear até à casa de banho. Sair de toalha na cintura e dançar com a mulher-a-dias. Cantar alto da varanda com todos os vizinhos a fazer coro.
Sair à rua e conduzir um cortejo com fanfarra, dançarinos e palhaços. Percorrer as ruas da cidade atiçando os desejos e as curiosidades. Distribuir balões pelos cachopos e vinho pelos velhos. Acenar a quem passa. Enfiar o cortejo no metro com tudo o que isso implica.
Sair discretamente numa paragem e vê-los seguir viagem. Ir para o trabalho, picar o ponto e não pensar mais nisso.

5.2.09

Descuido

Recebeu as análises de sangue e ficou tão aliviado com os níveis de colesterol que nem leu mais abaixo, onde se viam os resultados das infecto-contagiosas. Resolveu assim sair para comemorar com os amigos numa longa noite de copos e excessos.
Foi esse o seu ultimo momento de felicidade, de resto apenas possível graças ao tal descuido.

4.2.09

Acordar Um Dia XII

Acordar um dia a meio de uma enorme epifania onírica. Significados ocultos e subtis revelados com clareza cristalina. Ter preguiça de escrever. Voltar a adormecer. Acordar duas horas mais tarde a meio de um sonho palimpsesto feito de palhaços pernetas e mamas voadoras.

3.2.09

Geografias

O senhor vai por aí fora e segue essa rua onde um dia eu vinha passear de bicicleta à porta da Sónia loira. Depois vira na segunda à direita, junto ao quiosque abandonado que alugava Ginas às meias horas. Vai-lhe aparecer uma rotunda, onde eu uma vez bati numa furgoneta, o amigo contorna-a e sai à esquerda, por uma via estreita de sentido único onde nós jogávamos futebol depois da escola. Ao fundo há uma pracinha, que até lá costuma estar sentado o Senhor Pires, agora que já não corta cabelos nem me pergunta se eu quero a capa do Benfica ou do Sporting. Estacione por aí, deve encontrar lugar junto à figueira que cortaram por alturas da minha primeira comunhão. A repartição é mesmo do outro lado da praça, não tem nada que enganar.

31.1.09

Em Forma de Verdade

A vida não continua. A vida, minha, tua e das pessoas, está sempre amarrada a uma estaca. Ao pescoço temos uma corda de um tamanho que não merecemos e à nossa frente a relva rala que vamos comendo em círculo. Por isso não me venhas dizer que a vida continua. A tua vida continua? Para onde? Eu não saí daqui e vi-a ontem, via-a hoje e vou vê-la amanhã. Somos vizinhos de estaca. Não digas idiotices por favor. Se eu acreditasse talvez tu acreditasses também, e depois? Ríamo-nos, enchíamo-nos de substâncias que os nossos corpos não produzem e chorávamos às escondidas, não era? Deixa-me insistir na semântica. Vai-se andando sim, os dias vão sendo um de cada vez, o sol ainda nasce cada manhã e também hoje comemos pão; mas a vida não continua e as estrelas não precisam de nós.

30.1.09

Alomorfia

E em desencontro ao sonhador de fábulas muito se enfadou um dia o bom Deus. Do alto do seu divino arbítrio, que é eterno e justo e bom, Deus viu o fabulador e nos pergaminhos da sua alma leu grandes infâmias e grande desacordo. E de todas as invenções de mau engenho, nenhuma Lhe era de maior vileza do que essa de artes mui contra natura, de fazer de um animal um homem e de um homem fazer besta sem baptismo. E assim o bom Deus resolveu castigar o fabulador.

Por todos os seus dias na terra, o criador de fábulas haveria de ser confundido e teria muitas dores e grandes aflições. Ao nascer de cada aurora, com os primeiros raios de sol que acordam quantos dormem o sono tranquilo dos filhos de Deus, o fabulador sentirá grandes sobressaltos. Os seus braços se abrirão num despedaçar de carnes e sangue e outros braços surgirão onde esses haviam sido. A sua face haverá de derreter-se como água do gelo e no seu lugar uma outra surgirá igual à que se perdera. Os seus olhos haverão de mirrar e cair das órbitas juntando-se ao pó dos caminhos. No seu lugar outros olhos se farão, tão iguais e perfeitos aos que antes foram.

A cada dia por sobre a terra, o fabulador se transformará em si mesmo com grande estupor e espanto. A cada dia ele deixará de ser para voltar a si, no mesmo corpo que sempre foi e que sempre será.
Que assim se cumpra a vontade de Deus e a pena do sonhador.

29.1.09

Acordar Um Dia XI

Acordar um dia com a bruma da cidade a ensopar o lençol



(Cidade de Marco Mendes)

Rotina

Saiu um dia para a rua sem a cabeça. Ao final da manhã, quando ia já em meio dia de trabalho, apercebeu-se do sucedido. Deu um salto a casa à hora do almoço e remendou o esquecimento.
O incidente não o tornou mais sábio ou mais cauteloso, mas dá-lhe muita vontade de rir.
Deixou-lhe também algumas dúvidas quanto à utilidade de certas usanças.

27.1.09

Cenário

Não posso porém deixar de me espantar. São certas horas costeiras de um cenário tão preparado, tão assim sem palavras. Como por exemplo daquela vez em, lembras-te não lembras? Como dessa vez. Essa mesma coreografia rigorosa e descuidada que resultou em beijos e palavras excessivas. O desenho das gaivotas que olhavam para nós à espera de entusiasmos de voo e vento. O baixo-relevo de muitas conchas exaustas à nossa espera. Sacanas das conchas. E isso era só o que nós víamos, dos peixes eu adivinhava outro engenho, bailados sóbrios com reflexos de extravagância. E tu também adivinhaste, não foi? Sacana de ti.

Havia também o resto, os colegas de espécie, os que corriam e faziam pose, os que serviam cafés e entravam no mar como se fosse deles, (o mar que era nosso, lembras-te que era nosso?). E as crianças tão espertas que faziam de gente? E os que cantavam sozinhos a fazer conta de silêncios? E os que escreviam versos nojentos que não nos mencionavam?
Outros sorriam com um ar inteligente de haver espreitado segredos. Mas que segredos? Se eles soubessem (mas tu não lhes digas, não lhes digas nada) que esta luz branca e enviesada fez cento e cinquenta milhões de quilómetros só para me queimar os olhos e fechá-los para ti... Sacana da luz. Mas foi assim que fizemos, não foi assim que fizemos?

Acordar Um Dia X


25.1.09

Acordar Um Dia IX

Acordar um dia qualquer que seja domingo de manhã. Não demasiada manhã. Levantar-se sem fazer barulho e ir até à cozinha. Fazer um pequeno-almoço de hotel com sumo de laranja, sem juntar água. Voltar para o quarto. Tomar o pequeno-almoço na cama e sorrir. Fingir espanto pela metade que sobra. Sorrir de novo. Sair para a rua demorando o passo aqui e ali. Enfadar-se, pouco. Subornar um cão vadio e passeá-lo por um jardim. Sorrir alto. Voltar para casa assobiando aquela música. Sentar-se ao computador. Relembrar certas habilidades. Invadir a central de GPS e mandar toda a gente para a puta que os pariu.

24.1.09

Para ti, Tomé

Enquanto eu fui pequeno, numa gaiola lá de casa moraram alguns periquitos. Os periquitos, verdes e amarelos uns, azuis e amarelos outros, têm o costume de falecer em tempo anterior aos seus proprietários. Assim aconteceu lá em casa, pelo que a mim compete contar a história.

A gaiola dos meus periquitos era o apartamento de classe média dos psitaciformes. Não era de grandes luxos mas tinha asseio, água, e alpista nas caixinhas. Uma bênção.
Os maraus tinham-me custado uma prenda de aniversário. E eu nunca abria a gaiola. Minto. Às vezes arriscava por lá a mão e era um desatino de penas até conseguir agarrar um. Sentia-lhe a taquicardia caguinchas, fingia-me muito grande, e retirava a mão com um estalar da porta. Era um lindo desenfado.

Eu observava os passaritos com muita atenção. Gostava de os ver doidos com o cheiro da comida, de como esvoaçavam para serem os primeiros a chegar às manjedoiras pequenitas. Tanto observei que um dia quis experimentar um ardil. Tão simples e inocente quanto hoje o vejo subtil e pérfido.
Uma das minhas mãos segurava o comedoiro atulhado, a outra segurava a porta. Então eu escancarei a portinhola e ao mesmo tempo coloquei o comedoiro no sítio. Afastei-me ligeiramente e fiquei ali com o coração aos pulos (desta feita era eu) a ver no que dava o exercício. O risco era real. Ah mas os pobres, os tolos animais nem as cabeças puseram fora dos aposentos, foi o mesmo corrupio de asas e bicos para ver quem enfardava mais grãozinhos. O Tomé ainda olhou de raspão para a janelita, mas depois fez como os outros e apaziguou as ânsias, pela goela.

O rapazito que então era eu, fechou a gaiola e dormiu mais uma noite sem filosofia. No outro dia acordou, acordei, e assim dormindo e acordando se seguiram os dias sem mais pensar em pássaros nem em gaiolas.

Mas é que às vezes, dessas e outras vezes, doem-me certas partes pequeninas de estar vivo. Como aos outros, que também estão vivos. E é então que eu me levanto com os braços encolhidos a dar a dar. Esvoaço pela sala num pânico muito meu e vou piscando o olho a um Deus cretino e pueril.

23.1.09

Acordar Um Dia VIII

Acordar um dia e dizer-te coisas muito belas. Demasiado belas, exageradamente belas. Deixar-te incomodada. Criar um desconforto que cresce até se tornar insustentável.
Alimentá-lo sem saber e perder-te diversas vezes.

22.1.09

Concomitâncias

Tudo aconteceu quando ele tinha apenas vinte e dois anos de uma vida muito como podem ser todas as outras. Uma escala demorada em Paris, uma pausa a caminho de sítios menos civilizados e de um futuro triste, triste. Mas isso só o viria a saber mais tarde, de forma demasiado progressiva para que soubesse reagir.
Um passeio deslumbrado levou-o a todos os sítios a que tais passeios devem levar. Era uma cidade feita para esse efeito, onde tudo era grande, asseado e bem arranjado. Ele que vinha de uma arrecadação sentia-se ali um intruso, na sala de mostrar aos hóspedes. Foi–se espantando e caminhando até ser acometido pela síndrome de Stendhal dos pequeninos, que se manifesta numa vontade louca de beber uma cerveja gelada na esplanada mais próxima.

Estava assim entretido nestas actividades terapêuticas quando se lhe encalhou o olhar num par de olhos perdidos, por ventura pertencentes a um esplêndido membro do sexo oposto. Os sorrisos mútuos foram mais fortes que o embaraço e superaram as diferenças linguísticas, em pouco segundos a distância que os separava tinha o diâmetro de uma mesa de café. O rumor protervo do café e alguns copos de uma cerveja vermelha criaram entre ambos uma intimidade instantânea, bem à medida dos desejos.

Desde que saíram do café até se despedirem nebulentos na estação de comboios, todas as horas foram suas e correram ao ritmo dos sonhos bons. As poucas palavras ditas pareciam vir de um tempo alheio, mais feito de impulsos que de sentidos. O resto foi silêncio, o som de corpos emocionados que pareciam saber mais do que haviam aprendido. Numa mesma noite, ele descobriu Paris, a alegria de um corpo solto e muitas outras coisas para as quais não tinha ainda nome.

No percurso da sua vida essa foi uma noite extravagante pintada em cores de excesso. Um Miró pendurado num salão vitoriano. Nos anos que se seguiram ele fez o que toda a gente faz. Trabalhar, acumular capital, casa, mulher, filhos, aparelhos domésticos e de transporte, promoções, outras máquinas para fazer sabe-se lá o quê, amantes mais ou menos remuneradas, ginásio e fins-de-semana à beira mar. E assim até rebentar, como se costuma fazer.
Foram trinta anos disto. Muitos dias a fingir querenças e a adiar vontades, muitos pequenos prazeres a cobrirem enormes loucuras. Quantas montanhas, mares e serralhos lhe visitaram os sonhos encolhidos ao canto do leito conjugal. Assim foi sendo até que não pôde mais continuar. Filhos emancipados, uma menopausa precoce com direito a cursos de pintura e ei-lo que inventa uma viagem de negócios até à sua bem recordada Paris.

Desceu no mesmo aeroporto que o vira partir e acreditou sentir no ar um cheiro familiar. Passeou o mesmo deslumbre pela cidade condescendente e procurou as pegadas invisíveis de alguém que já tinha sido. Um trânsito em espiral de centro delongado no café ainda aberto. A mesma mesa, a mesma hora do dia, trinta anos passados.
De gestos encadeados pediu a cerveja vermelha e ao pousar o copo dirigiu os olhos para uma esperança remota. E foi assim mesmo, com todas as probabilidades em seu desfavor, que viu as ridículas expectativas reflectidas num espelho da parede longínqua. Era ele que se olhava a si que se olhava. Duas, três, quatro cervejas e ela não apareceu, não se interrompeu o triste caminho óptico de uma vontade que mira um passado. Nada.

Levantou-se com a cabeça à roda e o resto também à roda. Era inútil. Ele sempre tinha sido uma pessoa de fé, mas de nada servia ignorar certas subtilezas do destino.

21.1.09

Detalhes

Decidiu finalmente fazer a operação de mudança de sexo e após algum tempo apercebeu-se que tinha cometido um erro. Seja como for, os amigos prepararam-lhe uma grande festa e deram-lhe óptimos presentes, alguns deles particularmente valiosos.
Gostava também do seu novo guarda-roupa e já não estava em idade para se chatear com pequenos detalhes.

20.1.09

Acordar Um Dia VII

Acordar um dia e ter de partir.




Ilustração de Marco Mendes, como sempre.

Num Bar, na Baixa

O bar ficava numa rua escondida da baixa e a clientela era constituída quase exclusivamente por homens com mais de quarenta anos. O balcão de madeira e o ar familiar lembravam uma série americana, aparte os tremoços e o benfica no televisor. Ele estava sentado no canto e emborcava diligentemente mini atrás de mini, preta. Sorri ao cliché e sentei-me a seu lado. Quando chegou o intervalo (e com ele o vazio), começámos a juntar palavras aos tremoços.
Trocaram-se as banalidades de circunstância, oarbitromaisestesladrõeseocaralhoqueosfodaatodos, mas acabaram os tremoços e pouco depois estava a contar-me que nos últimos dois anos tinha perdido a mulher e dois filhos. Disse-me também que antes praticamente não bebia, e que de todas as vezes tinha quase conseguido parar, até que morria mais alguém e tornava ao mesmo. Graças ao álcool, tinha perdido o emprego e o subsídio era todo trocado em minis. Assim também ele se ia convertendo em pedaços, em trocos. Chamava-se a si mesmo um alcoólico do luto. Disse-lhe que não (tínhamos a segunda parte pela frente), que era o resultado da tragédia e que não se culpasse. Ele sorriu, olhou para mim e falou lentamente: então, por que é que eu os matei?
(Publicado na Revista Minguante)

Tautologias

Há pessoas que são felizes com pessoas que são infelizes, muitas vezes graças a outras pessoas que não querem saber da felicidade para nada, mesmo sendo felizes.

Há pessoas que são razoavelmente felizes porque ainda não perceberam que são razoavelmente infelizes. Outras não.

Certas pessoas ainda não perceberam se são felizes, mas se calhar são, ou então não são. Mas está bem assim.

Há pessoas que não sabem o que é a felicidade, o que é uma grande fortuna, sobretudo se são infelizes.

Existem muitos tipos de pessoas, muitos graus de felicidade e muitas formas de lidar com isso, e está bem assim.

19.1.09

Acordar Um Dia VI

Acordar um dia devagarinho, com cuidado, sussurando-lhe ao ouvido para não o estragar.

18.1.09

Às tantas

- Olha que giro, com as orelhas brancas e o focinhito preto
- Sim, mas sabes que não gosto muito de cães...
- Preferes gatos?
- Hummm, também não sou grande fã
- Dizem que quem não gosta de animais também não gosta de pessoas
- Pois, então é capaz de ser isso.

16.1.09

Crimes Exemplares

Gostou tanto do Crimes Exemplares que depois de o haver lido resolveu matar a vizinha por coisas de somenos importância. Encontra-se agora preso e muitas vezes arrependido.
A verdade é que nunca percebeu nada de literatura nem de coisa nenhuma.

Acordar Um Dia V

Acordar um dia com um mamífero monotrémato de aspecto fusiforme a dar-nos beijinhos com o bico córneo. Como se não fossem já suficientes a ressaca e o remorso.

15.1.09

A Festa Foi Ontem

É este um povo demente
De bandeiras na janela
E o avô no hospital
Gente pobre e doente
Cravo murcho na lapela
E galinhas no quintal

Gente estranha infeliz
Que canta em vez de chorar
Rosto murcho insolente
Em surdina alguém diz
Já morreu em nós um mar
É este um povo demente

Madrugada nua e crua
Olhos brancos de remela
Marcha forçada brutal
Vai o povo pela rua
De bandeiras na janela
E o avô no hospital

Na margem de uma avenida
Pára um carro e ao volante
Um bigode de cliente
Desce uma Rosa Maria
Passo torto e minguante
Gente pobre e doente

E há um velho ainda ledo
Encostado a uma capela
Que se chama Portugal
Canta um fado do Alfredo
Cravo murcho na lapela
E galinhas no quintal

(Versão do "Há Festa na Mouraria" de António Amargo e Alfredo Marceneiro, publicada na Revista Minguante)

14.1.09

Acordar Um Dia IV

Acordar um dia no Porto




(Ilustração de Marco Mendes, esta e outras em Diário Rasgado)

Golden Years II

Ontem, como todas as terças, tomei o pequeno almoço com uma senhora de outro tempo. Eu cheguei atrasado, um velho hábito meu, ela chegou sessenta e cinco anos mais cedo, como também costuma fazer. Sentámo-nos na mesma mesa de sempre, num canto do café encostados a uma grande janela. Ela sorri vendo os soldados que voltam para o quartel abraçados às prostitutas, enquanto eu me entristeço ao ver os netos obesos que balanceiam rua abaixo fardados de turistas.
Ali ficamos pouco mais de um quarto de hora a debicar os croissants, ela acompanha o seu com um cappuccino enquanto eu bebo um sumo de laranja seguido de um café curto curto. Nenhum de nós diz qualquer palavra, mas por vezes, sem que me aperceba, escapa-me a melodia murmurada de uma música que ela ainda não sabe cantar.
Ela olha para mim sem me ver e eu olho para ela sem ver mais nada. Vejo-a num caleidoscópio temporal feito de muitas personagens, diversos sorrisos e algumas lágrimas falsas (algumas não). Reprimo o meu desejo de a beijar imaginando que não é real (como se a realidade me fosse necessária para o que quer que seja) e fico ali a fumar sozinho ao vê-la levantar-se e caminhar elegante para longe de mim. Sem aceno nem adeus, sem nada.

13.1.09

Acordar Um Dia III

Acordar um dia e acreditar que sim.
Tentar por todos os meios e falhar.
Fazer planos de acordar num outro dia.

12.1.09

Anomalias

Acordou de repente com a luz do dia a abanar-lhe o espírito. Viu o tecto do quarto coberto de algas, os raios verdes de um sol azul a entrarem pela janela, e percebeu que o sonho não tinha ficado nos lençóis. Abriu caminho por entre as fêmeas que lhe ocupavam a cama e dissimulou o espanto perante o número improvável de seios. Correu através de um corredor sem fim até chegar à casa de banho que se abriu debaixo de si. Mirou-se num espelho negro e viu-se sem dentes nem cabelo numa cara que era a do seu pai e de um certo filho que não tinha tido.
Calçou uma meia verde num pé e uma meia amarela no outro pé numa ânsia nervosa de antecipar o destino, mas saiu de casa com os pés trocados e o pijama em desalinho. Cumprimentou todos os animais que encontrou pela estrada, mesmo os que o tinham abandonado numa manhã de S. João (com fogueiras frias que levavam ao mar, mesmo mesmo à beira mar).
Foi cruzando ruas com nomes de canções de outras músicas que não essas, e começou a habituar-se às quedas, essas terríveis quedas que ao início lhe causavam tanta angústia. Descobriu que lhe bastava adormecer, uma brevíssima fracção de segundo que lhe amortecesse a queda e o fizesse acordar no cimento em forma de relva que lhe picava os pés trocados (os dois pés trocados).
Foi caindo e voando a preto e branco até chegar à porta do escritório. Um escritório roubado de um filme que nunca tinha lido e onde um porteiro o saudou por um nome que poderia muito bem ser o seu. Teve o cuidado de escancarar a braguilha, sujar a gravata de molho de tomate e entrou triunfante na fábrica absurda e redundante onde o baile já tinha começado. E foi nos braços da Teresinha, a Teresinha de olhos brancos e poluções precoces que girou e riu até ser noite escura, muito mais escura do que pode e deve ser a noite.
Deu por si deitado num cansaço de muitos anos e de muitos risos contidos, cheio de mágoas e desejos mal cumpridos, com pessoas conhecidas que lhe ajeitavam os cobertores. Fixou os amigos e os outros que o poderiam ter sido e fechou os olhos de todos eles com os seus.
Chorou então os últimos medos e matou os últimos desejos, preparou-se para um derradeiro sonho de ideias e decisões, de pessoas que dizem “como está” e “muito gosto em conhecê-lo”, que vivem segundo princípios e objectivos e outras coisas importantes e, nesse instante, nesse mínimo instante em que uma parede deixa de ser parede para começar a ser chão, teve a certeza de que nada é mais do que tudo o que poderia ser.

Acordar Um Dia II

Acordar um dia com o corpo coberto de pêlo às riscas, as unhas serem garras, as mão patas, os dentes presas e a mulher pequeno-almoço.

11.1.09

Eu e Ela e Ele

E nós que nos dávamos tão bem?. E dávamo-nos tanto e com tanta vontade que eu tinha ganas de não ser eu para nos poder ver e admirar do quanto nos éramos dados.
E ela tão sensível e tão delicada, que me sorria com o corpo todo e me fazia festas como se eu fosse um animal. Como aliás fazia ao Galileu, o seu gato de estimação.
E eu que sou tão alérgico aos felinos, que espirro e comicho como poucos possam espirrar e comichar face a tão macios animais?
E os anti-histamínicos que davam cabo de mim e me davam dores de cabeça, tonturas, diarreias, perda de libido e impotência?
E os gatos que caem de pé e sem mágoa se atirados do segundo andar? E os mesmos animais que ficam mancos e desorientados se impulsionados do quinto esquerdo?
E os sacanas dos bicharocos que dão em morrer e rasgar as entranhas se lhes falta o sustento num sétimo andar direito? Onde calhava viver a minha Aninhas.
(Publicado na Revista Minguante)

Boa tarde e obrigado

Esta é a sexta vez que a vejo. Noto que me olha com cada vez mais agrado. Chamem-lhe química ou desejo ou tesão, mas há ali algo que tem certamente um nome.
Devo reconhecer que é simpática para toda a gente e que cruza o seu com o olhar de tantos outros homens. Sim, é verdade. Mas há ali um não sei quê de atrevimento, um langor todo feminino que me dá mais alguns segundos que são só meus.
Eu preparo o discurso e ensaio-o até à máxima eficiência. Ah, mas é tão rápido, quantas palavras poderá ela escutar por entre gestos tão mecânicos? Por quanto sejam graciosos...
Pelas minhas contas faltar-me-ão ainda sete ou oito passagens, sete ou oito carrinhos cheios a transbordar até que a possa convidar para um café à saída do supermercado.

Mágoa

Os gestos eram iguais; os mesmos gritos abafados, a mesma resistência inicial e a rendição após alguns segundos. Esta era um pouco mais alta e miúda de cara, por tudo o resto, incluindo os modos, poderiam ser irmãs. Segui o mesmo procedimento com ambas; sem palavras, sem violência mas com uma firmeza decidida. Recordo-me que com Sofia demorou mais tempo e que, embora no mesmo jardim e apenas alguns dias mais tarde, o tempo era mais frio e húmido. Teria sido isso?
Passaram quase três anos desse esse dia e não me conformo que tenha informado a polícia.

Prodígio Enjeitado

Então ele mandou pôr dois peixes e cinco pães em cima de uma grande mesa. Ordenou que estes se cobrissem com uma toalha branca e pediu a todos que se afastassem. De seguida ele olhou para o céu através do telhado em ruínas e pediu ao pai, pelo buraco de uma telha partida, que procedesse ao milagre algébrico que fizesse de um peixe vários peixes e de um pão outros pães. Em tudo isto não é certo que de alguns pães não tenha ele feito peixes e de algum peixe não tenham resultado pães. A toalha cobriu os segredos do processo e as gentes raramente são sensíveis às subtilezas quando de comer se trata.
Mandou então afastar a toalha e os assistentes assim procederam, sem nunca descurarem certos modos solenes próprios de tais funções. Ele arregalou muito os olhos, abriu os braços e franziu a testa numa surpresa muito ensaiada, enquanto mostrava à sua frente uma enorme quantidade de pães e peixes em duas pilhas ordenadas. As gentes olharam-se em espanto premeditado e logo começaram a bater palmas e a dar vivas aclamando a aberração gastronómica.
Ele continuava de braços e olhos esgargalados e as gentes gritavam mais e aplaudiam com mais força e davam pulos nervosos com medo de o não contentarem. Depois encheram suas bocas de pão e pedaços de peixe cru dizendo que era bom para em seguida fugirem para um canto e vomitarem sem que ele os visse. Foi assim até chegar a noite e não restarem pães nem peixes e haver grande fastio e todos terem grande vontade de voltar a casa e esquecer quanto pudesse vir a ser esquecido.
Por todo o povoado se mascaram toda a noite ervas e mistelas com o malogrado intuito de combater as repugnâncias dos palatos. Ele partiu pela manhã sorrindo de alto aos rostos agoniados e insones que haviam querido certificar-se do saimento, com uma mão o entregavamao pai em falsos acenos e com a outra seguravam fresquíssimas folhas de hortelã que iam mastigando pelos intervalos dos sorrisos amarelos.
A partir desse dia todos os tectos da aldeia foram remendados. As cabras continuaram a ser criadas como até aí e algumas eram sacrificadas a deuses distantes. Os forasteiros eram tratados a paus e pedras e nenhum se atreveu a voltar. Aos homens que não pagavam as suas dívidas e às mulheres infiéis, era deixado pela manhã um monte de peixe às suas portas e era-lhes reservada uma injúria que as gerações vindouras não conseguirão compreender.

Construção

Este texto que agora escrevo não foi preparado, pensado, ou ditado por qualquer imperativo estético ou de corrente. Peço antecipadamente desculpa por quaisquer erros ou falhas que nele encontreis as quais se devem apenas e só à incompetência e desleixo do autor que a vós se dirige. Apelo à vossa compreensão e predisponho-me a fazer as correcções e adendas que os excelentíssimos leitores considerarem pertinentes ou oportunas. Termino este meu contributo sabendo que a vossa atenta leitura será da maior importância para o enriquecimento do mesmo e para o seu desenvolvimento. Muito obrigado

Existencialismo

- Tenho 30 anos e nunca fiz amor com uma negra. Nunca comi lagosta, nunca andei num Ferrari nem vi os Alpes. Nunca entrei numa orgia, experimentei drogas ou conheci alguém verdadeiramente famoso.
- Não penses nesses termos...
- Foram trinta anos sem aparecer na televisão, aprender a tocar um instrumento ou a dançar tango. Pelo menos alguma experiência homossexual, ou um salto de paraquedas, algo que pudesse contar ou esconder mas que me fizesse sentir vivo e único.
- Sim, mas tens de ver que apesar de tudo és uma tartaruga
- Pois, e depois há ainda isso...

10.1.09

Tornou-se budista porque precisava de espiritualidade, comprou um gato porque precisava de companhia, começou as consultas no psiquiatra para ter alguém que a compreendesse, começou um curso de dança porque se queria divertir.
Deixou-me porque não lhe fazia falta.
(publicado na revista Minguante)

Acordar Um Dia

Acordar um dia e perceber que toda a vida não passara de um sonho palerma.
Levantar-se, lavar a cara, olhar-se ao espelho e voltar para a cama.
 
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